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Penso, logo duvido

12.03.2017
 
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Penso, logo duvido

No Dia da Mulher fiz uma pequena provocação na minha página no facebook, lembrando o que disse o Millôr, de que o mais importante movimento feminista era o dos quadris.

Disseram que o Millôr tinha posições de direita. Não tinha, não. Ele e muito mais o Nelson Rodrigues, eram anarquistas e sempre duvidavam das verdades estabelecidas.

 Infelizmente, todos esses movimentos que dizem representar as minorias (as mulheres, os negros, os LGBT, os indígenas) são profundamente maniqueístas e vivem de verdades estabelecidas, quase dogmas religiosos que não podem ser contestados e nem ao menos discutidos.

Não que eles não tenham razão.

Têm.

Não, que não devam dramatizar seus eventos fundadores.

Devem.

O problema é que eles não aceitam contestações as suas verdades e nada melhor do que uma contestação ao que pensamos, para que possamos aprofundar nossas certezas.

Nós, que nos pretendemos comunistas, sabemos bem como isso funciona.

Admirávamos de uma forma quase religiosa a Stalin, como o "genial condutor dos povos", até que Kruchiov,  no seu famoso relatório secreto, apontou todos os seus crimes. Fizemos o mesmo com Prestes, no Brasil. Desiludidos, acreditamos na Perestroika e na Glasnost de Gorbachiov,  até nos darmos conta que seu papel foi fundamental para o esfacelamento da União Soviética.

Agora surge o escritor italiano Domenico Losurdo , com o seu livro A História e a Crítica de uma Besta Negra, falando sobre a demonização de Stalin e de certa forma, tentando recuperar a sua imagem

Duvidar sempre, prontos a mudar para melhor o que pensamos, pode ser o melhor caminho, pois como dizia o Barão de Itararé mudar uma idéia não é ruim. Ruim é não ter uma idéia para mudar.

É preciso enxergar nos homens e nos fatos toda a sua complexidade.

Nelson Rodrigues defendeu a ditadura, mais para provocar a esquerda que ele achava pouco inteligente do que por acreditar nela, mas ela, a ditadura, prendeu e torturou seu filho.

Millôr dizia que livre pensar é só pensar e ironizava os militares no Pif-Paf, mas foi o único que não foi preso, quando toda a redação do Pasquim foi para a cadeia, possivelmente para o incompatibilizar com seus companheiros.

Lula foi preso pelo delegado do DOPS, Romeu Tuma, mas cultivou uma estranha amizade com ele, a tal ponto que o filho de Tuma escreveu um livro dizendo que Lula passava informações do movimento sindical.

Nem por isso, Lula deixou de representar uma esperança de retorno do Brasil à democracia perdida no golpe contra Dilma.

Os nazistas ocuparam boa parte da França durante quatro anos e os franceses ainda hoje gostam de exaltar os feitos da sua resistência.

Esquecem que um dos seus maiores romancistas, Cèline, defendeu abertamente os nazistas em seus livros.

Que Sartre nunca foi incomodado pelos ocupantes alemães.

Que Maurice Chevalier e Edith Piaf cantaram em campos de concentração de prisioneiros alemães pagos pelos nazistas.

Que Cocô Chanel vivia no Hotel Ritz com o amante, um oficial alemão.

Que o famoso diretor de cinema Sacha Guitry era amicíssimo do embaixador alemão, Otto Abetz.

Que Picasso viveu em Paris sem ser incomodado durante a ocupação e que se recusou a assinar uma petição pedindo a libertação do poeta Max Jacob.

Esquecem, finalmente, que o famoso arquiteto Le Corbusier, para agradar às autoridades nazistas das quais precisava para financiar seus projetos, chegou a afirmar que "a sede dos judeus por dinheiro corrompeu a França."

É preciso questionar certas "verdades" e desfazer algumas "mentiras".

Israel é uma democracia, pelo menos para os judeus.

Mas, impediu que um judeu norte-americano, Norman Finkelstein, filho de pais assassinados em Auschvitz, desembarcasse em Tel  Aviv.

Motivo: ele escrevera um livro chamado A Indústria do Holocausto, denunciando interesses escusos de alguns na divulgação do episódio.

Cuba é uma ditadura que não dá liberdade de expressão aos cubanos.

Apesar disso, Cuba permite que a blogueira Yoani Sanchez, paga pelo jornal espanhol  El Pais, continue falando mal do governo e o escritor Leonardo Padura fique rico, escrevendo seus livros sem sair da Ilha, em nenhum deles falando bem da Revolução Cubana.

No Dia da Mulher ouvi os discursos das vereadoras de Porto Alegre Sofia Cavedon e Fernanda Melchionna, duas valorosas defensoras do movimento feminista, do qual parecem disputar a liderança, e mais uma vez me dei conta de como elas perderam uma bela oportunidade de discutir a importância da luta histórica das mulheres ao preferirem apenas lançar, em altos decibéis, palavras de ordem que, pela repetição, se tornaram inócuas.

Marino Boeira é jornalista,formado em História pela UFRGS

 


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