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Guerrilheiras das FARC

12.02.2008
 
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Guerrilheiras das FARC


Fala-se e escreve-se muito dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – quase sempre para os caluniar – e pouco das guerrilheiras. A maioria dos europeus ignora que milhares de mulheres combatem nas 60 Frentes em que as FARC lutam naquele país. Conheci muitas em 2001, nas semanas vividas num acampamento amazónico da organização revolucionária. Como transmitir no breve espaço de uma crónica, o que em mim ficou do contacto com essas guerreiras de novo tipo?

"O Amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte"

FLAVIO PEREIRA

"Ninguna mujer nace puta. Pero muchas nacemos para la lucha!" (MMM)

GUERRILHEIRAS DAS FARC
Fala-se e escreve-se muito dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – quase sempre para os caluniar – e pouco das guerrilheiras. A maioria dos europeus ignora que milhares de mulheres combatem nas 60 Frentes em que as FARC lutam naquele país. Conheci muitas em 2001, nas semanas vividas num acampamento amazónico da organização revolucionária. Como transmitir no breve espaço de uma crónica, o que em mim ficou do contacto com essas guerreiras de novo tipo?


Encontrei ali moças tão diferentes que seria redutor o esforço para esboçar o choque emocional provocado pelo descobrimento das combatentes das FARC. De comum entre elas apenas a coragem, a capacidade de adaptação a condições de vida duríssimas e uma confiança total na justiça da luta das FARC e na vitoria final, sem data.


No meu acampamento somente uma não tinha companheiro. Apenas Eliana ultrapassara os 40. A maioria não atingira os 25 anos. A ética da guerrilha impunha normas que eram respeitadas. Se dois namorados pretendiam estabelecer uma relação amorosa informavam o comandante. A infidelidade não era tolerada pelo código da guerrilha. A pareja era autorizada a dormir na mesma caleta, o estrado-cama que, sob um toldo de plástico, na grande floresta, fazia as vezes de casa. O regulamento proibia também que os guerrilheiros, homens ou mulheres, mantivessem relações sexuais com hóspedes das FARC.


Mas não havia moralismo. Se um casal decidia pôr termo à relação comunicava essa decisão ao comandante. O gesto consumava a separação.


As mulheres realizavam os mesmos trabalhos que os homens, desde o treino militar à abertura das latrinas. Iguais direitos, tarefas idênticas.


O quotidiano dos acampamentos não permitia a privacidade a que hoje estamos acostumados na vida quotidiana. Na selva, infestada por transmissores de doenças perigosas, o banho diário é imprescindível à defesa da saúde. As mulheres banhavam-se no rio ao lado dos homens numa atmosfera de camaradagem e respeito que me impressionou. As normas do pudor, tal como as conhecemos, não podiam funcionar ali. Mas nunca, nem nos olhares nem nas palavras testemunhei atitude da qual transparecesse um comportamento machista.


Elas, tal como eles, tinham diferentes origens sociais. Algumas tinham vindo de grandes cidades, outras dos llanos ou dos vales quentes, outras ainda das terras frias da Cordilheira. A origem social transparecia mais no diálogo do que no comportamento, porque raparigas de famílias camponesas haviam adquirido uma sólida formação ideológica.


Para surpresa minha quase todas eram bonitas.


Na Aula – o lugar onde à noite o colectivo da guerrilha se reunia para assistir a palestras e debater o tema com o «professor» convidado – tive a oportunidade de falar mais demoradamente com algumas que mal conhecia, como a Adriana e a Jenny.


Um exército de heróis


O meu trabalho exigiu contactos muito frequentes com quatro: a Glória, a Eliana, a Yurleni e a Isabel.


Glória era a secretária sem título do comandante Raul Reyes. De origem pequeno burguesa, adquirira uma formação marxista ampla, pouco comum. Era a responsável pelos computadores e pelas transmissões por rádio, serviços instalados num «escritório» que se diferenciava das caletas apenas pela sua maior dimensão. Enviava mensagens codificadas e decifrava as recebidas. A sua intimidade com o mundo da informática fazia de mim um aprendiz bisonho.


Era muito bonita e nem o uniforme lhe afectava a feminilidade. Foi durante as lentas viagens para El Caguan, através de uma estrada imprevisível que rompia as matas da região – ela guiava carros pesados como uma profissional- que do seu passado soube aquilo que me contou. O suficiente para eu entrever nela uma personagem de novela que irradiava uma intensa alegria de viver.


Em Eliana encontrei uma revolucionária de outro tipo. Responsável pela intendência, ocupava-se com zelo de tudo o que se relacionava com o abastecimento do acampamento. A sua beleza não era física. De meia idade, entroncada, brusca nos movimentos, alcançara o grau de subcomandante e o seu currículo de combatente dissipava duvidas sobre os méritos da guerrilheira. Era de poucas falas, mas, ao volante de um camião, respondia com rapidez e segurança às perguntas que eu formulava sobre a história das FARC e a organização do acampamento.

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