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A preparação da guerra contra o Irão

11.07.2019
 
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A preparação da guerra contra o Irão

 

POR ANTÓNIO ABREUQUARTA, 03 DE JULHO DE 2019

 

A sabotagem de petroleiros no Golfo de Omã desencadeou um pico de suspeições quanto a Teerão. A operação visou dar «substância» à parola mobilização militar dos EUA por abate de um drone que espiava o Irão.

A sabotagem, por ninguém reclamada, de petroleiros de diferentes bandeiras, no Golfo de Omã, nestas últimas semanas, desencadeou um pico de suspeições em relação a Teerão. Até agora ninguém reclamou as acções nem os próprios EUA. A operação teve claramente o objectivo de dar mais «substância» à parola mobilização militar por abate de um drone norte-americano que espiava o Irão. Mais recentemente a banca internacional deu conta da possibilidade de problemas no Golfo de Omã poderem levar a subidas de até mil dólares por barril de petróleo, e à falência da economia mundial. Das ameaças imperiais de leão, os EUA tiveram uma saída de sendeiro, ou em linguagem corrente passaram a «bater a bola mais baixo».

Para trás

Para trás ficara a nomeação de John Bolton como Conselheiro Nacional de Segurança, após a qual os EUA anunciaram, em 2018, a saída do Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA, de Joint Comprehensive Plan of Action) assinado em 2015 pelo Irão, pelos membros do Conselho de Segurança da ONU, pela Alemanha e pela União Europeia (UE). O plano, segundo o qual o Irão se compromete a limitar a sua produção nuclear em troca do levantamento das sanções económicas, estabelece que as reservas de urânio enriquecido iranianas não podem ultrapassar os 300 quilos.

Em Abril os EUA classificaram o Corpo da Guarda Revolucionária como organização terrorista e retiraram aos parceiros comerciais do Irão o direito a comprarem o seu petróleo, reinstalando sanções por essa compra. Duas semanas depois Bolton fez deslocar para região um conjunto de porta-aviões e bombardeiros referindo-se-lhe como «mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano de que qualquer ataque aos interesses dos Estados Unidos ou àqueles dos nossos aliados serão recebidos com força implacável». Donald Trump autorizou no dia 20 um ataque contra Teerão como resposta ao abate de um drone não-tripulado. No entanto acabou por cancelar a operação numa altura em que os aviões e navios estavam a ser mobilizados e não ainda em marcha, como precisou o próprio em conferência de imprensa.

O objectivo desta manobra é, pela via do bloqueio e das sanções, atingir fortemente a economia do Irão, ao não lhe permitir realizar a sua principal fonte de receitas.

Irão pressiona parceiros

Mas o Irão pressionou há dias os «parceiros ocidentais» quando a sua agência atómica anunciou, no passado dia 17, que o país estava a dez dias de superar o limite de 300 kg de urânio enriquecido acumulado, imposto pelo acordo nuclear de 2015. Behrouz Kamalvandi, porta-voz da Organização de Energia Atómica do Irão, revelou que esse limite seria superado em 27 de Junho e que a quantidade de urânio enriquecido iria aumentar «drasticamente» a partir de 7 de Julho, «de acordo com as necessidades do país», na sequência do abandono do acordo e da reposição de sanções por parte dos EUA.

Teerão prometeu acelerar o enriquecimento de urânio e disse que havia tempo de salvar o compromisso «se os países europeus agirem» nesse sentido. O investigador do think tank Brookings Doha Center, Ali Fathollah Nejad, considera o anúncio «simbólico» e ter como objectivo ampliar a pressão sobre a Europa: «pretende obter vantagens negociais e pôr ainda mais pressão sobre a Europa. É mais simbólico que substancial, uma vez que o Irão não vai cometer nenhuma violação. Vai aproximar-se o mais possível do limite, mas não o vai ultrapassar, porque não quer perder o apoio europeu».

A 1 de Julho o Irão informou terem os seus stocks ultrapassado os 300 quilos de urânio enriquecido, limite designado no tratado JPOA. A informação foi confirmada pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, de International Atomic Energy Agency), a quem o Irão tem permitido aceder sem dificuldades às suas instalações nucleares.

Dois dias depois, Mohammad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, deplorou o contínuo fracasso da UE no cumprimento das suas obrigações sob aquele tratado, declarando que Teerão «cumprirá os seus compromissos da mesma forma que a UE».

«Declaramos explicitamente que, se a Europa estiver comprometida com o Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA), também estaremos comprometidos», afirmou Zarif, em conferência de imprensa em Teerão. «Cumprimos os nossos compromissos, tal como a Europa tem feito», numa óbvia alusão ao atraso da UE em levar à prática o Instrumento de Apoio ao Comércio de Trocas (INSTEX), um mecanismo financeiro que permitirá ao Irão e à UE contornar as sanções económicas dos EUA a este país e prosseguir desenvolver relações bilaterais normais entre o Irão e os seus parceiros comerciais.

A Alemanha entre o Irão e os EUA

Angela Merkel, chefe da economia mais forte da Europa, disse que havia fortes evidências de que o Irão atacou os dois navios-tanques no Golfo de Omã. Dez dias antes, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, tinha viajado para Teerão, oficialmente para «salvar» o Acordo Nuclear (JCPOA) mas na realidade para negociar com Teerão maneiras de a Alemanha, e por associação outros membros da UE, continuarem a fazer negócios com o Irão em troca de algumas «concessões» por parte deste, a fim de apaziguar Washington.

O presidente do Irão, Rouhani, reagiu rapidamente. Maas foi dispensado. E com razão. Maas não representava realmente a Alemanha, mas os Estados Unidos. O Irão deu à UE um «ultimato» de 60 dias para cumprir os seus compromissos de negociar com o Irão, nos termos do Acordo Nuclear - apesar dos Estados Unidos o renegarem -, ou então o Irão poderia vir a ignorar algumas das condições do referido acordo. A UE não foi indiferente e os seus membros ensaiaram algum distanciamento em relação aos EUA: «pedimos aos países que não são parte do JCPOA que se abstenham de tomar quaisquer acções que impeçam a capacidade das partes remanescentes de cumprir plenamente os seus compromissos». Mas não ousaram chamar pelo seu nome o país a que a declaração era destinada - os EUA.

A posição da Alemanha é tanto mais absurda quanto foi Merkel e todo o Bundestag que aceitaram as sanções impostas por Washington à Rússia em 2014 - e as replicaram junto com o resto da UE - mesmo em seu próprio prejuízo e em prejuízo de todo o território da UE.

A chanceler Merkel - e aparentemente todo o Bundestag, mais uma vez - concordam com a igualmente absurda e falsa acusação de Washington de que o Irão atacou os dois petroleiros, um japonês e o outro norueguês. Este último pertence a um amigo íntimo do Irão, e o japonês foi atingido exactamente na altura em que o primeiro-ministro japonês, Shinzō Abe, visitava o ayatolah em Teerão para discutir como manter o acordo nuclear apesar das sanções e ameaças de Washington, portanto, uma visita amistosa. Uma pessoa cega pode ver que estas eram duas mal disfarçadas operações de falsa bandeira, com «provas em vídeo» fabricadas de maneira muito primária, que mesmo de acordo com a CIA e os militares dos EUA não representaram provas conclusivas.

Madame Merkel devia ter feito a pergunta óbvia «cui bono?» (quem beneficia desses actos?). Certamente não o Irão mas o agressor, que vem planeando e preparando a guerra com o Irão há décadas, desde a primeira guerra do Iraque com Bush, em 1991. Na invasão do Iraque em 2003 Bolton expressou abertamente os seus sonhos de demolir Irão. Ele e Pompeo são mentirosos e criminosos de guerra, que comandam a Casa Branca e fingem administrar o Pentágono - e que agem impunes. O seu poder parece ilimitado. Trump parece ser um mero fantoche nas suas mãos. Conseguir que Merkel embarque na flagrante mentira dos EUA de que o Irão estava atacando dois petroleiros no Golfo de Omã é um golpe estratégico, aumentando a credibilidade das mentiras e, assim, tornando o ataque dos EUA ao Irão mais aceitável para o resto do mundo.

Ler o iriginal e na íntegra

https://www.abrilabril.pt/internacional/preparacao-da-guerra-contra-o-irao

Foto: By Hansueli Krapf - Own work: Hansueli Krapf (User Simisa (talk · contribs)), CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8655924

 


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