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Drones: vingança da CIA e bloqueio da estratégia do Paquistão

10.11.2013
 
Drones: vingança da CIA e bloqueio da estratégia do Paquistão. 19170.jpeg

WASHINGTON, (IPS) - Depois que um ataque de um veículo aéreo armado pilotado à distância, um drones, matou, segundo o noticiário, o comandante dos Talibã-No-Paquistão Hakimullah Mehsud dia 1/11, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA declarou que, se a notícia fosse verdadeira, seria "uma séria perda" para aquela organização terrorista.

Gareth Porter, Inter Press Service
http://www.ipsnews.net/2013/11/drone-strike-served-cia-revenge-blocked-pakistans-strategy/
Tradução: Vila Vudu

WASHINGTON, (IPS) - Depois que um ataque de um veículo aéreo armado pilotado à distância, um drones, matou, segundo o noticiário, o comandante dos Talibã-No-Paquistão Hakimullah Mehsud dia 1/11, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA declarou que, se a notícia fosse verdadeira, seria "uma séria perda" para aquela organização terrorista. A reação refletiu acuradamente o argumento da Agência de Inteligência Central [orig. Central Intelligence Agency, CIA] para promover aquele ataque.


Mas a história de fundo que realmente interessa nesse episódio é por que o presidente Barack Obama apoiou os interesses corporativistas, paroquiais da CIA na guerra de drones, e atropelou o esforço do governo do Paquistão, que tenta uma nova abordagem política na crise do seu país contra o terrorismo.


O fracasso da estratégia dos drones e das operações militares dos paquistaneses nas Áreas Tribais sob Administração Federal [orig. Federal Administrated Tribal Areas, FATA], que não conseguiram conter a maré terrorista, levou o primeiro-ministro Nawaz Sharif a tentar a via do diálogo político com os Talibã.e elas começarem.


O ministro do Interior, Chaudhry Nisar Ali Khan, denunciou imediatamente o ataque do drone que matou Mehsud como "uma conspiração para sabotar as conversações de paz". Acusou os EUA de terem "detonado" a iniciativa, na véspera, 18 horas antes de uma delegação de respeitados ulema [clérigos islâmicos] decolar para Miranshah e entregar o convite formal."


Funcionário não identificado do Departamento de Estado recusou-se a comentar a crítica que o ministro paquistanês acabava de fazer aos EUA; declarou, sem se alterar, que a questão era "assunto interno do Paquistão".
Três diferentes comandantes Talibã disseram à Agência Reuters, dia 3/11, que estavam organizando os preparativos para participar das conversações de paz, mas que, depois do assassinato de Mehsud, sentiram-se atraiçoados e juraram vingá-lo com uma onda de ataques.


A estratégia de engajar os Talibã em conversações de paz, que recebeu apoio unânime de uma "Conferência de Todos os Partidos", dia 9/9, não foi ingenuidade ou sinal de ignorância sobre os Talibã, como sugeriu uma coluna do dia 3/11 do New York Times, sobre a reação dos paquistaneses ao drone e ao assassinato.


Uma das principais fraquezas dos Talibã-No-Paquistão [orig. Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP)] está em ser uma coalizão de cerca de 50 diferentes grupos, cujos comandantes, em muitos casos são menos comprometidos, que outros, com a campanha terrorista contra o governo paquistanês. No dia seguinte, depois do assassinato de Mehsud, vários comandantes Talibã disseram à Agência Reuters que ainda havia comandantes a favor das conversações com o governo.
O mais importante sucesso que o Paquistão alcançou na luta contra a violência dos Talibã nos últimos vários anos foi ter-se aproximado e construído uma base de entendimento e acomodação com alguns líderes militantes que haviam sido aliados dos Talibã, mas passaram a opor-se aos ataques contra funcionários do governo e soldados das forças militares e de segurança paquistanesas.


Sharif e outros funcionários do governo do Paquistão sabiam bem que os EUA poderiam impedir unilateralmente o prosseguimento dessas conversações; que bastaria que assassinassem Mehsud ou outro alto comandante dos Talibã; e que, para isso, os EUA têm os drones.


Em setembro e outubro, o governo paquistanês trabalhou para conseguir que os EUA dessem fim à guerra dos drones no Paquistão - ou que, pelo menos, dessem algum tempo ao governo do Paquistão para tentar sua nova estratégia política.


Dia 23/5, em discurso na Universidade de Defesa Nacional, Obama já sugerira que a necessidade de usar os drones estaria acabando, porque já praticamente não restavam "alvos de alto valor" a serem assassinados, e porque os EUA estariam retirando seus soldados do Afeganistão. Em agosto, o secretário de Estado John Kerry dissera que o fim dos ataques com drones poderia estar "muito, muito próximo".
Depois da reunião com Sharif, dia 23/10, Obama disse que os dois haviam feito acordo para cooperarem "por modos que respeitem a soberania do Paquistão e considerem as preocupações de nossos dois países"; e falou favoravelmente dos esforços de Shariff para "reduzir esses incidentes de terrorismo."


Pouco depois da reunião, o conselheiro de segurança nacional e assuntos exteriores de Sharif, Sartaj Aziz, disse em entrevista à rede Al-Jazeera que o governo Obama prometera "considerar" o pedido do primeiro-ministro, para que os EUA suspendessem os ataques com drones enquanto o governo fazia avançar seu plano de diálogo político.
Um "alto funcionário paquistanês" disse ao Express Tribune que Obama havia "assegurado ao premiê Nawaz que os ataques de drones só seriam usados como uma última opção" e que ele estava planejando pôr fim à guerra dos drones tão logo "uns poucos alvos remanescentes" fossem eliminados.
O funcionário disse que o governo paquistanês acreditava agora que os ataques unilaterais terminariam "em questão de meses".
Mas a reunião de Obama com Sharif aconteceu, evidentemente, antes que a CIA procurasse Obama com inteligência específica sobre Mehsud, para propor usar os drones para assassinar o comandante Talibã.


A CIA tinha uma 'questão' institucional a acertar com Mehsud, desde que ele distribuiu um vídeo com Humam Khalil Abu-Mulal al-Balawi, o suicida-bomba jordaniano que enganara a CIA e fizera-se convidar para o interior do complexo de Camp Chapman na província de Khost, onde o suicida se autodetonou e matou sete altos funcionários e fornecedores da CIA, dia 30/12/2009.
A CIA já havia tentado matar Mehsud em dois ataques com drones, em janeiro de 2010 e janeiro de 2012.
Assassinar Mehsud não reduzirá a maior ameaça do terrorismo e com certeza disparará outra onda de ataques de suicidas-bombas dos Talibã-No-Paquistão, nas principais cidades paquistanesas.


Embora talvez satisfaça a sede de vingança da CIA, e melhore a imagem da CIA junto ao público norte-americano na luta contra o terror, o assassinato de Mehsud tornará impossível para o governo paquistanês eleito tentar uma abordagem política contra o terrorismo dos Talibã-No-Paquistão.


Obama parece ser simpático ao argumento de Sharif na luta contra o terrorismo e não tem ilusões de que alguns ataques a mais ou a menos de drones impedirão que a organização continue a mobilizar seus seguidores, inclusive os suicidas-bombas.


Mas a história da guerra de drones no Paquistão mostra que a CIA tem conseguido fazer o que quer, mesmo quando os alvos propostos foram altamente questionáveis. Em março de 2011, o embaixador dos EUA no Paquistão, Cameron Munter, opôs-se à proposta da CIA para um ataque de drones, pouco antes de Raymond Davis ser solto da prisão em Lahore.


Munter fora informado de que a CIA insistia no ataque de drones porque estavam irados com os serviços secretos (ISI) do Paquistão, que consideravam o grupo Haqqani como aliados, no caso da prisão de Davis, segundo matéria publicada pela Associated Press dia 2/8/2011. O grupo Haqqani estava pesadamente envolvido em combates contra tropas dos EUA e OTAN no Afeganistão, mas se opunha aos ataques terroristas dos Talibã-No-Paquistão em território paquistanês.


Leon Panetta, então diretor da CIA, rejeitou a objeção do embaixador Munter ao ataque, e Obama apoiou Panetta. Só mais tarde revelou-se que, naquele ataque, a CIA confiara em informação errada de inteligência. O míssil lançado pelo drone, naquele caso, não atingiu reunião do grupo Haqqani, mas uma reunião de líderes tribais de toda a província, que tratavam de uma questão econômica.
A CIA simplesmente se recusou a reconhecer o erro e continuou a repetir para os jornalistas que só havia terroristas naquela reunião.


Depois daquele ataque, Obama deu ao embaixador, como disse, um 'cartão amarelo' [Munter renunciou ao posto de embaixador (NTs, com informações de http://en.wikipedia.org/wiki/Cameron_Munter#Early_resignation_from_Pakistan_ambassador_post)]. De fato, apesar da evidência de que a CIA executara o ataque por razões corporativas, não por qualquer avaliação objetiva da inteligência de que dispunha, Obama deu ao diretor da CIA o poder para passar por cima de um embaixador discordante... ainda que o embaixador tenha o apoio do secretário de Estado.
O extraordinário poder que tem o diretor da CIA sobre a política 'dos drones', que Obama formalizou depois daquele ataque, estava novamente confirmado na decisão de Obama de aprovar a proposta da CIA, de usar um míssil disparado por um drone, para assassinar Mehsud.
Hoje, o diretor da CIA já é John Brennan, que trabalhou a opinião pública dos EUA a favor dos drones, em declarações, entrevistas e vazamentos, desde quando foi vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, de 2009 a 2013.


Ainda que Obama estivesse decidido a reduzir a guerra dos drones no Paquistão, e ainda que, aparentemente, simpatizasse com a necessidade dos paquistaneses de por fim aos ataques dos EUA em seu território, mesmo assim Obama não soube rejeitar um pedido da CIA, que insistia em ataque no qual, mais uma vez, só se consideravam os interesses corporativos da própria agência.


No final de julho de 2013, uma pesquisa ainda mostrava que 61% dos cidadãos dos EUA apoiavam o uso dos drones. Depois de já ter modelado a percepção dos norte-americanos para a questão do terrorismo, Obama em seguida deixou que os interesses da CIA atropelassem, de uma só vez, os interesses dos EUA e do Paquistão.


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