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O fascismo? Pode, sim, acontecer em Israel

10.10.2008
 
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O fascismo? Pode, sim, acontecer em Israel


O SOBRENOME ALEMÃO Sternhell significa “brilhante como as estrelas”. É nome adequado: as posições do Professor Ze'ev Sternhell destacam-se, brilhantes, contra a escuridão do céu. Sempre denunciou o fascismo israelense. Essa semana, os fascistas israelenses jogaram uma bomba de fabricação caseira (um cano selado, com pregos e explosivos) na entrada de seu apartamento, e ele sofreu ferimentos leves.

Uri Avnery*


À primeira vista, a escolha da vítima parece estranha. Mas os autores do atentado sabiam o que faziam.


Não atacaram os ativistas que, todas as semanas, fazem manifestações contra o Muro da Separação em Bilin e Naalin. Não atacaram os grupos de esquerda que, ano após ano – e em 2008 também – mobilizam-se para ajudar os palestinenses a colher suas azeitonas nos pontos mais perigosos, nas vilas mais próximas das colônias israelenses. Não atacaram as “Mulheres de preto” que se reúnem todas as 6ªs-feiras, nem as mulheres do movimento “Machsom Watch” que vigiam os postos de controle, para registrar e denunciar as violências praticadas por soldados israelenses. Atacaram alguém que só faz trabalho intelectual.


As lutas de campo são essenciais. Mas elas só visam influenciar a opinião pública. A principal batalha é a batalha de idéias. E é aí que os intelectuais têm papel tão importante a desempenhar.


No plano das idéias, há duas visões em confronto, em Israel, dois modos de ver, tão distantes um do outro quanto o Oriente é distante do Ocidente. Por um lado, há uma Israel culta, moderna, secular, liberal e democrática, que vive em paz e em parceria com a Palestina, vendo-a como parte integrante e integral da Região. Por outro lado, há uma Israel fanática, religiosa, fascista, que se auto-exclui, tanto quanto se auto-exclui da humanidade civilizada, gente que “duela sozinha e não será reconhecida entre as nações” (Números, 23:9), onde a “espada devorará para sempre” (2, Samuel 2:26).


Ze'ev Sternhell é um dos guias mais brilhantes da visão mais iluminada, mais lúcida. Suas posições brilham como estrelas, resolutas e incisivas. Não surpreende que tenha sido escolhido como alvo para os neo-nazistas que há em Israel e suas bombas neo-nazistas.


Sternhell é intelectual especialista nas origens do fascismo, um tema ao qual também me dedico, ao longo de toda a minha vida. Ele e eu somos movidos por interesses semelhantes: o nazismo deixou marca indelével na nossa infância e no nosso destino. Criança, testemunhei o nascimento do nazismo na Alemanha. Criança, Sternhell viu o nazismo nascer na Polônia, quando, depois da morte do pai, perdeu a mãe e a irmã no Holocausto.


“Quem conhece água fervente, tem medo até de água fria”, diz um velho provérbio judeu. Quem tenha conhecido o fascismo atacar a própria vida, na infância, é e para sempre será excepcionalmente sensível ao primeiro sintoma de recaída da mesma doença. Em 1961 escrevi um livro com o título de “A suástica” (que só existe em hebraico), no qual tentei decifrar o código das raízes do nazismo. Ao final do livro, pergunto: “Poderá acontecer em Israel?” Minha resposta bem clara: Sim, pode. Pode acontecer em Israel.


Sou sensível a qualquer sinal daquela doença na nossa sociedade israelense atual. Como jornalista e editor de uma revista, usei minha lanterna para iluminar melhor cada sinal que vi ou pressenti. Como ativista político, combato-os todos os dias, seja no Parlamento seja nas ruas.


Sternhell, por sua vez, depois de uma carreira militar, passou a dedicar-se integralmente à vida acadêmica. E usa os instrumentos da academia: pesquisa, aulas e publicações. Luta para encontrar as melhores definições, as mais precisas, sem buscar popularidade e fugindo às provocações. Em um de seus artigos, há anos, escreveu que a resposta violenta dos palestinenses contra a ocupação é resposta esperável, natural. Por isso, atraiu sobre si a eterna ira dos moradores das colônias e da extrema direita, que trabalharam muito para impedir que Sternhell recebesse o “Prêmio Israel” – a mais importante láurea que há entre nós.


Agora, recorreram às bombas de fabricação caseira.
QUEM PÔS lá aquela bomba? Um único indivíduo? Um grupo? Algum novo grupo clandestino? Os terroristas das colônias? Cabe à Polícia e ao Shin-Bet descobrir.


Do ponto de vista do público, o assunto é mais simples: vê-se facilmente em que canteiro florescem essas sementes daninhas, que ideologia lhes serve de adubo, e quem as semeia por aí.


O fascismo israelense está vivo e esperneia. Cresce no mesmo canteiro que já gerou vários grupos religiosos-nacionalistas clandestinos: o grupo que tentou explodir os locais sagrados para os muçulmanos, no Monte do Templo; os que tentaram assassinar prefeitos palestinenses, a gang “Kach”; os autores do massacre em Hebron; Baruch Goldstein, assassino do ativista pela paz Emil Gruenzweig; o assassino de Yitzhak Rabin; e todos os grupos clandestinos que foram descobertos em estágio inicial de organização, antes de chegarem ao conhecimento público.

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