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Os EUA e as tendências latino-americanas

10.04.2007
 
Pages: 1234
Os EUA e as tendências latino-americanas

Os EUA e as tendências latino-americanas

por Philip Agee [*]

Quem quer que ultimamente tenha seguido as notícias não pode deixar de estar a par da mudança progressiva que percorre a América Latina e as Caraíbas. Durante muitos anos solitários Cuba ergueu o facho bem alto por intermédio dos seus programas exemplares para proporcionar cuidados universais de saúde e educação, ambos gratuitos, a par de realizações culturais, desportivas e científicas de nível mundial.

Embora não se encontre hoje em dia um cubano que diga que tudo é perfeito, longe disso, provavelmente todos concordam que, em comparação com Cuba pré-revolucionária, há todo um mundo de progresso.

Tudo isso foi feito contra todas as tentativas dos Estados Unidos para os isolar por serem um exemplo inaceitável de independência e autodeterminação, que utilizaram todos os meios sujos incluindo a infiltração, a sabotagem, o terrorismo, o assassínio, a guerra económica e biológica e mentiras infindáveis nos cooperantes meios de comunicação de muitos países. Conheço esses métodos bem demais, porque fui funcionário da CIA na América Latina nos anos 60. No total, morreram quase 3500 cubanos em acções terroristas e mais de 2000 ficaram incapacitados para sempre. Nenhum país sofreu o terrorismo durante tanto tempo e tão regularmente como Cuba.


Ao longo dos anos, começando mesmo antes da conquista do poder em 1959, a revolução cubana precisou de ter capacidade de recolher informações nos EUA para efeitos defensivos. Foi essa a missão plenamente justificada dos Cinco Cubanos encarcerados desde 1998 , com pesadas sentenças depois da condenação por diversos crimes em Miami onde não tiveram possibilidade de um julgamento imparcial. As suas atenções estavam exclusivamente viradas para o criminoso planeamento terrorista em Miami de operações contra Cuba, actividades ignoradas pelo FBI e outras agências de imposição da lei. Não andavam à procura nem nunca receberam quaisquer informações confidenciais do governo dos EUA.

Os processos deles continuam sob apelo, e assim continuarão nos próximos anos, mas as suas sentenças totalmente viciadas, ao lado do linchamento legal dos anos 20 de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, os imigrantes anarquistas, situam-se entre as injustiças mais flagrantes da história americana. A liberdade para os Cinco Cubanos devia ser a causa de toda a gente para quem a imparcialidade, os direitos humanos e a justiça são importantes, tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo, apoiando as actividades das 300 comissões de solidariedade 'Libertem os Cinco' em 90 países.


A actual política americana, com os seus recursos e objectivos, pode ser verificada no relatório de 2004, com quase 500 páginas, da Comissão para Apoio a Cuba Livre, em conjunto com uma actualização publicada em 2006 que tem um anexo secreto. Um objectivo fundamental, igual em 2007 ao de 1959, tanto quanto me lembro, é o isolamento de Cuba para evitar que esse mau exemplo alastre, e se a actual política vingar, significa nada mais nada menos do que a anexação cubana e a sua total dependência aos EUA, se não pela lei pelo menos de facto, conforme os cubanos afirmam com toda a razão.

Outros objectivos fundamentais de 1959 continuam, quase 50 anos depois, a ser fomentar uma oposição política interna e provocar dificuldades económicas em Cuba que conduzam ao desalento, à fome e ao desespero. Não é exagero chamar genocidas a estes objectivos.

 
No entanto, a guerra económica, de quase 50 anos, dos EUA contra Cuba não resultou, apesar de os cubanos que fazem a contabilidade avaliarem o seu custo em mais de 80 mil milhões de dólares. Depois da queda livre da economia cubana no início dos anos 90, com o colapso da União Soviética, a sua recuperação começou em 1995. Em 2005 o crescimento foi de 11,8 % e em 2006 foi de 12,5 %, o mais elevado na América Latina. Alguns sectores ultrapassaram os seus níveis de desenvolvimento do final dos anos 80, antes do colapso, e outros estão quase a atingi-los. As exportações cubanas de serviços, de níquel, de produtos farmacêuticos e outros estão a aumentar exponencialmente e, por mais que tentem, os EUA não têm conseguido impedi-lo.


No final de contas, as tentativas dos EUA para isolar Cuba acabaram por fracassar completamente. Em Setembro de 2006 Cuba foi eleita, pela segunda vez, para chefiar o Movimento Não-Alinhado de 118 países e, dois meses depois, pelo 15º ano consecutivo, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a condenação do embargo económico americano a Cuba, desta vez por 183 votos contra 4. Em 2007 Cuba tem relações diplomáticas ou consulares com 182 países. Entretanto, Havana é o local de conferências internacionais aparentemente intermináveis sobre todos os temas imaginários e possíveis, frequentadas por milhares de pessoas de todo o mundo. E não menos importante, Cuba nos últimos anos tem recebido mais de 2 milhões de turistas estrangeiros por ano nos seus aldeamentos turísticos de categoria mundial. Longe de isolar Cuba, os EUA isolaram-se a si próprios.

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