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9/11 Cinco anos depois

09.09.2006
 
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9/11 Cinco anos depois

Não vamos fazer comparações com o 11 de Setembro, mas sim, o dia 10

Em primeiro lugar e antes de começar, devemos lembrar as vítimas do ultraje do 9/11, não só nos Estados Unidos da América, mas também no Afeganistão e Iraque, juntamente com os seus famílias e entes queridos.

Em segundo lugar, vamos separar de vez a questão do Iraque do 9/11. Ponto final. Finalmente, vamos analisar o mundo de hoje, cinco anos depois do 9/11.

Comparando o mundo no dia 11 de Setembro de 2006 com o dia 10 de Setembro de 2001, ninguém iria dizer que é um lugar mais seguro hoje do que era então. Será por causa dos actos terroristas ou será por causa da reacção a estes actos?

Enquanto se perpetrem actos terroristas, e todos os que viveram no Reino Unido durante os anos 70 a 90 sabem isso muito bem, como sabem os cidadãos de muitos outros países que sofreram essa experiência, a sociedade em geral fica num permanente estado de semi-alerta. Destaca-se imediatamente aquela mala de viagem no meio da estação sem ninguém por perto, olha-se com maior curiosidade aquele embrulho de jornal (será mesmo o fish and chips ou quê?) Fala-se com o representante da autoridade (policial ou outra) mais perto e, missão cumprida, segue-se com a vida seguindo a noção que alterando os hábitos, entregamos a vitória aos terroristas.

No entanto, no meio desta barbaridade, sabe-se intuitivamente que as autoridades estão a tratar o assunto de maneira sagaz, utilizando técnicas de baixo perfil, nunca admitindo que estão a falar com terroristas mas claro que alguém está a falar com alguém, e sabe-se que há regras a serem seguidas.

Mas não é esse o caso com o 9/11.

A diferença entre o 9/11 e o dia 10 de Setembro de 2001 é que de repente, o indivíduo ficou com a capacidade de ameaçar o Estado. Porém, enquanto o indivíduo tem o dever de actuar dentro de certos trâmites legais, o Estado tem a obrigação de actuar com a responsabilidade inerente a uma colectividade.

Se o indivíduo fugir das regras do comportamento aceitável (perpetrando, por exemplo, actos terroristas), cabe ao estado encontrá-lo, julgá-lo e castigá-lo. Se o Estado começar a actuar como um indivíduo, perpetrando os mesmos actos de terrorismo, encontra-se um impasse, porque não há instâncias legais para enfrentar tal desafio.

Utilizando o caso do Reino Unido e o IRA como um exemplo do terrorismo clássico, havia acções e reacções mas sempre contidas dentro de certos limites até que chegou um grupo de pessoas nos dois lados que conseguiram sair do ciclo de violência seguindo um caminho inteligente e de senso comum. Se o Reino Unido tivesse tentado ultrapassar a crise por bombardear residências civis na Irlanda do Norte, ou invadir a República da Irlanda, com certeza os EUA teriam estado no centro da tempestade de revolta, impondo sanções, ou pior ainda.

Mas no caso do 9/11, a reacção de Washington não foi sagaz, nem seguiu os deveres de um Estado. De repente, a nação mais poderosa na Terra agiu com reflexos primários (infelizmente muito previsível dado o seu Presidente e o clique de elitistas que o rodeiam), agiu não com a responsabilidade de um Estado mas sim como um indivíduo, descendo ao nível do terrorismo.

No dia 11 de Setembro, morreram 3.000 civis nos Estados Unidos da América. Desde o 11 de Setembro, morreram centenas de milhares de civis no Afeganistão e no Iraque, muitos deles em actos terroristas, alguns perpetrados por islamistas, outros perpetrados pelas forças militares dos Estados Unidos da América. Não vamos diferenciar entre um civil norte-americano assassinado por um fanático islamista, e um civil afegão ou iraquiano assassinado por um militar norte-americano.

Pilotar aviões em rotas de choque com edifícios foi o zénite do pior pesadelo do número crescente de pessoas que utilizam esse meio de transporte e foi uma corte abrupta com qualquer norma de comportamento civilizado. Por isso o ataque contra o Afeganistão foi perdoado na massa colectiva do pensamento da humanidade mas depressa se viu que a dura lição aprendida pela URSS (pelo menos 15.000 baixas militares e um milhão de civis em dez anos) bateu contra a parede.

O quê o NATO conseguiu nestes últimos 5 anos, a não ser ver aumentar a produção de ópio? O Governo democraticamente eleito de Hamid Karzai nem se atreve a sair das principais cidades e quando NATO ousar entrar em acções militares de alta intensidade, aumenta o número de sacos-mortuários e cai uma chuva de críticas cada vez mais intensa em Londres, Otava e Washington. Os Taleban conseguem mobilizar muitas centenas de combatentes onde e quando querem, bin Laden anda a monte, extremistas islâmicos estão presentes em todas as regiões do país, e a força dos senhores de guerra e os barões da droga cresce diariamente, enquanto diminui tangivelmente a popularidade da NATO, visto correctamente como uma força invasora.

Longe de ser uma questão de quanto tempo resta para que esse país fique estabilizado, é mais uma questão de quanto mais tempo pode a NATO sobreviver nesse clima? Os 71 mortos entre suas forças só no mês de Agosto de 2006 colocam em questão os números oficiais de 474 mortos em combate desde Outubro de 2001.

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