Pravda.ru

Mundo

Relatório do ISA denuncia na ONU risco elevado de genocídio de povos indígenas isolados

09.03.2020
 
Relatório do ISA denuncia na ONU risco elevado de genocídio de povos indígenas isolados. 32812.jpeg

Relatório do ISA denuncia na ONU risco elevado de genocídio de povos indígenas isolados

segunda-feira, 02 de Março de 2020

Direto do ISA

Share

Dados que serão apresentados amanhã(3/3) em audiência em Genebra apontam que desmatamento e invasões dispararam no último ano em territórios da Amazônia habitados por esses grupos, os mais vulneráveis a doenças e à perda da floresta

 

A explosão do desmatamento na Amazônia foi maior em territórios com a presença de povos indígenas isolados. Dados do Instituto Socioambiental (ISA) mostram que, em 2019, a derrubada da floresta nessas terras cresceu 113%. No total de todas as Terras Indígenas (TIs), o aumento foi de 80%. Os números constam em relatório do ISA que será apresentado nesta terça-feira (3/3), na Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). O líder indígena Davi Kopenawa Yanomami participa da audiência em Genebra, na Suíça. Baixe aqui o relatório.

A sessão é promovida pelo ISA, Comissão Arns e Conectas Direitos Humanos (veja abaixo) e tem o objetivo de denunciar a frágil situação dos povos indígenas em isolamento no Brasil, e os crescentes riscos de etnocídio (quando a cultura tradicional é destruída) e de genocídio destas populações. O relatório detalha de maneira inédita o desmonte em curso das políticas ambientais e indigenistas do atual governo. O evento terá transmissão ao vivo pelo canal do ISA no Facebook a partir das 9h (horário de Brasília).

Os dados do desmatamento se baseiam no Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O levantamento aponta que seis Terras Indígenas que possuem dez registros de povos indígenas isolados estão entre os 13 territórios que respondem por 90% do desmatamento registrado em 2019 nas TIs localizadas na Amazônia brasileira.

O panorama para os povos indígenas isolados no Brasil, portanto, é devastador. Com a explosão do desmatamento e da destruição das florestas e o avanço de práticas ilícitas, como o garimpo, extração ilegal de madeira e grilagem de terras, a existência desses grupos está gravemente ameaçada.

Os povos indígenas isolados são populações que, para sobreviver ao contato promovido pelo homem branco, refugiam-se no interior das florestas e vivem em isolamento total ou sem contato significativo com a sociedade nacional. Doenças, violência física, espoliação de recursos naturais e outras agressões dizimaram populações inteiras no passado. Hoje, são 115 registros de grupos indígenas isolados no Brasil, 28 deles confirmados.

O relatório apresentado na ONU demonstra, ponto a ponto, como o desmonte de políticas públicas e o discurso do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e de seus ministros, estimulam as invasões de garimpeiros, madeireiros e grileiros ilegais nos territórios onde vivem esses povos.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) sofre cortes de orçamento, perseguição a servidores, deslegitimação dos dados de desmatamento e desautorização de orçamentos. No Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), a gestão de Unidades de Conservação perdeu 29% no seu orçamento e a de fiscalização ambiental e combate a incêndios, 21%.

A Fundação Nacional do Índio (Funai ), no entanto, é o órgão que apresenta a pior situação. As atividades estão praticamente paralisadas com os cortes orçamentários e a alteração de quadros e coordenações. A instituição sofre influência de alas religiosas e ruralistas, como foi o caso da nomeação de um missionário para a Coordenação Geral dos Povos Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e que pode colocar em risco a política de não contato, que nos últimos 30 anos evitou epidemias e massacres dos povos isolados.


Mapa mostra a presença dos povos isolados no Brasil

Yanomami

A audiência na ONU conta com a presença e a voz de Davi Kopenawa, líder Yanomami e ganhador em 2019 do Prêmio Right Livelihood Award, o "Nobel Alternativo". Os Yanomami enfrentam atualmente a maior invasão garimpeira desde a demarcação de sua terra, em 1992: cerca de 20 mil garimpeiros estão ilegalmente dentro do território em busca de ouro. A atividade ilícita deixa um rastro de contaminação por mercúrio nos rios e peixes, doenças e toda sorte de violência causadas pelos garimpeiros. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz realizada em 2014 na comunidade yanomami de Araça, em Roraima, constatou que 92% dos indígenas continham alto índice do metal no sangue.

TI Yanomami possui oito registros de povos isolados, um deles confirmado. São os Moxihatëtëma, da Serra da Estrutura. A poucos quilômetros da região, foram rastreadas pistas de pouso de garimpeiros. "Estou muito preocupado. Eu não queria que eles morressem sozinhos, sem ver quem um dia matou eles. É o garimpeiro que mata", afirmou Kopenawa em depoimento ao livro Cercos e Resistências: Povos Indígenas Isolados na Amazônia brasileira. "Se um dia eu encontrar os Moxihatëtëma, vou dizer que é melhor não encontrar o napë (não indígena), melhor eles ficarem por lá. O napë não cuida do índio".

Abaixo, foram destacados alguns casos de ameaça iminente a povos isolados:

Yanomami:

Localização: Terra Indígena Yanomami (RR/AM)
1 registro de povos isolados confirmado: Moxihatëtëma
6 em informação
1 em estudo
Ameaça: Invasão de 20 mil garimpeiros
Pista de pouso a poucos quilômetros de um registro de isolados
330 mil ha degradados em decorrência do garimpo
Principais rios contaminados por mercúrio
Lideranças ameaçadas de morte

Awá-Guajá

Localização: Terra Indígena Araribóia, Caru, Awá (MA)
2 confirmados;
2 em estudo;
1 em informação
Ameaças: Invasão madeireira: degradação de 92% na TI Awá
Mais de mil quilômetros de ramais madeireiros detectados na TI Araribóia, onde vivem cerca de 60 Awá isolados.
Violência: Guardião da floresta na TI Araribóia Paulo Paulino Guajajara assassinado em 2019 por defender a floresta da invasão madeireira.

Avá Canoeiro

Localização: Parque do Araguaia (Ilha do Bananal) (TO)
1 registro em estudo
Ameaça: Grupo de isolados foi avistado pela última vez por agentes do ICMBio fugindo das queimadas que castigam a Ilha do Bananal. Outra grave ameaça à existência do grupo é a construção de estrada no território que irá cortar a floresta onde esses indígenas vivem.

Vale do Javari

Localização: Terra Indígena Vale do Javari (AM)
Terra Indígena com mais registros de isolados do país
10 registros confirmados,
3 em estudo,
3 em informação
Ameaça: Presença constante de missionários na região com intuito de evangelizar povos isolados e de recente contato
Violência: Ataque a tiros a uma base da Funai (ago/19), e o assassinato de um colaborador e ex-servidor da Funai em setembro, em Tabatinga/AM

Povos indígenas isolados

Yanomami

Davi Kopenawa

ONU

Direitos Humanos

ISA

 

 

https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/relatorio-do-isa-denuncia-na-onu-risco-elevado-de-genocidio-de-povos-indigenas-isolados


Fotos popular