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A reprimarização da América Latina

08.12.2009
 
A reprimarização da América Latina

A perda de importância do sector manufactureiro no México não pode ser entendida sem uma referência ao processo do que se começou a designar por "reprimarização" da América Latina. Este feio neologismo serve para referir a importância que os sectores primários da economia recuperaram nos últimos vinte ou trinta anos. Estes sectores primários são o grupo de ramos de actividade encarregadas da produção de matérias primas, produtos básicos (as commodities) e os bens intermédios pouco elaborados. É desejável incluir nessa classificação a indústria maquiladora.

O principal indicador que confirma a hipótese da reprimarização está na perda de importância da indústria manufactureira no produto interno bruto (PIB) da região. Aqui os dados são contundentes e mostram como o projecto de industrialização está em franco retrocesso, a tal grau que é possível afirmar que se abandonou. Para toda a região, a participação do sector manufactureiro no PIB caiu de 12,7 por cento para 6,4 por cento em média entre os anos 1970-1974 e 2002-2006, respectivamente.

O caso mais espectacular da reprimarização e desindustrialização é a Argentina: a participação das manufacturas no PIB caiu de 43,5 a 27 por cento nesse período. Uma queda parecida foi sofrida pelo Equador, onde as manufacturas passaram de 19 por cento a 10 por cento do PIB nesse período. Para o Brasil, a queda parece menos dramática: as manufacturas passaram de 28 para 24,8 por cento do PIB nesse período. Mas há que observar que o nível brasileiro de industrialização era menor que o da Argentina. De qualquer modo, hoje fala-se muito do Brasil como um gigante cuja economia está cimentada na indústria manufactureira. Nada mais longe da realidade. O que sim se pode dizer é que o Brasil poderia, com uma política industrial cuidadosa, recuperar a importância que tinha o seu sector manufactureiro e até superá-la. Mas esse caminho não será fácil porque as forças que impulsionam a reprimarização não vão facilitar o investimento produtivo nas manufacturas.

As economias que mostram uma tendência diferente (aumento na participação das manufacturas no PIB) foram receptoras das maquiladoras: México, El Salvador, Honduras e Costa Rica. Mas não há que deixar-se enganar: a maquiladora não corresponde a um processo de industrialização. É simplesmente uma forma de se integrar na economia mundial através da exportação de mão de obra barata. Ou, em outras palavras, é outra forma de reprimarização.

A queda de 50 por cento no peso das manufacturas no PIB regional é acompanhada da destruição de capital produtivo e de capacidades humanas que são de muito difícil recuperação. Esse retrocesso é equivalente ao que é sofrido numa guerra económica sem quartel. De uma perspectiva histórica há que recordar que a América Latina pôde começar a sair de um modelo primário exportador e começar a descobrir o que era uma plataforma industrial através da sua estratégia de substituição de importações. Nessa tentativa, entre 1950 e 1973, a região no seu conjunto experimentou uma taxa de crescimento do PIB per capita de 2,5 por cento. Em contraste, entre 1973 e 2001, o PIB per capita cresce apenas uns imperceptíveis 0,75 por cento anuais.

Hoje a América Latina está a cair nos mesmos vícios do modelo primário exportador que com tanto empenho tratou de deixar para atrás nos anos do pós-guerra. Os dados mostram como nos últimos 10 anos as exportações da América Latina se concentraram nas matérias primas e nos produtos pouco elaborados.

A reprimarização conduz a um crescimento medíocre, se não à estagnação. A razão é que os sectores primários têm poucos vínculos com o resto da economia e isso impede que transmitam impulsos dinâmicos ao sistema. Além disso, os sectores primários são de escasso valor acrescentado e com remunerações do trabalho inferiores aos das manufacturas. Estes sectores sofrem mais a volatilidade dos preços e a deterioração dos termos de troca. Finalmente, com a reprimarização, a América Latina está a colocar maior pressão sobre a sua base de recursos naturais, intensificando a desflorestação, a perda de biodiversidade, a degradação de solos e, em geral, provocando uma maior deterioração ambiental.

Poder-se-ia pensar que a reprimarização se deve a que a região está a redescobrir as suas vantagens comparativas. Esse ponto de vista é falso. A reprimarização é a consequência directa de um modelo de política macro-económica que procura privilegiar o capital financeiro. Neste modelo, as políticas monetária e fiscal estão organizadas para transferir recursos dos sectores reais da economia para o sector financeiro. Para esse modelo (neoliberal) a base de recursos naturais e a mão de obra barata constituem espaços de rentabilidade que devem ser aproveitados sob as modalidades que são próprias do capital financeiro. O corolário: se quisermos reverter o processo de reprimarização, é necessário mudar o modelo de política macro-económica.

Fonte: Informação Alternativa

http://www.socialismo.org.br/portal/economia-e-infra-estrutura/101-artigo/1292-a-reprimarizacao-da-america-latina


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