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Após 12 eleições, para onde vai a América Latina?

08.12.2006
 
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Após 12 eleições, para onde vai a América Latina?

Boa parte da população do continente repele neoliberalismo na rua e nas urnas. Evo, Chávez, Lula e Rafael Correa são consagrados em embates contra a direita. Mas ainda não existe um projeto viável para a mudança de modelo.

Gilberto Maringoni

SÃO PAULO – A eleição de Hugo Chávez, no último domingo (3), marca o aprofundamento de um ciclo histórico latino-americano iniciado há exatos oito anos. Na época, não se podia perceber que a primeira eleição do ex-coronel venezuelano, em 6 de dezembro de 1998, representasse algo mais do que um fenômeno local. O país se arrastava havia uma década e meia em um caos econômico de proporções gigantescas, que gerou em sua esteira uma aguda crise social, política e institucional.


Nessa época, nos demais países, vivia-se as derradeiras ondas da ofensiva neoliberal. Fernando Henrique Cardoso acabara de ser eleito para o segundo mandato, Carlos Menem iniciava seu último ano na Casa Rosada, ainda com o peso indexado ao dólar, Ernesto Zedillo seguia as trilhas de Carlos Salinas de Gortari após a quebra do México, em 1994, Alberto Fujimori entrava no último biênio de seu governo e o general Hugo Banzer governava com mão de ferro a Bolívia, reprimindo conflitos sociais que ganhariam força irrefreável a partir de 2001. Embora sofresse solavancos e tentativas de golpe, a eleição de Chávez era vista inicialmente como pouco mais que uma curiosidade política. Uma exceção num país singular.


Exceção vira onda


Hoje, a exceção se espalha pelo continente. Isso não se dá na forma de governos com diretrizes comuns, mas através de manifestações de descontentamento popular com o modelo em voga nos anos 1990. Após as eleições de Nestor Kirchner na Argentina, de Lula no Brasil e de Tabaré Vasquez no Uruguai, entre 2001 e 2004, percebeu-se que havia uma onda antiliberal, materializada também em um incremento das mobilizações sociais no Peru e na Bolívia.


A nova rodada de eleições continentais – iniciada com a vitória de Evo Morales na Bolívia em dezembro de 2005 – confirmou a tendência geral. De lá para cá, mais onze países vivenciaram disputas presidenciais. Pela ordem são Chile, Costa Rica, Haiti, Colômbia, Peru, México, Brasil, Nicarágua, Honduras, Equador e Venezuela. Se tivermos uma métrica bem elástica, podemos dizer que Bolívia e Venezuela conduziram líderes de esquerda ao governo. Argentina, Brasil, Uruguai, Nicarágua e Chile têm mandatários de centro-esquerda. O Peru e o Haiti podem engrossar este segundo bloco, que talvez ganhe também a adesão do Equador. Um terceiro time enfeixa o espectro do centro-direita à direita, com Costa Rica, Colômbia, México e Honduras.


O jogo não é simples, porque até agora só a Bolívia deu mostras de buscar uma efetiva mudança do modelo econômico, através da nacionalização e da possível reestatização de empresas privatizadas. O maior enfrentamento com o mundo das finanças aconteceu na Argentina, com a reestruturação forçada da dívida pública, em 2003. A Venezuela consegue valer-se de seu imenso excedente petroleiro para recobrar a iniciativa estatal, especialmente em políticas sociais.


Integração e peso dos países


Do ponto de vista econômico, o governo de Hugo Chávez é extremamente cauteloso, em contraste com sua verborragia antiimperial. Na seara política, sua audácia criou condições para uma integração continental alicerçada nos estados nacionais e não nas chamadas leis de mercado.


No caso brasileiro, a eleição de Lula, que em quase nada contesta o modelo, cria uma situação curiosa. O peso do país no continente – um terço do Produto Interno Bruto (PIB) latino-americano – faz com que qualquer movimentação, por menor que seja, tenha imensas repercussões. É o caso dos comportamentos diante da Bolívia e da Venezuela em situações delicadas. Assim, se Lula no segundo mandato decidir se descolar do modelo seguido em sua atual gestão, o efeito nos outros países será significativo.


Aliás, é interessante examinar os PIBs para balizar o exame da geopolítica continental. Os dados sobre essa proporção estão disponíveis neste endereço eletrônico . Lá se pode ver que, apesar de toda a radicalização de Evo Morales, a Bolívia responde por míseros 0,4% das riquezas produzidas entre o rio Grande e a Terra do Fogo. Chávez, por sua vez, está montado em 5,7% do total. E a moratória de Kirchner atingiu uma economia que responde por 7,5% das riquezas continentais. É pouco, apesar de tudo.


Se colocarmos num mesmo balaio o espectro que vai da esquerda até o centro (Bolívia, Venezuela, Argentina, Brasil, Uruguai, Nicarágua, Equador, Uruguai e Chile), veremos que, juntos, esses países contam com 54% do PIB continental. Do outro lado, o México (31,6% das riquezas regionais) ajuda a equilibrar o jogo.


Ainda sem saída


Esta soma é um mero exercício aritmético, pois não há, nem de longe, um confronto entre blocos claramente definidos na região. Mas a conta mostra o potencial da política de integração entre os países e o protagonismo de cada economia. Se pensarmos que Cuba desafia claramente o poder imperial dos Estados Unidos, veremos que, em certas circunstâncias, a coragem política conta mais que o gigantismo econômico.

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