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Bolívia para os bolivianos

08.10.2008
 
Bolívia para os bolivianos

Escrito por Frei Betto

Desde a chegada dos espanhóis no século XVI, povos e terras do altiplano boliviano foram explorados à exaustão. Em fins do século XVI, 80% da prata do vice-reinado do Peru vinham de Potosí, que fornecia 50% de toda a prata do mundo. Em 1610, Cerro Rico de Potosí contava com 160 mil habitantes. Superava em população todas as cidades da Espanha e se equiparava a Londres e Paris.

Na era republicana, os indígenas continuaram explorados pelos brancos descendentes de europeus. Até a eleição de Evo Morales, uma pessoa com sobrenome indígena não ingressava na universidade nem se tornava oficial do Exército. Em Sucre, capital constitucional do país, alguns restaurantes proibiam explicitamente a entrada de indígenas.

A parte oriental do território boliviano, cuja principal cidade é Santa Cruz de la Sierra, passou a se desenvolver a partir da década de 1970 graças às generosas doações de amplas extensões de terra para "colonizadores" brancos. Nos latifúndios, baseados em mão-de-obra indígena, em especial guarani e chiquitano, são freqüentes os casos de trabalho escravo.

As elites da Bolívia sempre governaram com mão forte, dilapidaram as riquezas naturais do país, estimularam o tráfico de cocaína. A família de Simon Patiño, dona das minas de estanho até meados do século XX, promovia festas em Paris de fazer inveja aos milionários europeus.

Quando trabalhadores, sobretudo mineiros, chegaram a obter força de pressão, foram violentamente reprimidos ao estilo das piores ditaduras implantadas pelos EUA na América Latina.

A eleição de Evo Morales só foi possível após anos de fortes mobilizações sociais, como ocorreu com Lula no Brasil. Pela primeira vez, num país onde quase 70% da população é indígena, um aymara chega à presidência. E pela primeira vez os grupos dominantes se viram fora do poder central.

Continuam com domínio total sobre os grandes meios de comunicação e controlam o poder nos departamentos (estados) de Tarija, Santa Cruz, Beni e Pando, onde se localizam as novas riquezas bolivianas - gás e petróleo. Todos os governadores desses departamentos são afilhados políticos do general Hugo Banzer, duas vezes presidente do país - uma através de golpe de Estado (1971-1978), quando implantou um regime ditatorial apoiado pelos EUA, e outra eleito em 1997 -, tendo governado por estado de sítio de 2000 a 2001.

Evo Morales herdou uma estrutura estatal corrupta, falida, quase sem presença nos departamentos mais distantes, principalmente os amazônicos Beni e Pando. Ali, umas poucas famílias são a lei, mandam e desmandam.

Enquanto influíam no poder central, essas oligarquias nunca falaram em "autonomia". As propostas de autonomia têm por objetivo manter o domínio sobre as terras e os recursos naturais daqueles departamentos. Os chamados estatutos autônomos são verdadeiras constituições paralelas, desconhecem as leis federais e o governo central.

A oligarquia se recusa a aceitar a reforma agrária aprovada pela nova Constituição, que limita a propriedade rural a 5 mil hectares, e almeja o controle dos lucros do petróleo e do gás.

A expulsão do embaixador Philip Goldberg – portador de sinistro currículo marcado por sua atuação nas guerras de divisão da ex-Iugoslávia - não foi um ato impensado. O governo alertou-o várias vezes sobre sua interferência na política do país e suas relações com os grupos de oposição interessados em boicotar a legalidade.

Com o apoio da Casa Branca, foram tentadas distintas estratégias para debilitar o governo. A mais recente consistiu no referendo revogatório para decidir sobre a continuidade do presidente Morales. Ao contrário do que se previa, o governo encampou a medida e o tiro saiu pela culatra: Morales foi aprovado com 67% dos votos, aumentando o percentual que o elegeu presidente (54%), inclusive nos departamentos da chamada "meia-lua".

Convém lembrar que, após a Segunda Guerra Mundial, importantes figuras do regime de Hitler fugiram para a América do Sul. Segundo Eduardo Simas, brasileiro atuante em projetos sociais na Bolívia, muitas se instalaram em Santa Cruz, para onde também foram, na década de 70, croatas foragidos do comunismo. Uma das lideranças nazistas era Klaus Barbie, "o carniceiro de Lyon". Viveu 40 anos na Bolívia, apoiou as ditaduras, disseminou a ideologia nazista antes de ser capturado, em 1983. Foi dele que fugiu a família de Anne Frank e foi ele quem assassinou Jean Moulin, líder da Resistência Francesa.

Nos departamentos que se rebelam contra o governo, muitos militantes anti-Morales integram grupos neonazistas, como a União Juvenil Cruzenha. Não têm vergonha em exibir a suástica pelas ruas, em ameaçar e atacar pessoas de acordo com a cor da pele ou lugar de origem.

Um país não pode pertencer a um grupo de famílias. E na Bolívia os indígenas são maioria. Faz bem o presidente Lula de respaldar o governo Evo Morales e respeitar a soberania boliviana.

Frei Betto é escritor, autor de "Cartas de Prisão" (Agir), entre outros livros.


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