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Escolas sindicais da CUT: uma obra inacabada

08.09.2008
 
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Escolas sindicais da CUT: uma obra inacabada

Na primeira metade da década de 90 fui membro da Secretaria Nacional de Formação da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Assumi, inicialmente, a assessoria nacional para elaboração do programa de formação dos trabalhadores rurais, junto ao Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da CUT (DNTR-CUT).

Rudá Ricci*

Na primeira metade da década de 90 fui membro da Secretaria Nacional de Formação da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Assumi, inicialmente, a assessoria nacional para elaboração do programa de formação dos trabalhadores rurais, junto ao Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da CUT (DNTR-CUT).

O trabalho consistiu em três frentes: a) ampliação ou adaptação dos programas nacionais de formação sindical da CUT à realidade rural; b) fortalecimento ou consolidação da rede nacional de formação sindical rural da CUT (a partir das escolas sindicais já existentes, da formação de secretarias estaduais de formação sindical rural e aproximação com ONGs e universidades que pudessem criar pesquisas e programas educacionais em colaboração com a CUT); c) apoio às escolas sindicais cutistas para constituição de programas educativos que incluíssem a realidade rural (tanto para rurais, quanto para sindicalistas urbanos).

 Eu concluía, naquele momento, minha dissertação de mestrado na UNICAMP, que tinha como foco a análise da crise de representação sindical dos trabalhadores rurais do Brasil, a partir da emergência do MST, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), do movimento de seringueiros, do movimento de canavieiros e tantos outros que, curiosamente, se formavam à margem da estrutura sindical oficial (a partir da CONTAG - maior confederação de trabalhadores do país –, das poderosas FETAGs – as federações de trabalhadores na agricultura-, e uma rede de sindicatos de trabalhadores rurais, enraizada no sertão brasileiro, envolvendo mais de 8 milhões de sindicalizados).

Participei, nesta condição, como colaborador do programa de formação sindical do Instituto Cajamar (São Paulo) e Escola Sindical 7 de Outubro (Belo Horizonte) até que, em 1993, me transferi como coordenador do programa de formação rural da escola sindical de Belo Horizonte. Era um momento tenso porque a direção nacional da CUT começava a pressionar as escolas sindicais para se tornarem totalmente orgânicas da central sindical, o que na prática significava serem dirigidas a partir dos interesses das forças e correntes sindicais majoritárias.

Lendo o livro de Paulo Sérgio Tumolo (“Da contestação à conformação: a formação sindical da CUT e a reestruturação capitalista”, Editora da UNICAMP, 2002), que retoma a política nacional de formação da CUT desde 1984, fiquei motivado a escrever este breve testemunho-reflexão. Para Tumolo, a CUT faz uma inflexão a partir de 1991 (quando da realização do quarto congresso da central sindical), quando as greves começam a rarear e inicia sua participação nas câmaras setoriais. Segundo o autor, a mudança se relaciona à hegemonia da corrente Articulação Sindical, que defenderia o que denomina de “sindicalismo propositivo dentro da ordem”. No que tange à formação sindical, a CUT teria se dirigido à educação de tipo instrumental, em detrimento da formação crítica (que apreendesse a realidade contraditória).

 Finaliza destacando o ano de 1995, ano da realização da 7ª Plenária Nacional da CUT, onde abraça definitivamente a formação profissional, a partir do uso dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Destaca, nesta trajetória, o papel desempenhado pelo Instituto Cajamar (depois, Escola São Paulo) e Escola Sul (sediada em Florianópolis, que o autor classifica como primeira experiência de tipo empresarial da CUT).

Acredito que este livro contribui para analisarmos a trajetória recente da esquerda brasileira e não apenas das forças sindicais. E como observador privilegiado do período de transição, gostaria de aprofundar algumas sugestões indicadas por Tumolo. A CUT possui, hoje, sete escolas sindicais: Escola Sul (Florianópolis), Escola São Paulo, Escola 7 de Outubro (Belo Horizonte, Escola Amazônia (Belém), Escola Chico Mendes (Porto Velho), Escola Centro-Oeste (Goiânia) e Escola Marise Paiva de Moraes (Recife). A Escola São Paulo foi fundada em 1993, ano decisivo para a mudança da história das escolas sindicais da CUT, e se oficializou em 1995, ano de formalização da rede sindical própria da CUT. Dois anos depois se dedicava exclusivamente à formação para sindicalistas. Esta é a informação oficial desta escola. Fica a pergunta: mas o que fazia antes?

Antes, toda estrutura da escola constituía o Instituto Cajamar, cuja sede ficava na rodovia Anhanguera. O Cajamar foi criado a partir de uma generosa proposta de formação política de sindicalistas e militantes do Partido dos Trabalhadores. A idéia vinha na esteira das discussões da Secretaria Nacional de Formação do PT, em 1985, data em que se formalizou um conjunto de programas permanentes (seminários e cursos) de formação militante e que desaguaria na 1ª Plenária Nacional de Formação Política (1986).

O Instituto Cajamar foi criado em julho daquele ano, como organização educacional autônoma. A primeira atividade desta instituição foi um seminário sobre participação popular na Assembléia Nacional Constituinte, realizado em dezembro de 1986. O Cajamar já havia formadoquase 3 mil militantes quando se inicia a discussão para criação de uma rede de formação própria da CUT.

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