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Eleições em Espanha - O medo venceu o tosco projeto social-democrata

07.07.2016
 
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É complicada a análise das eleições em Espanha tendo em conta o posicionamento dos grupos e partidos concorrentes, entre defensores de um estado centralizado e regionalistas, autonómicos ou independentistas para além da habitual divisão entre direitas e esquerdas e daqueles que se não afinam por esse diapasão, como o PACMA.

1 - Um pouco de História

O estado espanhol tem sido atravessado, historicamente, por tensões centrífugas e centrípetas, em regra afogadas com violenta repressão, como aconteceu após a vitória dos fascistas na guerra civil de 1936/39. No processo de transição do franquismo para o regime parlamentar, contemplou acordos entre as direitas representadas em Madrid com as sediadas em Euzkadi e Catalunha, para a continuidade de uma Espanha unida, dentro das suas fronteiras tradicionais, com a manutenção de um rei como chefe de estado. O PSOE de Felipe Gonzalez e o PCE de Santiago Carrillo, bem como as centrais sindicais que lhe são próximas, aceitaram essa configuração, desenhada em 1977 (Acordos de Moncloa). 

 A ETA não aceitou essa situação e manteve as formas de luta armada, iniciadas no tempo de Franco, contra o governo nacional o qual, por seu turno, exerceu uma repressão muito violenta contra o independentismo basco, em concertação com a França; até que, há alguns anos atrás se decidiu o fim da luta armada. Em paralelo, para além das aspirações nacionais de Euzkadi e da Catalunha, alicerçadas nas mais poderosas economias do estado espanhol, outras se levantaram entretanto, com menos ímpeto, como na Galiza, na Comunidade Valenciana, na Canárias ou nas Baleares, para além de pulsões da afirmação regional e identitária, na Cantábria ou na Andaluzia. Assim, o estado espanhol é constituído por 17 Autonomias, com governos próprios e ainda, por Ceuta e Melilla, enclaves na costa marroquina que se apresentam com reminiscências coloniais; do mesmo modo que a Grã-Bretanha se tem mantido em Gibraltar há mais de 300 anos.

 A crise financeira aberta em 2010, exigiu forte austeridade e gerou enorme desemprego, os quais provocaram, por um lado, mais tensões entre as Autonomias e o governo de Madrid, juntando as reivindicações autonómicas e independentistas, particularmente agudas na Catalunha, às lutas contra as dificuldades económicas e sociais. Desenvolveu-se uma contestação de um novo tipo, que cruza intenções de maior autonomia ou independência, com reivindicações de defesa dos padrões de vida através de formas organizativas autogestionárias e de democracia direta, que encontraram eco no passado, nos anos 30, esmagadas então, pela ação inicial do estalinismo e depois, pela do franquismo.

 Do ponto de vista político e a nível nacional, estabeleceu-se o típico modelo de rotativismo em torno de dois partidos atravessados pelo compadrio e pela corrupção, representantes do poderoso sistema financeiro, cujas dificuldades foram superadas por uma rápida reestruturação e capitalização à custa das finanças públicas. O PP (Partido Popular), marcadamente de direita, centralista e católico, é membro do PPE (Partido Popular Europeu), onde estão também os portugueses PSD (Partido Social-Democrata) e CDS (Centro Democrático e Social); e o PSOE é membro da coligação europeia S&D (Socialistas e Democratas), onde se encontra também o PS (Partido socialista) português, está ligado à central sindical UGT e teve um passado de recusa do franquismo. Em comparação com os dois partidos dominantes e homólogos do vizinho ocidental de Espanha, o PP situa-se como mais reacionário que o PSD ou o CDS português, dado o maior peso político da Igreja em Espanha; e, por seu turno, o PSOE, pelo seu enraizamento social, mostra-se menos reacionário que o PS português, que se firmou como o elemento dirigente na "normalização" política de 1975.

 O longo passado fascista em ambos os estados ibéricos atuais tem mantido marginal a expressão e a formação de organizações e partidos assumidamente xenófobos, pese embora a grande população de imigrantes em Espanha, muitos dos quais provenientes de países islâmicos; do mesmo modo que são residuais as organizações fascistas. A integração dentro da UE ou na zona euro não têm grande contestação em ambos os países, sobretudo porque não existe o referido caldo de cultura xenófobo, como acontece em França, Holanda ou Inglaterra. No caso português, o PCP (Partido Comunista Português), historicamente, defende uma política "patriótica de esquerda" por muito incoerente que seja essa designação, com saída da UE e do euro, como expressão salvítica para uma decadência nacional secular e que exerce uma clara influência ideológica sobre pequenos grupos da área trotsko-estalinista ou de professores universitários.

 Ainda na área esquerda dos espetros partidários há a relevar, em Espanha a IU (Izquierda Unida) e o recente Podemos, que concorreram coligados nas últimas eleições, que são simples partidos sociais-democratas, tal como em Portugal, o já referido PCP e o BE (Bloco de Esquerda). Estes partidos, tal como o Syriza grego merecem da imprensa e dos partidos mais à direita a designação ridícula de esquerda... radical!

 2 - As eleições de junho em Espanha

 2.1 - Aumento da desafeição

 É complicada a análise das eleições em Espanha tendo em conta o posicionamento dos grupos e partidos concorrentes, entre defensores de um estado centralizado e regionalistas, autonómicos ou independentistas para além da habitual divisão entre direitas e esquerdas e daqueles que se não afinam por esse diapasão, como o PACMA. A tarefa é ainda mais complicada porque há uma enorme diversidade de candidaturas, a que se acrescentam alterações sensíveis nas referências concorrentes, entre os dois últimos actos eleitorais; e ainda, quando surgem coligações onde se cruzam formações centralistas com outras restritas aos seus espaços territoriais, autonómicos.

 Após uma retoma do interesse na participação eleitoral em 2015, de novo aquela volta a cair, seis meses depois, para valores de votos dirigidos a partidos, inferiores aos observados em 2011; ao aumento de 1 M de novos votantes em partidos entre 2011 e 2015, segue-se uma quebra de 1.2 M de participantes seis meses depois do momento eleitoral de dezembro. Entre 2015 e 2016 não há praticamente nenhuma variação nos quantitativos dos votos brancos ou nulos, pelo que a grande alteração nesta análise global é a do aumento de abstencionistas que se aproxima dos referidos 1.2 M de pessoas.

 Sendo assim. a taxa de desafeição que baixara mais de 5 pontos percentuais entre 2011 e 2015, como resultado da existência de novidades eleitorais com perspetivas de bons resultados - Podemos e Ciudadanos - recuperou em 2016, para valores que se aproximam dos de 2011, sabendo-se que os principais prejudicados com essa regressão eleitoral foram, precisamente, as coligações Unidos Podemos e o Ciudadanos. 

 A intervenção das instituições europeias, a submissão dos dois partidos PP/PSOE aos interesses do capital financeiro, a política de saneamento das burlas bancárias, o enorme incremento do desemprego, a inclusão do pagamento prioritário da dívida na Constituição, o despejo das suas casas, de pessoas arruinadas, para satisfação dos bancos, a repressão sobre os movimentos sociais, a revelação de variados casos de corrupção, constituíram outras tantas razões para essas quebras eleitorais.

 

Ler na íntegra

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/07/eleicoes-em-espanha-o-medo-venceu-o.html

 


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