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Honduras, a OEA e o papel dos EUA

07.07.2009
 
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Honduras, a OEA e o papel dos EUA

Quando o recém-empossado ditador de Honduras, Roberto Micheletti, principal beneficiário até agora do golpe militar que depôs o presidente legítimo Manuel Zelaya, eleito pelo voto popular, decidiu mandar às favas a OEA (Organização dos Estados Americanos), pode ter dito algo que muitos gostariam de ter ouvido, no passado, de presidentes latino-americanos: “Vá para o inferno. Não precisamos de vocês”.

No quadro continental, seria um avanço se tivesse ocorrido há algum tempo, pois nenhum país abaixo da fronteira EUA-México precisava de uma organização cujo papel consistia em subordinar a América Latina e o Caribe aos interesses políticos e econômicos de Washington. A diferença é a OEA, que em 1965 legitimou com tropas a invasão da República Dominicana pelos EUA, ter passado a rejeitar os golpes e invasões.

Cúmplice da prepotência dos EUA em 1965, ela foi omissa ou apoiou a derrubada de governantes escolhidos pelo povo e tirados por militares golpistas – mau hábito iniciado com a Guatemala em 1954 e que ainda incluiria o cone sul, Brasil (64), Uruguai (72), Chile (73) e Argentina (76), sem falar nos banhos de sangue da política ensandecida de Ronald Reagan na América Central. A conversão da OEA à democracia exigiu décadas.

Doutrina Monroe e outras torpezas

Antes a organização era instrumento conveniente a que recorriam sucessivos governos dos EUA na tentativa de legitimar suas invasões e intervenções militares. Servia tanto para consolidar os golpes como para levantar o ego dos ditadores amigos – os Somoza, Duvalier, Trujillo, Batista, Perez Jimenez, Stroessner, etc, para não falar nos muitos regimes submissos, das bananas da América Central ao petróleo da Venezuela.

No passado mais remoto o temor à independência das colônias espanholas já tinha levado os EUA a ignorar o sonho de Simon Bolivar e inventar a infame doutrina Monroe – outro pretexto para intervenções. Nascida em 1948, a OEA tornou-se ainda executora do igualmente infame TIAR (Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca), filhote da guerra fria, que a ela atrelou o continente em 1947.

Pelo menos um diplomata americano – William D. Rogers, então respeitado como especialista em problemas latino-americanos – teve certa vez o bom senso de recomendar a saída dos EUA da OEA, por achar que isso a fortaleceria ao permitir que se concentrasse nas questões regionais legítimas, “os interesses comuns das nações da América Latina”. Rogers explicou ainda:

“A medida poria fim à acusação de que a OEA é dominada pelos EUA. Permitiria ainda aos EUA terem na organização o mesmo status atual de observador mantido pelos países europeus. Além disso, seria como um exemplo aos soviéticos e à Europa Oriental. E nós abriríamos mão de nossos esforços penosos e às vezes até ridículos para manter ali um ‘perfil baixo’ para o nosso país enorme”.

Uma escola para formar golpistas

Aquela opinião de Rogers, que morreu em setembro de 2007, foi manifestada em 1973. Ele poderia ter feito alguma coisa em relação à OEA, pois em seguida à renúncia do presidente Nixon (1974) foi chamado (no governo Ford) pelo secretário Henry Kissinger para o Departamento de Estado, onde se tornou secretário Assistente para Assuntos Interamericanos e sub-secretário para assuntos econômicos.

Kissinger e Gerald Ford não deviam simpatizar com a idéia de Rogers – e este, por sua vez, aproximou-se demais do ex-secretário de Estado nos anos seguintes, como sócio e vice-presidente no rendoso escritório de consultoria Kissinger Associates. A ponto de defendê-lo na controvérsia em torno de um dos crimes nefandos dele, a ingerência americana a favor do golpe de setembro de 1973 no Chile, único país que defendera antes a saída dos EUA da OEA.

O empenho de sucessivos governos dos EUA para manter o controle da OEA, cuja sede fica a poucas quadras da Casa Branca, foi outro obstáculo à idéia. Embora a dominação escandalosa faça ainda menos sentido depois da guerra fria, vale citar mais ações e instrumentos usados pelos EUA para impor a dominação – como a infame Escola das Américas (School of the Américas, SOA) do Exército dos EUA.

Ao invés de fechá-la depois de sucessivos escândalos envolvendo militares da América Latina formados ali (muitos viraram ditadores, torturadores ou chefes da espionagem), o Pentágono optou apenas por trocar o nome dela. Rebatizou-a como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança – ou, em inglês, Western Hemisphere Institution for Security Cooperation.

O embaixador, o general e os ditadores

Com nome tão extenso e sigla tão difícil de decifrar, o Pentágono achou que mal seria notada. Mas opositores que monitoram a atividade dela mantêm vivos o nome, a vigilância e o passado sinistro da SOA, por onde passaram ditadores conspícuos e até terroristas (como Posada Carrilles, cubano de Miami).

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