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Moscovo considerava Chissano mais realista que Machel

07.05.2007
 
Pages: 123
Moscovo considerava Chissano mais realista que Machel

Moscovo considerava Chissano mais realista que Machel

As relações entre Moçambique e a União Soviética, em particular a opção socialista do governo da Frelimo, a não admissão de Moçambique como país membro do Comecon, e a afirmação do Major General Jacinto de Veloso de que o Presidente Samora Machel era um “homem a abater porque tinha traído o campo soviético” foram alguns dos temas de uma entrevista que o Professor Dr. Vladimir Shubin do Instituto para os Estudos Africanos de Moscovo, concedeu a João Cabrita em exclusivo para o ZAMBEZE, durante a sua estada na África do Sul.

Entrevista com Prof. Dr. Vladimir Shubin, do Instituto para os Estudos Africanos de Moscovo, em entrevista a João Cabrita.

As relações entre Moçambique e a União Soviética, em particular a opção socialista do governo da Frelimo, a não admissão de Moçambique como país membro do Comecon, e a afirmação do Major General Jacinto de Veloso de que o Presidente Samora Machel era um “homem a abater porque tinha traído o campo soviético” foram alguns dos temas de uma entrevista que o Professor Dr. Vladimir Shubin do Instituto para os Estudos Africanos de Moscovo, concedeu a João Cabrita em exclusivo para o ZAMBEZE, durante a sua estada na África do Sul. O Professor Shubin foi recentemente galardoado com o título honoris causa pela Universidade do Cabo Ocidental em reconhecimento pelo seu contributo à luta do povo sul-africano contra o sistema do apartheid .

ZAMBEZE – As relações entre Moçambique e a antiga URSS eram vistas no contexto da Guerra Fria. Para os que viviam no Ocidente, havia a percepção de que Moçambique, sob a liderança de Samora Machel, era um “Estado fantoche” da União Soviética. Não obstante o empenho e a dedicação manifestados por determinados elementos dentro do Partido Frelimo em relação à URSS em particular e ao bloco socialista em geral, em que o conceito de “aliado natural” ganhava preponderância no seu discurso, há círculos que ainda hoje consideram que Samora Machel se situava acima dessa retórica e que, primeiro que tudo, ele era um nacionalista. Como é que caracterizaria as relações entre os dois países desde a independência de Moçambique em 1975?

SHUBIN – Para se caracterizarem essas relações, temos de recuar até ao período da luta anticolonial. Moscovo concedeu um apoio versátil a essa luta, abrangendo os sectores financeiro e militar. Mas o volume dessa ajuda nem sempre satisfez a liderança da Frelimo. Também houve ocasiões em que ambos discordaram. Por exemplo, após a revolução portuguesa [de Abril de 1974], Machel insistia na continuação da luta armada, ao passo que Moscovo favorecia um cessar-fogo.

O que eu queria enfatizar é que a escolha em prol do socialismo foi feita pelos próprios moçambicanos – não foi imposta a partir de Moscovo. As célebres palavras de Machel a respeito dos “aliados naturais” foram bem-acolhidas em Moscovo, mas não foi aí que elas tiveram origem.

ZAMBEZE – Portanto, em sua opinião, a ideia de que os laços entre os dois países se resumiam a uma relação do tipo cliente-patrão não tem qualquer fundamento?

SHUBIN –Creio que essa ideia foi promovida por aqueles que se consideram a eles próprios ou como clientes ou como patrões, e que não conseguem crer na igualdade.

ZAMBEZE – No entanto, num livro de memórias recentemente publicado, o antigo ministro moçambicano da segurança, Jacinto Veloso, afirmou que os serviços secretos da URSS e de outros países socialistas lhe haviam dificultado a vida devido à sua recusa em seguir a linha de orientação de Moscovo no que se refere a questões de segurança. Segundo Veloso, a partir de 1982/83 a União Soviética fez tudo para neutralizar as actividades da Socimo, uma empresa controlada pelo Snasp, o que acabou por melindrar as operações secretas de Moçambique.

SHUBIN – Ao invés do Senhor Veloso, não sou especialista em questões de espionagem, mas não creio que fosse desejo da URSS que se deveria seguir a sua linha de orientação para este ou aquele sector. Parece que as pessoas estão agora a tentar atirar as culpas sobre Moscovo pelos seus próprios erros e fracassos.

ZAMBEZE – E quanto à questão de Moçambique nunca ter sido admitido como membro pleno do Conselho de Ajuda Mútua Económica (Comecon), qual terá sido a razão?

SHUBIN – As expectativas da direcção da Frelimo eram demasiadamente grandes, especialmente após a assinatura do Tratado de Amizade e Cooperação em 1977. Infelizmente, certas pessoas em África e em outras partes do Terceiro Mundo acreditavam que uma vez proclamado o socialismo, Moscovo e os seus aliados seriam obrigados a ajudá-los sob todas as formas.

Em 1983, Yury Andropov fez uma avaliação sóbria da situação no Terceiro Mundo e que é relevante para Moçambique. Na altura ele afirmou que “uma coisa é proclamar o socialismo como um objectivo a alcançar, e uma outra bem diferente é edificar-se esse sistema. Por isso, é necessário que haja um certo nível de forças produtivas, de cultura e de consciencialização social. Os países socialistas expressam a sua solidariedade para com esses Estados progressistas, prestam-lhes assistência nas esferas política e cultural, e promovem o reforço da sua defesa. Contribuímos igualmente, de acordo com as nossas capacidades, para o seu desenvolvimento económico. Todavia, o desenvolvimento económico desses países, tal como o seu progresso social, só pode, obviamente, ser resultado do trabalho desenvolvido pelos respectivos povos e de políticas correctas dos seus dirigentes.”

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