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Nós, a crise e a sociedade de mirones

07.04.2009
 
Nós, a crise e a sociedade de mirones

Que burros que somos, aqueles que sonhavam com algo diferente no limiar do século XXI, com uma Nova Ordem Mundial baseada no Estado de Direito numa comunidade de nações unida, livre, fraterna e igual. Tal como outros sonhadores e pensadores dos séculos passados, que escreveram ou proclamavam com igual carinho as mesmas palavras, vemo-nos confrontados por uma muralha invisível mas impenetrável.

Acabámos o segundo milénio com um acto de barbárie chocante, o bombardeamento e chacina do corajoso e nobre povo sérvio em actos de terrorismo de Estado perpetrados pela OTAN, começámos o terceiro milénio com a guerra no Iraque, ligada ao evento 9/11 por uma comunicação social anti-profissional, comprada, ignorante, manipuladora e tendenciosa, ligada aos interesses daqueles que querem vender um pacote de desinformação ao público cada vez mais ameaçado culturalmente pelos reality shows, futebol e os futebóis (os profissionais que gravitam à volta desse “desporto” falando clichés, enriquecendo-se ao custo dos espectadores e aficionados).

O resultado é um SKY News, que aparentemente ganha prémios todos os anos como Canal do Ano, Sítio do Ano e por aí fora, mostrando mísseis georgianos a choverem sobre civis russos na Ossétia Sul, declarando de viva voz que os russos atacaram o vizinho ao sul, o mesmo canal entrevistando soldados norte-americanos a entrarem no Iraque e a perguntar se queriam vingança para os ataques contra as Torres Gémeas e um novo fenómeno, “Estrela de Reality Show” como a inglesa Jade Goody, que morreu recente, prematura e publicamente de cancro e entrou em quase todos os canais de comunicação social pelo planeta fora.

E por quê foi Jade Goody famosa? Porque insultou uma moça indiana no Big Brother inglês, depois foi filmada numerosas vezes com um cigarro pendurado do canto da boca e a seguir, descobriu que tinha cancro, no meio de uma reality show, claro. Pois, na mesma sociedade que eleva o David (“We done the Job” Nós fazimos o trabalho) Beckham ao estatuto de quasi-Deus, que lhe atribui rendimentos de 250 milhões de dólares em cinco anos porque consegue fazer com uma bola (poucas vezes) aquilo que nem consegue fazer com a língua inglesa.

É precisamente esta sopa de ignorância, convidando a sociedade a nadar num mar de mediocridade, ignorância e escuridão, empurrada pelas nossas gargantas abaixo diariamente cada vez que ligamos a televisão, ouvimos a rádio ou abrimos um jornal (evito a palavra “comprar” porque os mais lidos agora são aqueles que reduzem tudo a quatro páginas de informação, seis de anúncios e o resto a só Deus sabe o quê). O que a Igreja não conseguiu fazer nos tempos medievais, conseguiram os que lideram nossa sociedade nos tempos modernos. Parabéns.

Assaltaram cada fibra do Estado de Previdência, retirando gradualmente todos os ganhos conseguidos ao longo de anos de luta, começando pelo sistema de cuidados de saúde gratuito e terminando com a educação pública livre. Tem dinheiro? Pode estudar. Pode viver.

E quão conveniente, numa altura em que descobrimos que as nossas pensões estão em risco porque uma cambada de filhos da (que vontade tenho eu de ultrapassar as linhas editoriais), irresponsáveis e gulosos vaporizaram biliões de dólares de dinheiro mesmo antes que estes pudessem existir. Mas que obra! Se qualquer operário demonstrasse uma fracção da risível incompetência mostrada por esse bando de inúteis, seria despedido e se calhar, processado – nunca receberia uma indemnização milionária.

E quem vai pagar a conta? Não é pergunta que se faça, seria mais correcto dizer quem já paga a conta? Imaginem. Os reality shows, entretanto, vão continuar, os futebóis vão ficar cada vez mais ricos mas fazer cada vez menos senso cada vez que abrem a boca, os gestores da crise compram o terceiro iate, o quarto Ferrari e a segunda ilha de férias, porque a primeira fica ao lado de um bilionário de futebol, e nós olhamos à crise, encolhendo os ombros como quem vê uma reality show.

Será que temos a obrigação de aceitar isto?

Timothy BANCROFT-HINCHEY

PRAVDA.Ru


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