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Rahr : Intervenção à Síria é quase inevitável

07.02.2012
 

Intervenção à Síria é quase inevitável. 16386.jpeg

Este domingo (5) a Rússia e a China bloquearam no Conselho de Segurança das Nações Unidas projecto de resolução sobre a Síria, exigindo a retirada de Bashar Assad. Imediatamente após a votação, os representantes oficiais dos países ocidentais, especialmente os dos EUA, responderam com muito nervoismo.

Houve até comentários no espírito de "dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia e a China estão abusando do seu direito de veto". A campanha na mídia ocidental desencadeada para disacreditar a Rússia e a China prova que o Ocidente não as considera de parceiros iguais em discutir um problema tão importante como sírio.

Como vão agir os adversários de Assad na situação atual? E se é possível repetir o escenário na Jugoslávia e no Iraque, quando os EUA e seus aliados ignoraram o Conselho de Segurança e realizaram a agressão contra eles?

Seus pensamentos em uma entrevista para o Pravda.Ru compartilha um conhecido analista político, bem recebido nos escritórios da elite do poder ocidental, o membro do Conselho Alemão de Relações Exteriores, Alexander Rahr:

-Quando falamos da situação na Síria, deve levar em conta o fato de não estarmos lidando com um caso isolado, mas com o processo de mudar da ordem mundial no planeta, que começou em 1999 depois dos acontecimentos em Kosovo e a guerra da OTAN contra a Jugoslávia. Foi então que ocorreu a primeira brecha grave da ordem mundial estabelecida, após a Aliança ter ignorado a presença e opinião de tal organização como o Conselho de Segurança e ter decidido iniciar um "bombardeio humanitário para proteger a população civil do Kosovo". A seguir , depois de  castigo de Milosevic, foi o Iraque com a derrubada de Saddam Hussein, e agora é a "primavera árabe", com tais consequências como saída de Mubarak e a eliminação do regime de Kaddafi na Líbia. Agora chegou a vez da Síria.

— Como percebe a elite política ocidental a Síria sem Assad?

- Infelizmente, eles não levam em conta muitos pontos importantes. Existe o perigo de após o derrube do regime actual do país, a região mergulhar em uma sangrenta guerra civil entre sunitas e xiitas, e o futuro dos alauítas e cristãos nesta situação apresenta-se muito preocupante. Enquanto isso, no Ocidente domina a opinião que o povo sírio vai fazer uma escolha democrática a favor dos valores ocidentais. E para construir um "grande mundo justo" as elites ocidentais vão até o fim.

Não as pára e aquilo o que aconteceu na Líbia após a derrubada de Kaddafi. No Ocidente muitos acreditam que a situação na Síria vai ser determinada pela classe média, pessoas educadas, e tendo um sistema democrático, eles serão capazes de resolver todas as diferenças. Ou seja, existe uma certeza certamente injustificada de os sírios escolherem dinheiro e bem-estar.

Em quais condições Assad poderia ficar no poder?

- A Síria é a pedra angular no mundo construído pelo Ocidente, e ele não a vão deixar em paz. Rubicão foi cruzado e as condições do Ocidente são claras — o atual líder sírio deve retirar. Elite política ocidental indica que ele derramou demais sangue dos seus próprios cidadãos, para que fosse possível negociar com ele.

- O actual presidente da Síria, em uma conversa privada com um repórter do "Pravda.Ru" em 24 de novembro passado reclamou que a Síria tinha se tornado o objeto da conspiração, porque era uma aliada da Rússia …

— O fator russo é secundário. Será que NATO pode ser assustada pelo único objeto militar em Tartus, que não é ainda uma base naval russa de pleno direito e onde não há esquadra da Marinha russa permanente? Além disso o nível de cooperação entre a Rússia e a Síria, não na esfera econômica, nem política, é bem longe da antiga aliança entre Moscou e Damasco nos tempos da União Soviética. As queixas de Assad são claras: o Irã, o único aliado real da Síria, enfrenta grandes problemas, e a China é muito longe. Para ele fica só uma esperança -reanimar velhos laços com Moscou. No entanto, isto não vai parar os americanos. Os EUA praticamente anularam a Rússia como uma potência mundial e não têm a intenção de ouvi-la. Olhe, pelo menos, para o seu comportamento em relação ao Programa da Defesa Antiaérea na Europa.

— A China, e especialmente a Rússia vetadas a resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre Síria, deixaram claro que o cenário da Líbia não vai funcionar ali. Ocidente vai ignorar a opinião dos dois poderes ?

- Lembre-se da situação com o Iraque. Então a Rússia se opôs à intervenção dos EUA e seus aliados, com forte apoio em face da Alemanha e França. Na verdade, o Ocidente naquela época sobre a "questão do Iraque" foi dividido, pois, a maioria dos países ocidentais se recusou a participar da intervenção dos EUA e Reino Unido. Mas e naquelas circunstâncias, a Rússia, tendo um apoio sólido, não foi ouvida. Acho que este precedente de atacar outro país, ignorando o Conselho de Segurança voltará a repetir. Agora, o Ocidente, ao contrário da situação com o Iraque, está muito mais unido. Alguém realmente acredita que numerosos adversários de Assad vão notar protesto da Rússia e da China?

Também o Ocidente tem uma clara convicção de que o apoio de Moscou à Síria será limitado, a Rússia não quer acabar brigando com Bruxelas ou Washington com o medo de ser isolada.

— Então, a intervenção na Síria é uma conclusão inevitável?

— Dizendo a verdade, é assim, embora quase nenhum político não o tenha dito publicamente. É quase inevitável. Depois de a Rússia e China bloquearem a resolução sobre a Síria, o Ocidente não tem outras opções de escolha além da força. Claro, que as sanções económicas têm um efeito, mas só elas não são susceptíveis de conduzir a um colapso muito rápida do regime de Assad que continua a reprimir revoltas populares. Assim, a intervenção armada é uma continuação lógica do processo iniciado. Mas dizer que a intervenção será amanhã, não vale a pena. Aparentemente, o Ocidente com ajuda da Liga dos Estados Árabes aumentará o apoio aos rebeldes e participará de uma forma limitada das operações contra o regime de Assad, usando as forças especiais. E por fim das contas, o caso deveria chegar para o bombardeio. O motivo principal é "para remover o ditador!"

— Mas a Síria é adversário muito mais grave do que a Líbia?

- Pois é, o cenário da Líbia não vai reprtir na Síria diretamente. Na Síria a situação é diferente, e o regime de Assad é militarmente mais forte do que o de Kaddafi. Mas, primeiro, dia a dia em termos de sanções, ele está enfraquecendo. Em segundo lugar, não devemos esquecer que as forças da OTAN são bem mais fortes. Em terceiro lugar, também é impossível ignorar os países árabes, a maioria dos quais favoreceram a derrubada de Assad. E em quarto lugar, lembre-se que o Iraque era militarmente (como em 1991, e em 2003), à primeira vista, uma ameaça séria. No entanto, o regime de Hussein perdeu a campanha e foi desmantelado.

Os argumentos dos céticos que falam da impossibilidade de um cenário militar na Síria, não são totalmente convincentes. Para o Ocidente, sé agora vital a qualquer custo mostrar o triunfo do modelo liberal, que está tentando se renovar e fortalecer, inclusive por meio da derrubada dos regimes ditatoriais.

Leia original na versão russa

Tradução Lyuba Lulko


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