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Entrevista com Evo Morales

06.09.2006
 
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Entrevista com Evo Morales

Com esta entrevista o presidente boliviano rende homenagem a quem considera seu conselheiro e amigo. Conto como viajou a Havana para conhecê-lo, com uma passagem de ida e os bolsos vazios, como Castro o ajuda na Bolívia e seus conselhos para enfrentar os Estados Unidos. Diz que uma vez Castro o chamou e ele, que estava machucado, soltou suas muletas e caminhou.

Por Pablo Stefanoni

De Cochabamba

Fidel Castro durante um discurso que realizou em 2001 no bairro de San José de las Lajas, em Havana, Cuba.

Dois vagonetes – com a segurança presidencial dentro – são único indício da presença de Evo Morales na modesta casa de tijolos sem rebocar que se oculta por trás de um portão negro, no bairro Magistério, da cidade de Cochabamba. O presidente sai às 7:45 da manhã de sua antiga moradia, à qual não deixa de voltar. Está de bom humor. “Despertei, como sempre, às cinco, porém segui até às sete”, diz, como quem se justifica de uma travessura. E a entrevista combinada com Página/12 se desloca para o ainda mais modesto local das seis federações cocaleiras do trópico de Cochabamba – ainda presididas por Morales – localizado na praça Germán Busch. Só a foto oficial – com a faixa e as medalhas – colocada ao lado de um desenho do “Super Evo” recorda que o ainda líder sindical cocaleiro é também presidente da Bolívia. Nessa sede sindical começou a entrevista com Página/12 para falar do tema acordado: suas relações, acontecimentos e opiniões sobre o líder cubano Fidel Castro, em seu aniversário número 80. Atenta às ordens de seu chefe, sua secretária havia anotado na agenda o telefone do líder cubano para o momento em que o presidente boliviano decidisse chamá-lo.

Mais tarde, nesse mesmo lugar, o mandatário indígena dará uma conferência de imprensa sobre a conjuntura nacional, na qual insistirá com uma proposta polêmica: que os movimentos sociais abram escritórios na cidade de Sucre para “controlar” (a oposição diz pressionar) os constituintes. Porém, antes recordará a seu admirado comandante.

- Quando conheceu a Fidel Castro?

- Num encontro pela autodeterminação e solidariedade entre os povos, organizado em 1992, em Havana. Eu não tinha dinheiro e, com o que juntei, só pude comprar uma passagem de ida. Em Cochabamba, os organizadores (bolivianos) me disseram: “Gasta só o suficiente, que lá vão te devolver e te darão também passagem de volta”. Confiando neles, me fui, só para conhecer Cuba e Fidel. Chegamos, havia alojamento e desjejum grátis. Pela primeira vez, entrei no Palácio de Convenções e estava Fidel no cenário. Era impossível aproximar-se. Inscrevi-me na lista de oradores, esperei dois dias para falar três minutos. Não pude saudar a Fidel, porém o vi a uns cem metros. Às vezes, minha única comida era o desjejum grátis, depois tomava Tropicola. Logo, vieram os problemas para retornar: não havia passagem para La Paz, me conseguiram Havana-Lima, e cheguei lá com um dólar, que troquei por soles para pedir ajuda a um dirigente da Confederação Campesina do Peru, Juan Rojas, que, felizmente, me emprestou cem dólares para retornar à Bolívia. Disse-me em tom de brincadeira: “Cocaleiro, e não tens dinheiro?” Esse dinheiro me serviu para chegar a Cuzco e, dali, seguir de ônibus para a Bolívia, para chegar ao Congresso da Federação Camponesa. Haviam me advertido que a estrada, que ainda não estava pavimentada, não era segura em época de chuvas. Fui caprichoso e segui: tardei uma noite e um dia. A cada momento o ônibus atolava e tinha que tirar os sapatos para empurrá-lo no meio do barro. Tudo para conhecer Fidel.

- Que representa para você?

- É um irmão maior sábio, cujo princípio básico é a solidariedade e a luta pela igualdade e a dignidade. Fidel me chama, me abraça, conversa comigo, me orienta.

- E que conselhos recorda dele?

- Uma vez lhe disse, antes de ser presidente: “Se um dia ganhasse como presidente e os Estados Unidos nos bloqueiam economicamente, que devo fazer, como devo preparar-me?” Outros membros do governo cubano me diziam: “Isso há que manejar com cuidado, não podemos arriscar”, enquanto Fidel me disse: “Não tens porque ter medo, a Bolívia não é uma ilha como Cuba, a Bolívia tem países amigos e riquezas naturais”. E me explicou duas coisas: primeiro, tendo gás e petróleo, minerais, como vamos ter medo do bloqueio econômico? Só devemos saber administrar, recuperar esses recursos. Segundo, me dizia: “Tens aí a Lula, a Kirchner, a Chávez, a Cuba; nós não tínhamos nada disso, e, ao final, nem sequer a União Soviética”. Logo, já em 2003, me disse numa conferência: “Não façam o que nós fizemos – referindo-se à luta armada para libertar Cuba -, façam uma revolução democrática. Estamos em outro tempo, o povo quer transformações profundas, porém não quer guerras.”

- Castro também se mostra preocupado por sua segurança (a de Morales).

- Uma vez, quando o avião presidencial deu uma volta no ar, não sei como se inteirou, porém disse: “Vocês não necessitam de conselhos políticos, mas sim psiquiátricos”. Preocupa-se muito com nossa segurança, é o primeiro que pergunta, certamente pelos atentados que ele superou graças à eficácia de sua segurança.

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