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Cultura da Violência nos EUA: Entrevista com Peter Kuznick

06.06.2020
 
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Cultura da Violência nos EUA: Entrevista com Peter Kuznick

 

Historiador estadunidense explica, em mais uma entrevista a Pravda.ru, a cultura imperialista em seu país, anterior à independência das treze colônias britânicas na América, e como, desde os primeiros passos, as crianças americanas são ensinadas a sentir-se superiores em relação ao restante da humanidade. 

 

Discriminação e violência, nas raízes mais profundas da formação do Estado americano. 

 

 

Edu Montesanti: Lançamento de duas bombas atomicas, as únicas da história, anexação de mais da metade do território mexicano, genocídio dos povos originários, crimes de guerra na Coreia, no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, ataques contra a democracia na América Latina através de sabotagens, assassinatos de líderes eleitos pelo povo, pilhagens das riquezas naturais enfim, um total de 47 invasões militares considerando apenas as intervenções diretas dos Estados Unidos na região, entre 1846 e 2000. 

 

A lista do terror made in USA é vasta, e diante de tais exemplos da classe política nao se poderia esperar nada da sociedade americana que nao fosse discriminação e muita violência, não, professor doutor Kuznick? 

 

Peter Kuznick: Os americanos sempre se orgulharam de ser "excepcionais". Vimos isso pela primeira vez através do sermão de John Winthrop a bordo do Arbella, na baía de Massachusetts em 1630 quando disse aos futuros colonos que eles seriam como uma "cidade sobre uma colina", e o exemplo deles levaria o mundo cristão à salvação. 

 

Genocídio de nativos americanos, escravização e brutalização de milhões de pessoas de ascendência africana, exploração de centenas de milhões de trabalhadores de todas as raças e etnias, não obstante a discriminação contra mulheres e não-brancos de todos os sexos... Os americanos aderiram obstinadamente a essa crença. 

 

Expressa-se na noção de que os Estados Unidos não somente são diferentes de outras nações, mas que são inclusive melhores que outras nações. Enquanto outros países são motivados pela ganância, pelo engrandecimento territorial ou pelo domínio geopolítico, os EUA, eles acreditam, são benevolentes e altruístas, desejando apenas espalhar liberdade e democracia. 

 

Essa visão prevaleceu por séculos, mas ganhou ainda mais adeptos durante a Guerra Fria e nos anos subsequentes. Foi abalado pela presidência de George W. Bush e por seu círculo de neoconservadores que aplaudiam o Império. Ficou tão ruim que o New York Times encabeçou sua seção da Sunday Magazine em 5 de janeiro de 2003 "American Empire: Get Used To It" [Império Americano: Se Acostume com Ele]. 

 

Teóricos do neoconservadorismo como o falecido Charles Krauthammer, louvoram o domínio dos EUA e, no final de 2002, proclamaram que a "era unipolar" duraria para sempre. Os desastres no Afeganistão e no Iraque levaram essa unipolaridade a uma conclusão inesperadamente rápida. Em 2006, até Krauthammer admitiu que sua fantasia hegemônica estava chegando ao fim.


Barack Obama teve a chance de acabar com essa bobagem de uma vez por todas, e até fez alguns comentários críticos à noção de excepcionalismo americano, pela qual ele foi criticado. Ele rapidamente recuou e começou a abraçar abertamente essa noção nociva e a pedir a Deus que abençoasse a América. 

 

Ele e a secretária de Estado Hillary Clinton raramente perdiam a oportunidade de repetir a declaração da ex-secretária de Estado Madeline Albright [governo de Bush filho], de que os EUA são a "nação indispensável". Albright usou isso para justificar o uso da força nos EUA em todo o mundo. Obama e Clinton viriam a fazer o mesmo.

 

 

Quanto o senhor considera ainda que a mídia e o sistema educacional dos Estados Unidos alimentam a cultura da violência e o racismo, enraizados na sociedade americana? Qual a relação disso tudo com mais este crime de policiais brancos contra um cidadão negro, George Floyd, pertencente às classes menos favorecidas?

 

O povo americano é ensinado que os EUA são excepcionais desde o momento em que são capazes de andar, e conversar pela primeira vez. 

 

Eles aprendem isso nas escolas. Veem isso na televisão e no cinema. Isso é inquestionável no discurso político americano. Cega-os da possibilidade de ver o mundo do mesmo jeito que outros cidadãos do planeta Terra veem. 

 

O fato, por exemplo, de que os EUA estejam bombardeando pelo menos sete países de maioria muçulmana mal causa alvoroço. O fato de os EUA terem um Império de aproximadamente 800 bases militares no exterior, enquanto o resto do mundo combinado, amigos e inimigos, tem menos de cem pela definição mais abrangente, não é questionado. 

 

Ao longo das investigações do Congresso sobre interferência russa nas eleições de 2016, o fato de que alguém poderia assistir "especialista" após "especialista" na mídia americana em geral condenando a intervenção russa como um "ato de guerra", sem nunca ter superado o número de intervenção nos EUA nas eleições e nos assuntos políticos de um país após o outro, desde o início da insurreição filipina em 1899, fatos verdadeiramente terríveis.


Uma das poucas realizações positivas de Donald Trump como presidente, pode ser que ele finalmente colocou qualquer pensamento de que os EUA são excepcionais sob um aspecto positivo, ou seja, os EUA em pesquisas internacionais despencaram. Os EUA tornaram-se motivo de chacota global. 

 

Observadores estrangeiros escrevem que grande parte do mundo não tem mais medo ou menospreza os Estados Unidos. Agora, eles têm pena do país e sua estúpida hidroxicloroquina, do fato de que o presidente da nação defende a ideia de que se deva beber desinfetantes, e iluminar a bunda das pessoas bem brilhante, a fim de combater o novo coronavírus. 

 

Os americanos que se orgulham de ser o número um em tudo, orgulham-se do fato de o país ser o número em casos de infecção do coronavírus  e demortes por COVID-19. 

 

Os EUA ja não proclamam mais, com nenhuma credibilidade, a noção de que são o líder moral mundial. O resto do mundo olha para os Estados Unidos com horror ou descrença. 

 

Como John Paul Sartre alertou quando os EUA executaram os Rosenberg em 1953, em plena histeria McCarthysta, "não se surpreenda se gritarmos, de um extremo da Europa a outro: Cuidado! A América esta enraivecida! Cortem todos os laços que nos ligam a ela; caso contrário, seremos mordidos e enlouquecidos!".

 

As causas mais profundas da agitação estão conosco há 400 anos. O racismo e a violência resultante contra os negros estão conosco desde que os primeiros escravos foram trazidos à América. Pode-se até rastrear o comércio de escravos americano até Colombo, e as origens da brutal conquista européia das Américas.

 

 

Qual sua avaliação da resposta do presidente Trump ao assassinato de Floyd e aos protestos que tomam conta das ruas de todos os Estados Unidos, e quanto ele é responsável pelo caos que toma conta do país?

 

Donald Trump, como um fanático insensível e um durão, fez tudo o que pôde para semear divisões na sociedade ao longo da linha racial e explorar esta crise atual para melhorar suas chances de reeleição, mas ele não é o principal responsável pelas condições subjacentes que desencadearam a atual revolta nas ruas. 

 

Com certeza, ele piorou tudo diante da absoluta incompetência ao lidar com a pandemia, que matou pessoas de cor a uma taxa mais de duas vezes superior à de brancos, ascendeu as flagrantes desigualdades em toda a sociedade americana nos segmentos raciais e classistas, e devastou a economia americana de maneira que afeta desproporcionalmente os pobres de todas as raças. 

 

Desta maneira, mesmo antes da doentia e insensível execução policial de George Floyd, em plena luz do dia diante de uma multidão de espectadores frenéticos, a sociedade americana já era um tinderbox pronto para explodir. Mais de cem mil pessoas já haviam morrido do COVID-19. Mais de quarenta milhões haviam perdido o emprego nas últimas semanas. Os sentimentos de desespero e frustração apenas cresciam. 

 

E então, os acontecimentos de Minneapolis acenderam a chama e Donald Trump, com seus pedidos insanos de violência, lei e ordem, derramou gasolina no fogo. 

 

Enquanto outros presidentes, como John F. Kennedy, pediram unidade e protestos pacíficos em momentos como este, Trump pediu à Polícia que usasse as ferramentas dos ditadores do Terceiro Mundo para deter a desordem nas ruas dos Estados Unidos. 

 

Além disso, ele e seu completamente desprezível procurador-geral, William Barr, ordenam que a Polícia e as Forças Armadas varram violentamente manifestantes pacíficos que se manifestam em frente à Casa Branca, para que Trump pudesse tirar uma foto em frente a uma igreja histórica perto da Casa Branca. 

 

Aquilo foi imediatamente condenado como um dos atos mais cínicos e covardes já realizados por um presidente americano. Mais uma vez, Trump estava sinalizando para os hardcore racistas entre seus apoiadores que ele usaria alegremente táticas de Estado policialesco para calar os manifestantes. 

 

Desta vez o tiro saiu pela culatra, porque foi um ato muito baixo. Até muitos de seus bajuladores seguidores republicanos ficaram enojados com aquele espetáculo.

 

 

O assassinato de Martin Luther KingJr. em 1968 gerou efeito semelhante ao que vemos hoje. Décadas mais tarde, o mundo assistiu assombrado, e com certa esperança, à reação dos americanos que protestavam fortemente em Los Angeles pelo brutal assassinato do motorista negro Rodney King por policiais brancos, com focos de manifestações por todo o pais, até que em 2008 veio a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, causando comoção e levando muita esperança aos americanos e ao mundo no que diz respeito ao combate ao racismo. Nada mudou. 

 

O que é efetivamente necessário para transformar esse quadro de ódio e violência racial nos Estados Unidos?

 

A revolta atual pode não ser algo sem precedentes, mas é muito promissora. Uma das coisas de que mais gosto é do grande número de brancos que estão participando. Isso me lembra os melhores dias do Movimento dos Direitos Civis, que foi muito um movimento inter-racial. 

 

Embora sempre tenha havido importante quantidade de apoio dos brancos à luta dos negros por justiça nos Estados Unidos, agora estamos testemunhando mais ativismo dos brancos do que vimos em várias décadas, algo muito animador, sendo especialmente verdade entre os participantes mais jovens dessas manifestações. 

 

Vejo as mudanças entre meus alunos. Hoje, os estudantes universitários nasceram na sombra do 11 de setembro. Tudo o que eles conhecem é guerra na vida deles. Essa guerra pode não ter sido travada muito perto de casa, mas eles viram os EUA envolvidos em uma guerra interminável e completamente fútil, uma após a outra. 

 

Eles viram dinheiro que poderia estar entrando na educação, mas em vez disso foi desviado para a máquina da guerra. Eles acumularam montantes enormes de dívida para prosseguir o Ensino Superior. Eles sabem que quatro décadas de políticas econômicas neoliberais devastaram não apenas os serviços sociais, mas o próprio meio ambiente. 

 

Esta geração tem aprendido sobre mudanças climáticas há anos em suas escolas e na cultura popular. Eles sabem o quanto nosso planeta  é frágil, e como isso afetará o futuro deles. Eles também estão cientes da ameaça existencial representada pela guerra nuclear, e vêem seu governo embarcando em um programa de modernização nuclear de quase 2 trilhões de dólares. 

 

Além disso, eles aprenderam nas escolas sobre racismo sistemático o qual testemunharam, repetidas vezes, com assassinatos de policiais contra homens e mulheres afro-americanos inocentes. Não é à toa que eles estão com raiva. Não é à toa que eles estão fartos. Não é à toa que eles apoiam predominantemente o socialismo democrático em um sistema capitalista, no qual os três americanos mais ricos têm mais riqueza do que a metade inferior da população dos EUA, e as oito pessoas mais ricas do mundo têm mais riqueza do que os 3,8 bilhões mais pobres. Eles acham isso apropriadamente doentio. 

 

Portanto, esses protestos não envolvem apenas jovens afro-americanos corajosos que vivem diariamente com as realidades do racismo, discriminação e brutalidade policial, mas envolvem pessoas brancas, amarelas, vermelhas e marrons que vêem seus laços humanos básicos com George Floyds e outras vítimas de um sistema cruel e desumano. 

 

E agora, a pandemia global está tornando mais clara do que nunca as conexões entre pessoas em todo o mundo como parte de uma comunidade planetária. Embora o racismo possa ser solucionável, ou pelo menos improvável dentro de um país, os problemas profundos causados pelas estruturas globais de desigualdade e violência não são. 

 

É por isso que alguns de divulgamos nosso Manifesto de Solidariedade Global COVID-19, disponível em covidglobalsolidarity.org, pelo que temos trabalhado para construir um movimento verdadeiramente internacional para resolver os problemas mais profundos que todos os habitantes deste planeta, bonito e frágil, enfrentam.

Foto: https://en.wikipedia.org/wiki/File:George_Floyd_Memorial_at_38th_and_Chicago_Avenue_South,_Minneapolis_(49942178738).jpg

 


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