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A globalização da inequalidade

06.06.2008
 
A globalização da inequalidade

Muitas famílias na Europa Ocidental e América do Norte deitam fora um terço da comida que compram. Não é assim na Etiópia, onde 4,5 milhões de pessoas precisam de apoio alimentar de emergência. A situação é tão grave que muitas das crianças famintas que chegam nos centros, não são assistidas porque não são suficientemente magras. Onde agora está a Globalização e todos os maravilhosos benefícios que é suposta trazer?

Depois de ver as imagens chocantes de crianças com pernas da grossura de um lápis, com olhos tristes e penosos, olhos derrotados que deveriam estar a transbordar de alegria e brilhar com mil planos para a vida, a palavra “Globalização” soa oca e vazia. Representa a Globalização do quê? Do direito de comer, o direito a água potável, o direito à educação, o direito a cuidados de saúde, à inviolabilidade da pessoa humana?

Com certeza que não, nem representa para estas crianças uma refeição no final do dia e o direito de crescer em paz e ter acesso a conhecimentos que capacitar-lhes-ão a seguir uma carreira da sua escolha. Depois dos grandes avanços sociais e científicos dos últimos dois séculos, termos uma crise desta gravidade na Etiópia, mais uma vez, em 2008, diz tudo acerca do mundo onde vivemos.

É um mundo onde centenas de biliões, ou até triliões, de dólares foram desperdiçados em destruir o Iraque, suas infra-estruturas, sociedade e esperança para o futuro, onde os culpados – assassinos, torturadores e criminosos de guerra – andam impunes; são recebidos com apertos de mão e sorrisos em cimeiras internacionais, como se nada tivesse acontecido. É um mundo em que até um terço da comida que entra em tantos lares em certas regiões geograficamente favorecidas é deitada para o lixo, enquanto 4,5 milhões de pessoas morrem a fome, em outras regiões não tão longínquas mas mais desfavorecidas pelos elementos naturais.

É um mundo em que adolescentes ocidentais com acesso a tudo caçam em bandos ao anoitecer, armados com facas, drogando-se, insultando e espancando idosas, bebendo até vomitarem…enquanto na Etiópia, milhares e milhares de crianças nem sequer têm o direito de se tornarem adolescentes – muitos nem irão acordar de manhã, muito menos sonhar com algum futuro.

É um mundo em que em 2008, há pais desesperados que levam os seus filhos moribundos aos centros de emergência de saúde e de distribuição, não porque não há alimentos, mas sim porque os preços aumentaram tanto que não têm possibilidade de os comprar. Bem-vindos à globalização da economia de mercado, com seus maravilhosos apetrechos – subsídios e tarifas, para a tornar mais igualmente orientada para o mercado para alguns do que para outros; com a sua crescente vulnerabilidade perante a especulação, que por sua vez se torna cada vez mais perniciosa, dado o incremento na influência dos brokers e traders de commodities (só os nomes assustam) – e políticas de distribuição de bens desumanas, que ignoram por completo as capacidades e necessidades do indivíduo.

Se é este o modelo capitalista monetarista orientado para o mercado, é pouco atraente. É feio. É aberrante. É monstruoso. É um modelo egocêntrico, que alimenta os gordos e avarentos e mata os pobres a fome. Se isso é Globalização, é evidente que só tem sucesso em globalizar práticas nefastas e perversas – porcaria, pornografia, prostituição, doenças, drogas, crime e comportamentos anti-sociais mas não, claro, preceitos básicos como o direito a comida.

Quando abrimos os nossos frigoríficos e lá atrás, encontramos uma sanduíche podre, um limão com bolor, um tupperware com carne do mês passado e meia tigela de sopa râncida, vamos pensar colectivamente sobre quem somos e onde vamos, porque o que vemos hoje, em 2008, não é muito bonito.

Que as gerações futuras nos julguem pela porcaria que nós somos.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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