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Na corda bamba, de sombrinha

05.11.2016
 
Na corda bamba, de sombrinha. 25393.jpeg

Em 1979, quando a ditadura militar do Brasil ainda prendia, torturava e matava, João Bosco e Aldir Blanc compuseram O Bêbado e o Equilibrista, que a voz maravilhosa de Elis Regina transformou num hino contra a prepotência dos então donos do poder.

"A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar"

Hoje, ao ler o excelente artigo que Tarso Genro publicou no Sul 21, comparando a situação atual do Brasil com o drama escrito por Eugene O´Neill, "A Longa Jornada para Dentro da Noite", me dei conta que ele fazia um desafio a todos nós, que nos colocamos em posições de esquerda, para que assumamos os riscos dessa posição, contribuindo para o grande debate que devemos fazer sobre o futuro do nosso País.

Eu, pessoalmente, sei que caminho sobre uma corda bamba, onde cada palavra que escrevo, cada juízo que faço, tem um risco.

O risco de ser mal entendido.

De ser lido ao avesso.

Mas, o que dá sentido à vida é enfrentar os desafios que ela nos propõe.

Vamos a eles, então.

 

Tarso, mais uma vez, defende a democracia, sem qualificá-la e os tribunais, especificamente o STF, ao afirmar que "o juízo moral ou político que tenhamos de qualquer dos ministros que compõem nossas Cortes Superiores, em especial o STF, não pode implicar num juízo demolidor ou ao contrário, sacralizador destas instituições, pois o estado democrático que não prevê formas institucionais aceitáveis, para solucionar os seus impasses mais graves, está perto da anomia. E esta é sempre controlada pelo autoritarismo dos mais fortes".

E se o que tivéssemos é um excesso de democracia?

 

 

Ao fazer este questionamento é preciso segurar firme a sombrinha, porque este é o passo mais arriscado da caminhada.

 

O modelo democrático em que vivemos, certamente muito melhor que a ditadura do passado, se fundamenta numa profunda e injusta divisão social, institucionalizada pela Constituição de 88.

Este modelo nasceu de um acordo entre a ditadura que terminava, mas ainda tinha força, e uma liderança conservadora, representada por Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, que a rigor nunca se afastou suficientemente dos generais para ser considerado oposição.

 

Tancredo, como candidato do MDB, em 1985, era mais palatável à ditadura que Maluf, o candidato da Arena e Ulysses, não só foi um dos participantes da famosa Marcha Da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, como apoiou o golpe de 64 e junto com mais sete "notáveis" do Congresso ( Adauto Lúcio Cardoso, Martins Rodrigues, Paulo Sarazate, Bilac Pinto, Pedro Aleixo e João Agripino), foi dos proponentes da proposta de cassação por 15 anos da cúpula janguista, transformada depois no Ato Institucional número 1, por Francisco Campos.

 

Em 1988, quando se aprovou uma Constituição, que em vez de sepultar de vez a ditadura, a institucionalizou como uma página igual a tantas outras da nossa história, o PT se recusou a assiná-la, e só em 2013, quando se assinalava os seus 25 anos, Lula explicou porque o partido fizera isso: " o PT era duro na queda e queria uma constituição mais radical"

Nesses 25 anos, Lula também se transformou como político, o que deixou claro ao dizer que se as ideias do PT em 88 fossem vencedoras, o País seria ingovernável.

Ulysses falava sempre na "Constituição Cidadã".

Não seria o caso de repensar a "Constituição Radical" do PT de 88.

Ao nos propormos a defender esse sistema, definido pela Constituição de 88, ainda que reivindicando como propõe Tarso a repactuação do Estado de Direito em novas bases, com novos fundamentos, não estamos trabalhando em favor da sua consolidação?

Há pouco, nas eleições para a Prefeitura de Porto Alegre, contra algumas vozes da esquerda que queriam a opção pelo mal menor, Tarso defendeu o voto de protesto.

Não seria uma situação semelhante a questão da democracia?

Na eleição, não aceitamos as opções oferecidas.

Na política geral, entre essa democracia atual, onde parlamento e judiciário são vozes ativas no desrespeito à vontade popular (impeachment de Dilma) e um regime autoritário que parece cada vez mais próximo, por que precisamos escolher um ou outro?

Cada vez mais nos arriscando na corda bamba, perguntamos: e se escolhêssemos caminhar em direção a uma democracia do tipo popular?

Mesmo que distante, mesmo que seja um sonho utópico, não valeria à pena escolher esse caminho, no momento em que os eleitores parecem recusar todas as propostas políticas colocadas na mesa?

 

 

Como escreveu Lenin, é importante sonhar, desde que não nos afastamos da realidade.

 

 

Não sei se conseguir chegar do outro lado da linha, mas como faz todo o artista, se errei em algum passo, não importa, estou disposto a recomeçar.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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