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Depois da Coreia do Norte e da Venezuela: um mundo unipolar?

05.10.2017
 
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Depois da Coreia do Norte e da Venezuela: um mundo unipolar?

Dando uma vista de olhos à comunicação social tanto nacional como internacional, incluindo aqui alguns órgãos de imprensa pelos quais passei como jornalista, crítico ou colunista, fico extremamente apreensivo com a leviandade com que se escolhem os cabeçalhos, com que se reproduzem e traduzem notícias de fontes reconhecidamente tendenciosas e de como ninguém se demonstra minimamente preocupado com a unipolaridade que o neo-liberalismo, principal impulsionador da política externa dos Estados Unidos da América, tem vindo a impor como única opção nos anos mais recentes (por favor não confundir o neo-liberalismo com o livre mercado, são coisas distintas).

Eu bem sei que no actual mundo somos bombardeados constantemente com informação, a esmagadora maioria irrelevante, e que a capacidade de concentração dos cidadãos comuns já não é o que era, mas ainda deveriam estar presentes na memória colectiva dos leitores, políticos e analistas do mundo que a Síria, a Líbia, o Líbano e o Iraque possuíam sistemas económicos distintos do nosso mas que, goste-se ou não, funcionavam. Não incluo aqui a República Islâmica do Irão nem a Rússia pois esses Estados, pese embora toda a injustificadamente má pesquisada informação em contrário na imprensa ocidental e a geopolítica distinta dos seus governos, funcionam de acordo com o paradigma do liberalismo económico e até com uma quota parte de neo-liberalismo.

Recordo que quando visitei o Médio Oriente para escrever uma reportagem para a extinta edição portuguesa da "Focus", quando regressei fui expulso do sindicato libertário no qual era tesoureiro por defender, factualmente, que o suposto "Estado teocrático" onde estivera não era uma ditadura, a minha defesa de que "é no mínimo tão democrático, ou até mais, do que Portugal" não obteve qualquer simpatia por parte da restante direcção. Ou seja, a visão enviesada e preconceituosa para com regimes que tenham formas de governo e sistemas económicos distintos do neo-liberalismo ocidental é transversal a todo o espectro político, fomos doutrinados a considerar o mundo em que vivemos já não como "o melhor mundo possível" mas como sendo o único mundo possível, o que não corresponde à verdade.

Curiosamente alguns dos meios de comunicação altermundialistas de outrora, recusam agora defender aqueles que parecem ser os únicos dois modelos económicos com paradigmas distintos do neo-liberal que ainda sobrevivem, nomeadamente a República Bolivariana da Venezuela e a República Popular Democrática da Coreia. A seguinte afirmação não devia ser um choque, mas infelizmente num mundo terraplanado passou a ser: é possível existirem no mundo regimes e sistemas económicos distintos do nosso! Acreditem que sim.

Como socialista democrático que sou, como libertário que sempre fui desde tenra idade, sempre defendi o direito à autonomia dos povos e esse é um dos dogmas éticos a que me tenho apegado desde sempre. Não nos agrada a Coreia do Norte? Cuba? A Venezuela ou o Vietname? Não é problema nosso, os regimes e os sistemas económicos são opção dos povos que os elegem. São os povos dessas nações quem deve decidir o seu futuro sem qualquer imposição externa e, ainda mais importante, sem quaisquer bombardeamentos "humanitários".

E não devemos também virar as costas a esses povos, o único resultado real das sanções unilaterais e da expulsão de embaixadores só servem para descartar a possibilidade de diálogo, e se há algo que o socialismo democrático ocidental sempre defendeu foi o diálogo, a abertura e a solidariedade, valores esses que são sinónimo de democracia e liberdade. A perspectiva de um mundo unipolar, onde só exista o neo-liberalismo como modelo económico obrigatório, parece-me uma opção mais autoritária que democrática. Para mais, estando ainda na memória portuguesa o desastre social e económico que foram as medidas do anterior governo, cegamente neo-liberal e alheio a todos os interesses e bem-estar dos povos do mundo e até do seu próprio povo. Parece-vos mesmo um modelo que valha a pena exportar?

Flávio Gonçalves*

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*Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono e Presidente do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares

 


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