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O jeito americano de fazer política

05.07.2018
 
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O jeito americano de fazer política

Além do basebol, do basquete e do que só eles chamam de futebol, o outro esporte favorito dos norte-americanos parece ser atirar nos seus presidentes e principais líderes políticos. A lista foi aberta por Abraham Lincoln em 1865 e não parou mais. Em 1881 mataram James Garfield; em 1901, Willian McKinley; em 1963, John Kennedy; em 1968, o pastor Martin Luther King e ainda em 1968, Robert Kennedy. Em 1981, John Hinckley Jr. disparou seis vezes contra Ronald Reagan, mas só acertou um tiro no pulmão do Presidente, que sobreviveu.

De todos eles, os casos mais dramáticos foram os dos irmãos Kennedy, até porque foram amplamente documentados pelo cinema e televisão, meios inexistentes nos primeiros atentados. John Kennedy foi morto nas ruas de Dallas, no Texas, no dia 22 de novembro, quando  começava a campanha pela sua reeleição em 64. Robert foi morto no dia 6 de junho no Ambassador Hotel, em Los Angeles, logo depois de comemorar sua vitória nas primárias do Partido Democrata, na Califórnia.

Nos dois assassinatos, principalmente na morte de John Kennedy, as dúvidas sobre se foram atentados realizados por indivíduos isolados - Lee Osvald, no caso de John e Sirhan Bishara Sirhan, no caso de Robert - ou se os dois irmãos foram vítimas de complôs envolvendo a máfia,  exilados cubanos e a própria CIA, nunca foram realmente esclarecidas.

Ao lado de inúmeros livros, documentários para a televisão e um filme (JFK - A Pergunta que não quer Calar - de Oliver Stone, de 1991, com Kevin Costner, vivendo o promotor de New Orleans, Jim Garrison, o primeiro a tentar provar na justiça a existência de um complô para matar Kennedy), surge agora talvez a obra mais completa sobre o tema:  "Irmãos - a História por trás do Assassinato dos Kennedy"(Brothers - The Hideen History of the Kennedy Years), de David Talbot,  lançado no Brasil pela Benvirá, um selo da Editora Saraiva, com alentadas 650 páginas.

Talbot é um jornalista, hoje com 65 anos, que vive em São Francisco, na Califórnia, tendo sido editor do San Francisco Examiner e criador em 1995 de um dos primeiros sites de notícias nos Estados Unidos, o Salon.com, além de ser colaborador de publicações como The New Yorker, Time e Rolling Stone. Para escrever o seu livro sobre os Kennedy, realizou um enorme trabalho de pesquisa sobre tudo que já tinha sido escrito sobre o tema, além de realizar mais de 150 entrevistas exclusivas com personagens que viveram durante o período em que Jack e Robert  pontificaram na política americana.

Ainda que o livro de Talbot revele um certo deslumbramento com as ações dos irmãos Kennedy, principalmente Robert, ele acaba por comprovar muitos dos fatos que cercaram a família e que até hoje servem de motivo para discussões.

Vale à pena revelar algumas das conclusões a que chegou o autor, começando com as ações do patriarca da família, Joe Kennedy (Joseph Patrick Kennedy - 1888/1969) pai de John (Jack) e Robert (Bobby).

Joe Kennedy enriqueceu contrabandeando uísque para a máfia durante a lei seca nos Estados Unidos (1919/1933) e como participante do Partido Democrata ganhou de Roosevelt o cargo de embaixador na Inglaterra (1938/1940), do qual se afastou pela sua nunca escondida simpatia com o governo nazista da Alemanha e pelo seu anti semitismo militante.

Foi Joe Kennedy quem negociou com as famílias mafiosas de Nova York e Chicago o apoio nas disputas eleitorais de seu filho, John, nas primárias para a escolha do candidato do Partido Democrata, contra Hubert Humphrey e depois nas eleições presidenciais contra Richard Nixon, em 1960.

 Mais tarde os mafiosos cobrariam a conta do Presidente John Kennedy, principalmente na questão de Cuba.

Em 1959, Fidel Castro havia chegado ao poder em Cuba, derrubando o governo corrupto de Fulgencio Batista e com ele a rede de jogos e prostituição que era explorada em Havana pela máfia. Expulsa para Miami, a rede mafiosa, sob a direção de Santo Trafficante, começou a cobrar o apoio do governo americano, através de Robert Kennedy, então Procurador Geral da Justiça  (cargo equivalente ao  Ministro da Justiça no Brasil) para a derrubada do governo de Castro.

Com o apoio, nem sempre silencioso de Bobby, a CIA organizou com a máfia cubana em Miami, a invasão de Cuba. Três meses depois da posse de Kennedy, foi desencadeada a chamada Operação Mangusto, quando cerca de 1.300 mercenários cubanos, treinados pela CIA, desembarcaram na Baia dos Porcos, mas em menos de 72 horas foram derrotados pelo exército cubano e feitos prisioneiros.

A máfia de Miami, a CIA e altos escalões das forças armadas americanas pressionaram então o governo americano a assumir oficialmente o conflito, enviando a força aérea para atacar Cuba. O Presidente Kennedy, porém, temeroso de que o ataque desencadeasse uma guerra contra a União Soviética (o premiê soviético Nikita Khrushchov  havia enviado carta a Kennedy ameaçando apoiar militarmente Cuba) negou este apoio e com isso se indispôs com seus apoiadores na máfia e nos setores mais radicais das forças armadas.

Em outubro de 92, uma nova crise opôs novamente os Estados Unidos e a União Soviética, quando os americanos denunciaram a presença de foguetes soviéticos com ogivas atômicas em Cuba. Depois de 13 dias, quando o mundo esteve muito próximo de um conflito nuclear, os dois governos chegaram a um acordo: os russos retirariam seus foguetes desde que os americanos garantissem que não invadiriam Cuba e retirassem seus foguetes da Turquia. O acordo foi aceito por Kennedy, mas o fato irritou profundamente o alto comando militar americano que imaginava sair vitorioso num confronto nuclear com a União Soviética, ainda que com a perda de milhões de vidas dos dois lados. O general  Lyman Lemnitzer, Chefe do Estado Maior, por exemplo, defendia abertamente um ataque nuclear preventivo contra a União Soviética.

Para os militares, Kennedy havia fraquejado também diante dos soviéticos, quando em 1961,na conferência de Viena aceitou o ultimato de Khrushchov sobre a divisão permanente de Berlim e depois quando negociou a retirada dos tanques americanos , colocados frente a frente de tanques soviéticos junto à Porta de Brandenburg, e concordou com a permanência do muro que os alemães orientais haviam construído para separar os dois lados da cidade.

O comandante militar americano em Berlim, Lucius Clay (1897/1978) era ostensivamente a favor do confronto com os soviéticos e criticou Kennedy pelo que considerou uma fraqueza do Presidente.

Para Talbot, todos estes fatos minaram o apoio de Kennedy junto aos generais e enfraqueceram seu governo, permitindo com isso que instituições como o FBI, comandado por um declarado inimigo dos Kennedy, Edgar Hoover e a CIA, agissem à vontade, sabotando os esforços do Presidente e do Procurador Geral em busca de um acordo de paz permanente com a União Soviética.

Talbot não diz diretamente, mas levanta as suspeitas de que elementos do governo, principalmente da CIA e FBI, tenham tramado com os exilados cubanos de Miami e a máfia, os assassinatos de John, em Dallas e depois de Robert, em Los Angeles.

No caso da morte do Presidente, a prova maior de que ele não fora vítima de um único atirador (Lee Oswald), mas sim atacado por atiradores colocados na frente e atrás do seu carro, estava no filme amador feito por Abraham Zapruder, que registrou com sua câmera de 8 milímetros Bell & Howell, a passagem de Kennedy pela Dealey Plaza, em Dallas. Os originais do filme de poucos segundos, foram vendidos por Zapruder por 50 mil dólares para a revista Life, mas ficaram inéditos muito tempo até serem mostrados várias vezes no filme de Stone, JFK, como prova de que ocorrerá um complô contra o Presidente.

No caso do assassinato de Robert, Talbot diz que apesar do seu assassino Sirhan Bishara Sirhan, um palestino nascido em Israel, ter disparado duas vezes contra sua vítima, de frente, a uma distância de dois metros, a autopsia mostrou que havia também resquícios de pólvora na têmpora direita de Robert, caracterizando um tiro à queima roupa, por trás,o que nunca foi investigado.
 

Porque o aprofundamento das investigações poderia dividir a nação, como chegou a dizer Robert Kennedy aos seus assistentes, a morte de John Kennedy, foi atribuída oficialmente pela Comissão Warren (criada pelo Congresso para investigar o caso) a um só executante, Lee Oswald.

Convenientemente, Lee Oswald havia sido assassinado, dois dias depois da morte de Kennedy, quando era conduzido por policiais nos corredores da prisão de Dallas, por um pistoleiro da máfia, Jack Rubi, diante das câmeras de televisão. Rubi morreria de câncer quatro anos depois, encerrando as possibilidades de um esclarecimento definitivo sobre o assassinato de Kennedy, mas deixando em aberto a desconfiança de que os assassinatos poderiam fazer parte da política norte-americana de disputa do poder.

O que fica claro, lendo o livro de David Talbot, é que a tão exaltada democracia norte-americana, não é tão democrática assim.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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