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No calcanhar do Império

04.12.2008
 
No calcanhar do Império

"Guarde minhas palavras, não vai demorar seis meses para que o mundo teste Barack Obama, como fizeram com John Kennedy. O mundo está nos observando. Estamos prestes a eleger um brilhante senador, de 47 anos, para a presidência dos Estados Unidos. Nós vamos ter uma crise internacional encomendada para testar a coragem desse homem".


Essa previsão foi feita por Joe Biden, na época candidato a vice na chapa de Obama, em plena campanha eleitoral num comício em Seattle. Biden não é pitonisa, mas um experiente senador que presidiu a comissão de assuntos internacionais.


Ao se referir a Kennedy, Biden certamente lembrou um triste episódio da história americana que foi a célebre invasão de Cuba com o objetivo de derrubar Fidel Castro. Isso aconteceu em abril de 1961, no que ficou conhecido como a invasão da Baía dos Porcos. Kennedy tomara posse em 20 de janeiro daquele, ou seja, menos de seis meses.


Alguns biógrafos de John Kennedy costumam livrar, até certo ponto, sua culpa na operação. Dizem que ele apenas cumpriu o que já estava definido no governo anterior, de Eisenhower. Mas, verdadeiramente, foi Kennedy quem deu a ordem final para que 1.500 exilados cubanos, treinados nos EUA, e com o apoio da CIA, invadissem a ilha de Fidel para apeá-lo do poder. Os militares leais a Fidel impuseram uma rápida e humilhante derrota aos invasores. Vários foram mortos e a maioria capturada. Kennedy foi obrigado a negociar com o dirigente cubano a libertação dos l.189 que sobreviveram à invasão.


A invasão da Baia dos Porcos teve um desdobramento um ano e pouco depois, quando o mundo esteve à beira da terceira guerra mundial. Aviões de espionagem americanos fotografaram uma base soviética para construção de mísseis balísticos em Cuba. Os Estados Unidos sentiram-se seriamente ameaçados por foguetes armados bem no fundo de seu quintal. Alguns assessores militares pregaram um imediato ataque aéreo à base soviética, o que desencadearia uma guerra nuclear sem precedentes.

Kennedy agiu com moderação. Determinou a fiscalização de todos os navios com destino a Cuba e iniciou negociações com os dirigentes soviéticos. Felizmente para o mundo, tudo acabou bem. Os soviéticos concordaram em retirar sua base de Cuba, desde que os EUA se comprometessem publicamente a nunca invadir a ilha.


Neste fim de semana, a mídia televisiva norte-americana forçou a barra tentando ligar os ataques terroristas a India à profecia de Joe Biden. Mas a comparação é descabida. Kennedy era presidente, tinha obrigação de agir. Obama nada pode fazer além de monitorar os acontecimentos e fazer declarações de repúdio aos ataques na cidade de Bombaim, na India.


Teria sido mais eficiente, do ponto de vista jornalístico, se a comparação levasse em conta a volta dos russos ao Caribe. Quase vinte anos depois da visita de Mikhail Gorbachev, em 1989, o presidente Dimitri Medvedev desembarcou em Havana na quinta-feira para um encontro com o presidente Raul Castro. Entre lembranças saudosistas e juras de amor eterno, os dois países firmaram acordos de cooperação militar e industrial. Um deles, a participação de empresas russas na perfuração de poços de petróleo em águas cubanas.


Antes de Cuba, Medvedev esteve na Venezuela onde acertou com Hugo Chávez um acordo na área da energia nuclear para fins pacíficos. A visita de Medvedev foi precedida pela chegada da frota russa ao Caribe, onde os dois países iniciam nesta segunda-feira exercícios militares em conjunto. Chávez, aliás, é um dos mais importantes clientes da indústria armamentista russa. Desde 2005, a Venezuela comprou da Russia mais de 6.7 bilhões em fuzis, tanques, radares e aviões.


É claro que os EUA não vêem com bons olhos essa aproximação da Russia com países que não se relacionam com Washington, sobretudo depois da tensão causada pela invasão russa da Georgia. Cuba e Venezuela estão no quintal de Tio Sam, numa posição geográfica que é motivo de preocupação para os órgãos de segurança norte-americanos.


Este sim, pode ser o (primeiro) grande teste para Barack Obama e sua futura Secretária de Estado, Hillary Clinton, cuja nomeação será confirmada nesta segunda-feira.

Eliakim Araujo

http://www.guiasaojose.com.br/novo/coluna/index_novo.asp?id=1932


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