Pravda.ru

Mundo

A solidariedade com o povo da Colômbia é uma exigência da história

04.11.2009
 
Pages: 123
A solidariedade com o povo da Colômbia é uma exigência da história

Comunicação de Miguel Urbano Rodrigues ao Seminário Internacional sobre a América Latina, promovido pelo XIV Congresso do PCB - Partido Comunista Brasileiro – Rio de Janeiro, Outubro de 2009

A decisão do governo Obama de instalar na Colômbia sete bases militares dos Estados Unidos insere-se na estratégia de dominação mundial da nova Administração norte-americana. O discurso de matizes humanistas do actual Presidente e uma campanha de propaganda massacrante contribuíram para que milhões de pessoas acreditassem que a política imperial de George Bush seria substituída por uma política de paz. Tal convicção é desmentida pela realidade.

Ao declarar que a primeira prioridade da sua política exterior é vencer a guerra no

Afeganistão, Obama abriu a porta a uma escalada de violência na Ásia Central. Por si só, a nomeação do general Stanley Mc Chrystal - um criminoso de guerra - para comandante operacional na Região é esclarecedora das opções do Presidente dos EUA num conflito que traz à memória do povo norte-americano os fantasmas e traumas do Vietnam.

Na América Latina, as iniciativas que confirmam a volta a uma política “musculada” são também inquietantes. O golpe em Honduras foi concebido e montado em reuniões realizadas na Embaixada dos EUA em Tegucigalpa. A presença, agora permanente, da IV Frota da USNavy em águas sulamericanas traduz igualmente o objectivo de impor por meios militares a vontade de Washington em países que recusem submeter-se ao poder imperial.

Nessa estratégia, a Colômbia de Álvaro Uribe desempenha um papel fulcral.

O acordo já firmado permite a instalação de sete bases norte-americanas: três da Força

Aérea, em Palanquero, Malambo e Apiay; duas da USArmy em Tolemaida e Larandia; e duas da USNavy em Cartagena e Bahia Málaga.

A Colômbia, como sublinhou o Partido do Pólo Democrático, foi convertida por este acordo “numa plataforma para a consolidação e a expansão bélica desta politica que afecta não só a estabilidade dos governos democráticos e progressistas como os projectos de integração latino-americana e do Caribe”.

Obama não inovou, deu continuidade a um projecto ambicioso cuja execução foi iniciada por Clinton e Bush. A Venezuela bolivariana é o alvo principal. Cercam hoje a Venezuela bases militares dos EUA localizadas em seis países da Região: El Salvador, Honduras, Costa Rica, Panamá, Peru e Paraguai. A elas se somam as de Aruba e Curaçao no Caribe holandês, as de Porto Rico e a de Guantanamo, em Cuba. Na Colômbia, já existem há muito três bases dos EUA, a de Arauca, a de Larandia e de Três Esquinas.

Foi para denunciar a ameaça representada pela instalação das novas bases norte-americanas que se realizou em Bariloche, na Argentina, uma Cimeira extraordinária da União das Nações Sul Americanas – UNASUL. O objectivo não foi, porém, atingido. A Declaração Final, inócua, nem sequer menciona expressamente a Colômbia e os EUA. A reunião foi sabotada por Lula que chegou a ser grosseiro ao dirigir-se a Chavez e a Rafael Correa e se absteve de criticar Uribe.

É oportuno recordar que durante a Administração Clinton o Pentágono elaborou um plano de intervenção militar directa na Colômbia .O pretexto invocado seria o combate ao narcotráfico, mas o objectivo era a aniquilação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-FARC e do Exército de Libertação Nacional-ELN. Na operação, sugerida pelo general McCaffrey, participariam duas divisões aerotransportadas e três divisões de Marines, envolvendo 120 000 homens. A intervenção contra as FARC seria desencadeada inicialmente por tropas da Colômbia e de outros países latino-americanas, nomeadamente do Peru e do Equador.

A ofensiva terrestre e aérea estava prevista para o ano 2000, mas o projecto foi arquivado porque o governo Clinton chegou à conclusão de que esbarraria com a oposição do Congresso. A estória minuciosa do plano Caffrey foi, aliás, evocada com minúcias num artigo do professor brasileiro Moniz Bandeira, publicado em setembro passado em webs de informação alternativa.

Durante a campanha eleitoral e após a sua eleição, Barack Obama comprometeu-se a

desenvolver na relação com a América Latina uma política diferente daquela que sucessivos presidentes dos EUA aplicaram, tratando as nações do Sul do Hemisfério como “o pátio traseiro”. Mas a promessa está a ser desmentida. É difícil avaliar até que ponto o Presidente actua sob a pressão das poderosas engrenagens do establishment.

Mas os factos confirmam que Washington, alarmada com a grande vaga de contestação ao imperialismo e às politicas neoliberais que varre a América Latina - e que encontra a sua expressão mais desafiadora na Venezuela, no Equador e na Bolívia - decidiu retomar uma estratégia musculada. Em vez do anunciado diálogo entre iguais, as iniciativas do grande vizinho do Norte deixam entrever ameaças militares.

As duas colômbias

Não há na América Latina outro país onde a violência seja como na Colômbia um fenómeno endêmico tão enraizado. Desde o Bogotazo, em 1948, foram ali assassinadas mais de 300 mil pessoas. Não é de estranhar que a imagem do país no mundo seja péssima.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular