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Primeiro mês de guerra no Iêmen

04.05.2015
 
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A guerra no Iêmen começou há um mês. O conflito muito provavelmente avançará para outros pontos no Oriente Médio. O confronto entre Arábia Saudita e Irã aprofunda-se. Apoiadores do Estado Islâmico criaram novo grupo chamado Soldados do Califado no Iêmen. O movimento de xiitas Ansarallah (que os sauditas chamam de "os houthis") prepara-se para atacar a Arábia Saudita, em retaliação pela guerra contra o Iêmen.

Arábia Saudita posto por trás

Teerã compreende que os EUA puseram-se por trás da Arábia Saudita, incitando os sauditas a iniciarem a guerra. O Irã não cederá. No momento, Teerã está tomando como seu principal objetivo o fim do bloqueio do Iêmen, por mar e ar. O Ministério de Relações Exteriores do Irã convocou o chargé d'affaires saudita para oficializar o protesto de Teerã contra a interceptação de aviões iranianos, por aviões sauditas, no espaço aéreo do Iêmen, inclusive de um avião que levava ajuda humanitária a iemenitas feridos em guerra. Os diplomatas iranianos lembraram ao chargé d'affaires saudita que os voos iranianos para o Iêmen tinham todas as permissões necessárias para voar pela rota Omã-Iêmen e a ação era coordenada com as organizações humanitárias Cruz Vermelha e Crescente Vermelho. 

Alto funcionário iraniano diz que o bloqueio saudita contra o Iêmen e a ação de impedir a entrega de ajuda humanitária que a República Islâmica enviava ao país devastado pela guerra não ficarão sem resposta. "Estamos considerando todas as opções para manter a ajuda ao povo do Iêmen, com entrega imediata de ajuda humanitária e transferência dos feridos", disse o vice-ministro iraniano de Relações Exteriores para Assuntos Árabes e Africanos, Hossein Amir-Abdollahian, dia 26 de abril. As observações de Amir-Abdollahian vieram depois que jatos sauditas interceptaram um avião iraniano que levava ajuda humanitária ao Iêmen e impediram que entrasse no espaço aéreo do Iêmen na 5ª-feira, dia 23/4. Agora o Irã pode decidir que seus aviões de carga voarão com escoltas. E a medida pode rapidamente levar a confronto direto com os aviões sauditas.

O Irã ainda tem navios no Golfo de Aden. A 34ª flotilha (o destroier Alborz e o porta-helicópteros de combate Bushehr) substituiu a 33ª flotilha que permaneceu na região por 77 dias. O comandante da Marinha do Irã, almirante Habibollah Sayyari, disse que entre seus objetivos estão ações de combate à pirataria e para garantir a segurança de naves iranianas em alto mar. 

Um oficial saudita alertou os navios de guerra iranianos enviados para o Estreito de Bab El-Mandeb e o Golfo de Aden para que não entrem em águas do Iêmen. "Os navios iranianos têm direito de permanecer em águas internacionais, mas não serão autorizados a entrar em águas territoriais do Iêmen", disse o porta-voz das forças da coalizão anti-houthis liderada pelos sauditas, brigadeiro-general Ahmed Asiri, a jornalistas, em Riad. 

Rouhani criticou agressão saudita

O presidente do Irã, Hasan Rouhani criticou duramente a agressão saudita contra o Iêmen, destacando que Riad partiu para o ataque, porque não conseguiu realizar nenhum dos seus desejos para a região.

"Destruir a infraestrutura de país empobrecido e matar crianças, mulheres e homens não faz sentido algum. Só demonstra que um país está totalmente desequilibrado. Não há outras interpretações possíveis" - disse o presidente do Irã. 

O Irã mantém navios na região desde 2008, em ação que está em perfeito acordo com a Resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A Guerra no Iêmen já provocou aumento na disseminação do extremismo na região. O movimento dos jihadistas está em ascensão. Uma nova divisão do grupo Estado Islâmico recém anunciada, autodesignada como "Brigada Verde", atacou os houthis. Apoiadores do Estado Islâmico intensificaram atividades em outros países do Oriente Médio.

A liderança do HAMAS declarou-se preocupada com o surgimento de grupos jihadistas em Gaza. O Estado Islâmico deseja ampliar sua presença naquela região. Cairo já estendeu o estado de emergência pela Península do Sinai, onde islamistas continuam a confrontar as forças do governo. 

O Estado Islâmico aproveita-se, para expandir-se no momento em que a agressão contra o Iêmen desestabilizou gravemente todo o Oriente Médio. É informação relevante para a Arábia Saudita. A ameaça terrorista tornou-se aguda. Pela primeira vez os terroristas ameaçam diretamente a própria existência da família real. Dia 21/4 o ministro saudita do Interior informou pelo seu website que forças de segurança estavam em alerta, depois de informes sobre ameaças a instalações de petróleo e shopping malls por todo o reino. O estado de emergência já foi declarado em várias áreas no sul do país. 

Sauditas impediram ataque terrorista

No fim de semana passado, policiais foram mortos em ataque do Estado Islâmico. As forças de segurança sauditas impediram um ataque terrorista que estava sendo preparado por afiliados do Estado Islâmico, informou um porta-voz do Ministério do Interior. A "operação terrorista" incluiria sete carros-bombas que explodiriam em diferentes pontos do reino; e Riad também anunciou que um dos suspeitos presos confessou ter matado dois oficiais de polícia num ponto de controle na capital saudita no início do mês corrente. 

Grupos islamistas na Líbia, Argélia, Egito, Uzbequistão e Nigéria (o Boco Harum) puseram-se sob o comando do Estado Islâmico. O próximo país alvo é a Arábia Saudita. O Grande Mufti da Arábia Saudita Abdul-Aziz ibn Abdullah Al Shaykh disse que os militantes do Estado Islâmico são os inimigos do Islã. E que Riad continua a combater contra os houthis no Iêmen. 

Os rebeldes xiitas houthis no Iêmen ameaçaram atacar a Arábia Saudita se não forem suspensos os bombardeios no Iêmen. O grupo zaidista fez chegar a ameaça a Riad e exigiu que o diálogo político intermediado pela ONU seja retomado no Iêmen. 

Os houthis "atacarão militarmente a Arábia Saudita, se não pararem os ataques aéreos contra o Iêmen" - disse Mohammed Bahiti, membro do movimento Ansarallah, ao canal de TV Al-Mayadeen. Bahiti destacou que os rebeldes houthis "não carecem de mísseis" para fazer o que dizem que farão, referência aos depósitos militares iemenitas destruídos nos ataques aéreos. Ele também rejeitou comentários de que a Operação Tempestade Decisiva, liderada pela Arábia Saudita, conseguira destruir as capacidades militares dos rebeldes houthis. 

A Arábia Saudita é vulnerável à desestabilização das áreas habitadas pelos xiitas. Teerã diz que a luta interna entre os príncipes sauditas recomeçou e escalou. A crise interna interessa, sobretudo, aos interessados em derrubar o rei Salman.

A Arábia Saudita jamais conseguirá derrotar os houthis se não tiver coturnos em solo. Os aliados dos sauditas não dão sinal de qualquer disposição para oferecer tropas de chão à guerra dos sauditas no Iêmen. Qatar, Bahrain, os Emirados Árabes Unidos não têm capacidade para sustentar guerra de solo em grande escala. Não bastariam dois, três batalhões. 

Esse primeiro mês de guerra no Iêmen mostrou que esses estados não têm qualquer desejo de envolver-se mais profundamente no conflito iemenita sob a bandeira do Reino Saudita. Egito, Turquia e Paquistão continuam a observar a situação, que vai degenerando. Não têm pressa alguma para iniciar confronto direto com o Irã.

28/4/2015, Nikolai BOBKIN, Strategic Culture

http://www.strategic-culture.org/news/2015/04/28/first-month-war-yemen.html

 


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