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Urbano Rodrigues: Reyes, o herói que o fascismo assassinou

04.03.2008
 
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Urbano Rodrigues: Reyes, o herói que o fascismo assassinou

O fascismo colombiano assassinou em território equatoriano o comandante Raúl Reyes, das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), numa operação de terrorismo de Estado. O jornalista português Miguel Urbano Rodrigues, um estudioso das Farc, escreve sobre o atentado onde tombou aquele que considera um herói revolucionário, que conhecia pessoalmente.*

O governo de Álvaro Uribe assassinou na madrugada de sábado (1), em território do Equador, o comandante Raúl Reyes das Farc numa operação concebida e executada com o apoio dos EUA.


O anúncio surrealista do ministro


A notícia foi inicialmente divulgada pelo ministro da Defesa de Uribe num comunicado triunfalista que deturpa grosseiramente os acontecimentos, ocultando o caráter criminoso da ação terrorista.


Segundo Juan Manuel Santos, Raúl Reyes teria sido abatido num acampamento situado no Equador, a 1.800 metros da fronteira, durante um bombardeio realizado pela Força Aérea do seu país a partir de território colombiano, para «não violar a soberania» dos países vizinho. Mas logo esclarece que, posteriormente, tropas do exército atravessaram a fronteira para recolher o corpo de Raúl Reyes e trazê-lo para Bogotá, afim de evitar que os guerrilheiros das Farc o sepultassem.


A nota do ministro apresenta assim, pelo absurdo, um toque surrealista. É inimaginável que qualquer avião possa despejar bombas sobre um acampamento, encontrando-se a quase dois quilómetros de distância. E grotesco que essa mentira seja seguida da confissão de que, afinal, forças do exército colombiano violaram pouco depois a soberania equatoriana.
As coisas aconteceram de outra maneira.


O dedo dos Estados Unidos


Através de satélites norte-americanos, Uribe teve conhecimento da presença de um grupo de guerrilheiros das Farc do lado equatoriano do departamento colombiano amazônico do Putumayo.


Bogotá soube através de delação que Raúl Reyes se encontrava no local. O dirigente revolucionário tinha a cabeça a prêmio, vivo ou morto, por US$ 2,7 milhões. A denúncia foi paga e aviões Super Tucan da Força Aérea – a mais poderosa e bem equipada da América Latina – despejaram uma chuva de bombas sobre o acampamento.


No criminoso ataque de pirataria aérea morreram, além de Reyes, o cantor revolucionário Julian Conrado (o grande artista da Rádio clandestina Voz de la Resistência) e 16 guerrilheiros. Foram massacrados enquanto dormiam, em condições ainda mal conhecidas.


Uribe, ao receber a noticia, felicitou a Força Aérea e o corpo de Reyes, mutilado pela metralha, foi levado para Bogotá. Logo fotografias do cadáver ensanguentado do herói apareceram em televisões e jornais de dezenas de países. Quase o mesmo ritual macabro que envolveu o assassínio do Che em 1967.


Os bastidores do crime


O atentado terrorista ocorre num momento em que a campanha para a libertação da franco-colombiana Ingrid Bettancourt inspira as manchetes da chamada grande imprensa internacional. Nunca se mentiu tanto sobre a realidade colombiana como nestes dias em que, a pretexto do sofrimento da ex-candidata à presidência, as Farc são alvo de uma montanha de calúnias.


Um dia ficará evidente que no debate em torno do intercâmbio humanitária, as Farc atuaram sempre com transparência e autenticidade revolucionária, movidas por um objetivo humanista e Uribe com hipocrisia e intenções inconfessáveis.


Correspondendo a insistentes apelos de Hugo Chavéz e da senadora Piedad Córdoba, as Farc decidiram numa primeira fase libertar unilateralmente Clara Rojas e a ex-deputada Consuelo Perdomo. A operação foi aliás adiada por alguns dias porque Uribe intensificou a concentração de tropas na área onde presumivelmente ambas deveriam ser entregues à Cruz Vermelha Internacional e transportadas para Caracas em helicópteros venezuelanos.


As Farc estavam conscientes dos enormes riscos que a operação envolvia. Só quem conhece a geografia da Colômbia – um país com 1,14 milhão de quilômetros quadrados e 45 milhões de habitantes, sulcado por três cordilheiras, rios gigantescos e em grande parte coberto pela densa floresta amazônica - pode avaliar o que significou conduzir as duas mulheres do desconhecido acampamento em que se encontravam até ao Departamento do Guaviare, perto da fronteira venezuelana. É útil , alias, recordar que o exercito colombiano violou o compromisso de cessar-fogo e começou a bombardear o local uma hora após os helicópteros terem levantado vôo.


A proposta da zona desmilitarizada


Insistiram posteriormente as Farc pela desmilitarização dos municípios de Pradera e Florida como condição indispensável ao intercambio humanitário, exigido pelo povo colombiano – operação que previa a troca de 40 reféns em poder das Farc – entre os quais Ingrid Bettancourt – por 500 guerrilheiros encarcerados em presídios do governo.


Uribe negou-se a atender todas propostas internacionais recebidas com o objectivo de se chegar a um acordo que permitisse a troca.


Não obstante essa atitude intransigente do presidente neofascista da Colômbia, as Farc correspondendo a um novo apelo de Hugo Chavez tomaram a decisão de libertar, também em gesto unilateral, quatro deputados em seu poder.

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