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Salvini e a Lega: avança o perigo neo-fascista na Itália

03.11.2019
 
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Salvini e a Lega: avança o perigo neo-fascista na Itália

Mário Maestri & Gregório Carboni Maestri

Após a II Guerra, falou-se sempre de uma Itália Vermelha e de uma Itália branca -a cor do Vaticano-, para assinalar regiões que votavam com a esquerda comunista-socialista ou com a democracia-cristã. Uma orientação geral que se manteve após o tsunami que liquidou, nos anos 1990, a Democracia Cristã, atingida pela Operação Mãos Limpas, e o PCI, que acelerou sua reconversão social-liberal já avançada com a dissolução da URSS.  A Úmbria,  no centro-sul italiano, com pouco menos de um milhão de habitantes, foi sempre fortaleza da esquerda, desde as primeiras eleições pós-fascistas, em 1946. 

Nas eleições regionais da Úmbria de domingo, 27 de outubro de 2019, aliança de extrema-direita, capitaneada pela Lega, de Matteo Salvini, 46, venceu maciçamente, com 57% dos votos. Integravam a coligação o movimento Fratelli d'Italia [Irmãos da Itália], claramente pós-fascista [inspirados no mussolinismo], em fortalecimento em toda a Itália, e o partido de Berlusconi, em regressão.  Em 2015, a Lega  Norte [hoje Lega ] obteve apenas 14% dos votos naquela região. As prefeituras dos grandes centros industriais da Umbria -Perugia, Orvieto, Termi, etc. - já estão em mãos da direita.

A aliança dita de centro-esquerda recebeu menos de 38% dos votos. Ela era dirigida pelo PD [ex-PCI], social-liberal, aliado sobretudo ao Movimento 5 Estrelas e ao ecologismo. Para ampliar o eleitorado, o centro-esquerda apresentou como candidato empresário apenas chegado do centro-direita. Em relação às eleições de 2015, grosso modo, uns 20% dos eleitores de esquerda votaram na extrema-direita. Muitos eleitores de esquerda e do 5 Estrelas abstiveram-se. A esquerda comunista e a extrema esquerda anticapitalista, separadas, ficaram com menos de 2%.

Uma Itália Neo-Fascista?

É exemplar a importância desses resultados eleitorais devido ao fato de que, em agosto de 2019, o Movimento 5 Estrelas abandonou, em hábil conchavo político, sua parceria antinatural com a Lega , no governo italiano, para formar um outro governo programaticamente monstrengo, com o PD. Salvini, da Lega, forçara a queda do governo esperando voltar como poderoso primeiro ministro, com ou sem o 5 Estrelas.  O pouco mais de um ano de governo Lega -5 Estrelas dera-se no contexto de contradições viscerais.

A Lega  é movimento direitista, anti-esquerdista e racista. Exige crucifixo nos locais públicos e ataca os ciganos, mesmos os italianos. Matteo Salvini, dirigente comunista quando jovem, consagrou-se como ministro do Interior no passado governo. Interrompeu o desembarque da incessante migração clandestina mediterrânea, que apontou como introdução de trabalhadores desesperados para serem explorados, sobretudo no sul da Itália, por um prato de comida. A imigração aumenta o desemprego e o sub-emprego, enfraquece os sindicados e partidos políticos, pesa sobre os gastos sociais, cria classe de modernos escravos assalariados. Salvini consagrou-se quando do  confronto com os governos alemão e francês sobre os desembarques selvagens no sul na Itália. Sua política recebe o apoio dos racistas e também dos trabalhadores italianos angustiados com a situação que vivem e que vem na imigração a causa de seus infortúnios.

O Movimento 5 Estrelas, do cômico Beppe Grillo,  71, também ex-comunista, prometeu dar a palavra ao cidadão e manteve rígido verticalismo. Negou a divisão esquerda-direita e mergulhou na confusão programática. Não poucos esquerdistas aderiram ao movimento. No governo, Luigi Di Maio, 33, ministro do Trabalho, em competição com Salvini, combateu a precarização do trabalho, a  demissão sem justa causa, a expatriação de empresas italianas financiadas pelo governo. Sobretudo, concedeu salário aos desempregados e completou os dos mal pagos ["Renda Cidadã"]. Essas iniciativas, mal vistas por segmentos da classe média, foram desnatadas pela Lega , pressionada por empresários liguistas. As medidas não receberam o apoio decidido do PD, ex-Partido Comunista, que se opôs também ao controle da imigração por Salvini, apresentando razões  humanitárias.

Maré Direitista

A Úmbria e os últimos resultados eleitorais anunciam a probabilidade de um próximo governo majoritário de extrema-direita na Itália, algo que jamais ocorreu no país após 1945. É bastante difícil que o atual governo, com o PD e o 5 Estrelas, com apoio público em queda livre e com contradições programáticas insolúveis, se mantenha até as eleições gerais de 2022.  Além da Úmbria, em 2019, a Lega  e a extrema-direita já conquistaram, entre outras regiões, a Lombardia, o Veneto, o Piemonte,  o Friuli Venezia Giulia, a Basilicata.  

O PD mantém-se no governo de sete regiões, entre elas, alguns bastiões da Itália Vermelha, no centro-norte italiano, como a Emília-Romanha e a Toscana. No Sul, a Calábria, a Campanha e a Puglia também ainda estão governadas pelo centro-esquerda.  No entanto, das sete regiões, seis terão eleições em 2020, entre elas, em 26 de janeiro próximo, a Emília-Romanha, um dos berços do  movimento operário e camponês italiano,  coração da guerra vitoriosa contra o nazi-fascismo dos guerrilheiros comunistas, que cantavam a hoje internacional Bella Ciao

A migração do voto popular para a  extrema-direita não é ação ocasional ou impensada, nascida de intoxicação da grande mídia -  que na Itália apoia fortemente o PD. Ela não é vontade passageira  de experimentar um candidato novo, mesmo exótico, que substitua os responsáveis pela situação nacional insustentável,  como nas eleições de 2016 no Brasil. O avanço do neo-fascismo na Itália não conhecerá o rápido fim do apoio popular a Bolsonaro, que desandou de saída, feito maionese mal iniciada.

A Cartada Nacionalista

Milhões de italianos se voltam literalmente para o neo-fascismo ou o pós-fascismo devido às suas propostas políticas anti-liberais e anti-globalização. Esses movimentos se opõem à governança supra-nacional, pela União Européia, das nações mais frágeis do continente - Espanha, Portugal, Itália, Grécia, etc. Governo europeísta sob o tacão do Bundesbank [Banco Central Alemão], expressão do capital hegemônico no Velho Mundo. Ao governo passado e presente sequer lhes foi permitido definir livremente seu orçamento, ao igual do que ocorre em Portugal, na Grécia, etc.

O neo-fascismo e o pós-fascismo italiano se propõem como nacionalistas e autonomistas, defendendo medidas desenvolvimentistas que reergam a economia da Itália.  Denunciam a submissão da Itália aos USA, à Alemanha, à França. Exigem  a retomada de relações prioritárias com a Rússia de Putin e com a China de Xi. Sob a oposição da burocracia da União Européia, o governo passado iniciou a adesão à Nova Rota da Seda. Os neo-fascistas e pós-fascistas defendem o fim do desembarque incessante de emigrantes no sul da Itália, que Salvini conseguiu interromper fortemente, durante o governo passado.

Na era da globalização, a Lega  tendencialmente neo-fascista e Fratelli d'Italia pós-fascista  propõe, não importa se demagogicamente e em um viés conservador, literalmente grande parte do programa vilmente abandonado pela esquerda parlamentar italiana, com destaque para  o ex-PCI. O PD, reconvertido ao social-liberalismo, defende as maravilhas do capitalismo globalizado, da integração à União Européia capitalista, etc. Abandona as reivindicações operárias e sociais, centrando-se nas liberdades civis, no ecologismo, etc., tudo associado a compensações  sociais limitadas. 

Servidão Voluntária

Na Úmbria, a aliança centro-esquerda -M5S,   PD,  ecologistas-, propôs programa nos fatos reforçando a integração à União Européia e ao grande capital internacional. Um repeteco das medidas liberais que levaram ao desastre a sociedade italiana, como tantas outras através da Europa e do mundo. Programa que incendiou a Grécia e hoje subleva a população  no Líbano, no Chile, no Equador, no Haiti e por aí vai. Qualquer semelhança com a ação dos grandes partidos eleitorais ditos de esquerda do Brasil e de seus governos passados é mera coincidência. Defendendo programa nacionalista, desenvolvimentista, anti-imperialista, etc., a Lega e o Fratelli d'Italia  são capazes de conquistar e manter largo apoio nas classes médias e mesmo populares. Eles são a verdadeira cara do neo-fascismo e pós-fascismo na era da globalização. 

Os acontecimentos italianos dissolvem as incompreensões sobre o pós-fascismo e o neo-fascismo tão habituais não apenas no Brasil. Não podemos definir de neo-fascistas e pós-fascistas movimentos, como o bolsonarismo,  incapazes de interpretar, mesmo demagogicamente,  os anseios de largos segmentos populares e médios, devido a uma orientação anti-nacional, anti-desenvolvimentista, pró-liberal e pró-imperialista. Esses movimentos contra o fortalecimento da nação, mesmo em viés reacionário, autoritário e anti-operário, não conseguem organizar e sustentar um real apoio de massa. Por mais "fascistas" que sejam suas lideranças, no sentido corriqueiro do termo. [Duplo Expresso, quinta-feira, 31 de outubro.]

 

* Mário Maestri, 71, historiador, rio-grandense.

* Gregório Carboni Maestri, 44, arquiteto, italiano.

 


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