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Trump e o secessionismo

03.11.2017
 
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Enquanto os neo-conservadores entendiam realizar uma «revolução mundial» exportando a sua «democracia» pela guerra, o Presidente Trump funda a sua política estrangeira no respeito pela soberania dos Estados. Por conseguinte, interrompeu todo o apoio dos EUA aos separatismos. Thierry Meyssan lembra aqui as ambiguidades da posição norte-americana sobre as secessões, depois compara os pontos comuns dos acontecimentos no Quénia, no Iraque e em Espanha.

Thierry Meyssan

 

o decurso dos últimos anos, a CIA apoiou movimentos secessionistas em favor dos Luos no Quénia, dos Curdos no Iraque e dos Catalães em Espanha. Estes grupos, que pensavam há pouco conseguir criar artificialmente novos Estados independentes, foram abandonados pelos Estados Unidos depois da subida de Donald Trump à Casa Branca e estão à beira do colapso.

Estados Unidos : a secessão, unicamente ao serviço da pilhagem organizada

Os Estados Unidos sempre tiveram uma visão variável do direito dos povos a dispôr de si próprios.

Em 1861, Washington não tolerou que os Estados do Sul do país pretendessem continuar a viver em Confederação, enquanto que os do Norte entendiam impôr uma Federação com direitos alfandegários e um banco central únicos. Desde a sua chegada à Casa Branca o Presidente Abraham Lincoln reprimiu a secessão. Só no decorrer da guerra civil que se seguiu é que a questão moral da escravatura identificou progressivamente os dois campos. Hoje em dia, é fácil esquecer o milhão de mortos desta guerra e condenar os Confederados como racistas, quando no início do conflito a questão da escravatura não entrava em linha de conta e os Federalistas incluíam também Estados esclavagistas.

Durante a construção do canal do Panamá, precisamente antes da Primeira Guerra mundial, Washington inventou um povo panamense, apoiou este movimento separatista contra a Colômbia, e foi o primeiro país a reconhecer a sua independência. Washington instalou então uma importante base militar e apropriou-se de facto do estaleiro de obras do canal nas barbas dos investidores franceses. Quanto à pseudo-independência, o Presidente Omar Torrijos que renegociou a soberania do canal, em 1977, jamais a viu, e acabou assassinado num "acidente" de avião. O Chefe do Estado-Maior, o General Manuel Noriega, também não a viu, já que Washington decidiu livrar-se dele no fim da guerra contra os Sandinistas ( caso Irão-Contras). Acusado de ser responsável pela morte de um soldado dos EUA, em 1989, ele foi feito prisioneiro pelo exército norte-americano e o seu país devastado aquando da Operação «Causa Justa» (sic).

Washington não tem, pois, autoridade moral em matéria de direito dos povos à dispor de si próprios (autodeterminação).

O Senador Obama e o seu primo Raila Odinga

Quénia : o «bom uso» do racismo

O Quénia só é independente há 53 anos. Apesar da influência do Partido Comunista durante a luta pela independência, a população permanece organizada de maneira tribal. Portanto, o conflito opondo o Presidente cessante Uhuru Kenyatta ao seu eterno rival Raila Odinga é antes de mais uma rivalidade entre os Kikuyus, que representam 22% da população, e os Luos que representam apenas 13%, mas que aliados aos Kalenjins podem significar 24% do eleitorado. No decurso dos últimos anos, a maioria não cessou de alternar a cada reviravolta na efémera aliança Luos-Kelanjins. Historicamente, foram sobretudo os Kikuyus quem conseguiu a independência do país e enfrentou, na década de 1950, a barbárie inaudita da repressão britânica [1]. Foram estes que ganharam a presidência em 1964, com Jomo Kenyatta. Este escolheu como Primeiro-ministro um líder Luo, que se havia envolvido ao seu lado contra o apartheid e a monopolização de terras agrícolas pelos colonos, Oginga Odinga. No entanto, este tandem não funcionou e vemos, meio século mais tarde, um conflito que perdura e opõe agora os seus filhos.

Qualquer leitura política desta rivalidade atinge rapidamente os seus limites, porque os líderes dos dois campos mudaram várias vezes de opinião e de alianças, sendo que o único dado permanente é a sua diferença étnica. Nenhuma democracia pode funcionar numa sociedade tribal ou étnica, e é preciso, no mínimo, um século para passar duma fidelidade de clã para uma responsabilização pessoal. Todos devem avaliar o Quénia por aquilo que ele é: uma sociedade em transição na qual nem as regras étnicas, nem as da democracia, podem funcionar plenamente.

Em 2005, o presidente Kikuyu fez uma aliança com a China. Em resposta, a CIA apoia o seu opositor Luo. Descobrindo que um parlamentar dos EU é um Luo e que o seu pai tinha sido conselheiro de Oginga Odinga, a CIA organiza-lhe uma viagem ao Quénia para apoiar Raila Odinga. Envolvendo-se na vida política local, o Senador pelo Illinois, Barack Obama, realizará comícios eleitorais com Raila em 2006, alegando mesmo ser seu primo [2].

Como os Estados Unidos organizaram uma vasta provocação enviando SMS racistas aos Luos, aquando da proclamação dos resultados da eleição presidencial, e que os acontecimentos degeneraram, fazendo mais de um milhar de mortos e 300. 000 deslocados, essa operação foi apagada das memórias.

Próxima ao Pentágono, a Cambridge Analytica (CA), que participou nos Estados Unidos na campanha de Ted Cruz, depois na de Donald Trump, aconselhou Uhuru Kenyatta durante as suas campanhas presidenciais de 2013 e de 2017 (quer dizer, enquanto Steve Bannon foi por um breve período acionista da empresa) [3]. Odinga, quanto a ele, fez apelo à Aristotle Inc., uma companhia que poderá estar ligada ao assassinato de Chris Msando, o número 2 do serviço informático da comissão eleitoral, morto por desconhecidos a 29 de Julho [4]. .

Continuando, no contexto da confusão do departamento informático da Comissão Eleitoral Raila Odinga conseguiu fazer anular a eleição presidencial de 2017, e recusou concorrer quando o escrutínio foi de novo convocado. A ideia era lançar uma secessão do território Luo. Odinga teria então reivindicado a anexação dos territórios Luos da África Oriental e Central em nome do trabalho anteriormente realizado pelo seu pai, o Ker (líder espiritual) dos Luos, Oginga Odinga.

No entanto, a embaixada dos EUA colocou-se de repente à margem do seu antigo protegido. Tendo boicotado o segundo escrutínio da eleição presidencial e encontrando-se subitamente abandonado, Raila Odinga acaba a reclamar uma nova anulação e um terceiro escrutínio.

O exército iraquiano liberta Kirkuk da ocupação curda

Curdistão iraquiano : como em Israel e na Rodésia, a independência para os colonos

No quadro do seu plano de remodelação do Médio-Oriente Alargado, o Pentágono tinha planeado desde o 11 de Setembro de 2001 desmembrar o Iraque em três Estados distintos, dos quais um para a sua população curda. Uma variante desta ideia impôs-se após a proposta do Council on Foreign Relations, em 2006, de federalizar o país em três regiões autónomas [5] ; projecto que foi levado ao Senado EU de modo bipartidário por Joe Biden (D.) e Sam Brownback (Rep.). Todavia, o Estado-maior israelita pressionou para que estas três entidades fossem efectivamente independentes de maneira a poder lá instalar mísseis, nas fronteiras norte da Síria e ocidental do Irão.

A palavra «curdo» designa os nómadas que viviam deslocando-se pelo conjunto do Próximo-Oriente. No século XIX, alguns deles fixaram-se na actual Turquia, numa zona onde se tornaram maioritários. Aquando da Operação Tempestade do Deserto, em 1991, os Estados Unidos e o Reino Unido criaram duas zonas de exclusão aérea, das quais uma se tornou o refúgio dos Curdos opostos ao Presidente Saddam Hussein. Estando a sociedade iraquiana organizada de maneira tribal, os Curdos sunitas seguiam a família Barzani, enquanto os Curdos xiitas seguiam a família Talabani e os Curdos Yazidis, o Baba Xeque (líder espiritual). Com o reagrupamento da população na zona de exclusão aérea, surge uma rivalidade entre os Barzani e os Talabani. Os primeiros apelaram ao Presidente Saddam Hussein para que os livrasse dos segundos, mas este prosseguia uma outra agenda. Seja como for, aquando da queda de «Saddam», em 2003, os Estados Unidos colocaram os Barzani à cabeça da região agora dita do «Curdistão iraquiano». Durante a guerra contra a Síria, a CIA aproveitou nomeadamente o Curdistão iraquiano para aprovisionar os jiadistas em armas. Em 2014, quando organizou o Califado, ela autorizou os Barzani a aproveitar a confusão para conquistar novos territórios. O seu feudo alargou-se progressivamente em 80%, anexando populações árabes muçulmanas e cristãs. Diga-se, aliás, que os Barzani deixaram os jiadistas massacrar ou escravizar os Curdos yazidis.

Logo que, mudando a política imperialista do seu país, o Presidente Trump decidiu destruir o Daesh (E.I.) e que o seu exército se pôs efectivamente em acção, as populações não-Curdas vivendo sob o jugo dos Barzani reclamaram ser de novo reintegradas a Bagdade. O Presidente Massoud Barzani, que pretextava a impossibilidade de realizar eleições durante a guerra, afim de se manter no Poder para além do fim do seu mandato, organizou um referendo de independência. Tratava-se para ele, ao mesmo tempo, de regularizar o seu poder e de fazer reconhecer as suas conquistas territoriais.

Durante a campanha referendária, os Barzani garantiram dispor do apoio de 80 Estados, entre os quais os Estados Unidos e a França, que viriam em seu socorro se o Iraque e os seus vizinhos recusassem a independência. Os aliados dos Barzani, ao mesmo tempo que asseguravam que este não era o momento certo para a independência abstinham-se, também, de desmentir a posição que os Barzani lhes atribuíam, à excepção de Israel que apoiou publicamente a independência. Mais subtis, muitos Estados enviaram altos representantes ao terreno, mostrando assim por gestos mais do que por palavras que eles apoiavam realmente os Barzani.

No entanto, assim que, no seguimento de um escrutínio truncado, os Barzani anunciaram que o povo apoiava em 92% de independência e, portanto de facto a sua ditadura, o Iraque, a Turquia e o Irão ameaçaram intervir militarmente. Ora, nenhum dos 80 Estados citados pelos Barzani reagiu. É que, no entretanto, o Presidente Trump se havia oposto tanto ao projecto de partição do Iraque como ao reconhecimento das conquistas dos Curdos iraquianos.

De súbito, o balão esvaziou. A Turquia e o Irão preparavam-se para invadir conjuntamente o novo Estado mas ficaram com as voltas trocadas por intervenção iraquiana. Em 48 horas, as tropas de Bagdade libertaram os territórios anexados por Erbil, enquanto mais de 100 mil colonos curdos encetavam a fuga. Contudo, elas abstiveram-se de continuar a sua progressão para Erbil admitindo assim a legitimidade das reivindicações históricas do povo curdo, mas rejeitando as pretensões dos Barzani sobre um pretenso Curdistão em território árabe.

Muitos Curdos iraquianos recusaram apoiar a independência do pseudo-Curdistão. Primeiro, foi o caso dos Yazidis que criaram, a 25 de Julho, a sua própria província autónoma, o Ezidikhan [6], Depois, foi o caso dos cantões de Germian e de Souleimaniyé, anteriormente os mais duramente reprimidos por Saddam Hussein, que boicotaram o escrutínio [7], e ainda dos xiitas e da família Talabani que acolheram o General Qasem Soleimani, dos Guardas da Revolução, que veio preparar a libertação dos territórios árabes anexados, e, por fim, dos colonos que se instalaram em Kirkuk, e que estão agora na situação dos "pieds-noirs" franceses aquando da independência da Argélia.

Isolado, Massoud Barzani acaba de se demitir, provavelmente em proveito do seu sobrinho, Nechirvan Barzani.

Catalunha : falsos secessionistas e reais conspiradores

Catalonia Today, a revista em inglês de Carles Puigdemont, à atenção dos seus apoios anglo-saxónicos.

Cremos que o independentismo catalão se forjou na resistência ao fascismo. É falso. O primeiro partido independentista catalão, Estat Català, foi fundado em 1922, quer dizer pouco antes das ditaduras de Miguel Primo de Rivera e de Francisco Franco em Espanha.

Acredita-se que o seu fundador, Francesc Macià (o «patriarca»), pensava criar um Estado independente que jamais havia existido, a fim de salvar a região de Barcelona do fascismo. É errado. Ele desejava anexar Andorra, o Sudeste da França e uma parte da Sardenha porque, segundo ele, a «Catalunha» era oprimida por Andorra, pela Espanha, pela França e pela Itália.

Imaginamos que os independentistas catalães são historicamente de esquerda. É falso. Em 1928, Francesc Macià fundou em Havana, com a ajuda do ditador cubano pró-EU Gerardo Machado, o Partido separatista revolucionário da Catalunha.

Ao contrário dos Irlandeses do Ulster, os independentistas catalães jamais foram apoiados pelos Estados anti-imperialistas, fosse a URSS (o que Francesc Macià foi a Moscovo solicitar) ou a Líbia.

Reivindicando-se directamente de Macià (e não do seu antigo chefe, Jordi Pujol) e, portanto, apoiando implicitamente o projecto de anexação de Andorra, e de uma parte da França e da Itália, Carles Puigdemont nunca procurou esconder os seus apoios anglo-saxónicos. Jornalista, ele cria uma revista mensal para manter os seus patrocinadores ao corrente da evolução da sua luta. Obviamente não em catalão, nem em espanhol (castelhano -ndT), mas em inglês: Catalonia Today, do qual a sua mulher, a Romena Marcela Topor, se tornou a redactora-chefe. Identicamente, ele anima associações promovendo o independentismo catalão não em Espanha, mas no estrangeiro, que faz financiar por George Soros [8].

Os independentistas catalães, tal como os seus homólogos luos e curdos iraquianos, não assimilaram a mudança sobrevinda na Casa Branca. Apoiando-se no Parlamento onde têm uma maioria de lugares (assentos-br), muito embora tenham tido uma minoria de votos aquando da sua eleição, proclamaram a independência no seguimento do referendo de 1 de Outubro de 2017. Eles acreditavam poder dispor do apoio dos Estados Unidos e, por consequência da União Europeia. Mas, o Presidente Trump não os apoiou mais do que o que fez com os Luos e os Curdos iraquianos. E, como resultado, a União Europeia manteve-se contra o novo Estado.

Conclusão

Os exemplos acima citados de secessionismo não têm nenhuma relação com a descolonização que deu origem ao direito dos povos à autodeterminação. Além disso, nestes três casos, estes Estados não são viáveis salvo se anexarem outros territórios que nada pediram, como ambicionam Raila Odinga e Carles Puidgdemont e como Massoud Barzani tinha antecipado.

Está na moda dizer que o Presidente Trump é um doente mental, que ele apoia os nostálgicos dos Confederados racistas e não tem política externa. No entanto, nós constatamos que ele conseguiu, por enquanto, parar as operações dos seus predecessores e manter uma relativa estabilidade no Quénia, no Iraque e em Espanha. Isso merece ser realçado.

Thierry Meyssan

Tradução 
Alva

Fonte : "Trump e o secessionismo", Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 31 de Outubro de 2017, www.voltairenet.org/article198580.html

 


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