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A crise neoliberal e a paz em Colômbia

03.03.2016
 
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A consequência de todo este panorama é o enfraquecimento de Santos no próprio bloco de poder: os 'Santistas' vêm perdendo terreno com aqueles que continuam atiçando a guerra liderados por Uribe e seus cortesãos.

Por Javier Calderón Castillo.

Nenhuma negociação de paz é alheia às chicotadas da conjuntura econômica e menos aos cercos da geopolítica. A crise econômica global impacta a Colômbia com toda sua força, as decisões livrecambistas -in extreme-, usadas como dogma pelos chicago boys crioulos, geraram uma deterioração crescente das condições laborais dos trabalhadores e sobretudo têm sido um fracasso para o país, ao ponto que hoje impactam negativamente ao governo de J.M. Santos e com ele a todas as suas políticas, incluído lamentavelmente o processo de paz.

Standard & Poors acabam de rebaixar a qualificação do risco país para Colômbia, por sua perspectiva negativa sobre a economia nacional. Isto não é um dado relevante se não se tem em conta a mensagem geopolítica que traz implícita: Estados Unidos e seus aliados permitiram publicar estas qualificações que evidenciam o tamanho da crise, sob pena de fragilizar a um governo obediente com eles como o de Santos.

Colômbia é petróleo-dependente, ainda que critique com ferocidade a seus vizinhos venezuelanos; segundo a revista Dinero.com 58% das exportações colombianas são de combustíveis fósseis, que representaram uma diminuição de 60% dos recursos ingressados na nação, produto da forte queda dos preços mundiais do cru. Tão só 2,9% do total de exportações colombianas são de outros bens, que em 2015 não subiram com as condições geradas pela grande desvalorização da taxa de câmbio que chegou a 43% [passou de 2.200 pesos por dólar a 3.300 pesos por dólar]. Em geral, as exportações de bens não combustíveis diminuíram 10,7% somados à diminuição das receitas por conceito de petróleo, gás e carvão, razão pela qual o governo teve que ajustar o orçamento nacional em 3%, o que certamente se verá refletido em mais desemprego e maior informalidade. Situação que lança por terra os anúncios oficiais de "bonança" com os quais defendeu os TLC com EUA, a UE, Chile, Costa Rica, Coréia do Sul, entre tantos outros. Pelo contrário, a informalidade laboral aumentou, o salário se destruiu pela flexibilização laboral e a taxa de câmbio acabou com o salário. Neoliberalismo puro e duro.

A estes dados da economia nacional se somam as notícias das mortes de pelo menos 14 mil menin@s da etnia Wayuu devido a desnutrição, e a recente decisão governamental de vender a última grande empresa nacional -ISAGEN-, que é a de maior geração de energia e era a que permitia maiores dividendos para a nação. Uma crise profunda que está sofrendo de metástase, produto da crônica e estendida corrupção que invadiu a Polícia Nacional e a maioria de entidades estatais.

A consequência de todo este panorama é o enfraquecimento de Santos no próprio bloco de poder: os 'Santistas' vêm perdendo terreno com aqueles que continuam atiçando a guerra liderados por Uribe e seus cortesãos. A extrema-direita está tratando de canalizar esta situação, pela qual é também responsável, para enlamear o espaço da paz, processar os ministros de Santos e mostrar, com muito cinismo e sordidez, que sem seu consentimento não se poderá implementar os acordos, inclusive anunciando um protesto contra os diálogos para o próximo 2 de abril.

O desprestígio do governo, ao qual se lhe nota errático e arrogante, o levou, nas últimas semanas, a apresentar posturas contraditórias em aspectos cruciais da negociação de paz, anunciando ações unilaterais como o plebiscito para referendar os acordos, em vez de esperar um arranjo com a contraparte, que está pedindo uma Constituinte ou uma referenda vinculante e blindada que lhe gere a segurança de que não lhes enganarão.

O plebiscito é uma ação eleitoral que pretende arejar a Santos e sua equipe de governo, que se percebe desesperados pela crise econômica, ainda que racha a confiança com que os diálogos vinham avançando. Em tal sentido, serão muitos os esforços que as partes terão que fazer para mostrar ao país um acordo de paz que seja política de Estado, e que não fique aprisionado pelo governo para resolver a crise econômica que se vive produto do neoliberalismo que resiste a mudar. Uma postura intermediária entre Plebiscito e Constituinte é possível, ainda que depende da margem de força que tenha a coalisão de governo e a força do próprio movimento social e popular que respalda o processo de paz.

Se se resolve este ponto em Havana, significa que Santos está disposto a atirar-se os restos para avançar rumo a um cenário de implementação e pós-acordo consensuado e a iniciar de uma vez a negociação com o ELN. Oxalá também se convença das mudanças sociais e econômicas que o país requer, porque nas atuais circunstâncias o pós-acordo terá como cenário um crescente conflito social por conta dos nefastos efeitos do neoliberalismo que aqui mencionamos. Com a chegada da democracia no pós-acordo, as comportas do protesto social e as mudanças tomarão uma entusiasta força que com certeza impactará a América Latina toda.

Por isso, talvez o próprio presidente Barack Obama aproveitará para não se perder desta histórica foto que coincide com sua visita a Havana nos próximos 22 e 23 de março. Sem dúvidas, a ilha da dignidade se converteu na capital global da paz e da justiça social. 

  

Fonte: telesurtv.net

 


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