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Igreja em Cuba: Entrevista com Frei Betto

03.03.2008
 
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Vejo positiva toda iniciativa que significa dialogar com pessoas sérias, ainda que divergentes. O problema da liberdade de viagens é a evasão de divisas. A faxineira de sua casa viaja com freqüência? Já esteve no Uruguai ou no Paraguai, aqui do lado? Ou seja, os países capitalistas se dão ao luxo de permitir viagens particulares ao exterior porque só uma minoria o faz. Em Cuba, viajam todos que estão a serviço do interesse comum: professores, médicos, artistas, desportistas... Mas é impensável uma família ir passar férias nas praias do Mediterrâneo queimando divisas que Cuba precisa.

A tese de que a economia cubana tende a se abrir aos moldes chineses, como analistas conservadores estão prevendo, se sustenta?

Cuba não demonstra nenhuma intenção de negar seu socialismo para se transformar num capitalismo de Estado, como a China. E com certeza o governo colegiado de Cuba prosseguirá com as mesmas lideranças, a maioria jovens, apenas sem a presença de Fidel.

Apesar de Obama falar em estar disposto a se encontrar com Raúl "sem condições prévias", em fechar a base em Guantanamo e permitir a viagem de cidadãos dos EUA a Cuba... ele ainda é tomado pelo discurso de que "o afastamento de Fidel ainda é pouco para a democracia em Cuba". O senhor vê avanços na relação de ambos os países caso ele seja eleito - a despeito de ser um democrata como Kennedy?

Tenho simpatias por Obama, mas ele é uma incógnita. Há que esperar para ver, se eleito, como agirá no poder. O PT também não falava em reforma agrária como prioridade? Mas acredito sim que a vitória do Partido Democrata nos EUA poderá abrir novos canais de diálogo entre os dois países.

O senhor conheceu Fidel em 1980 no primeiro aniversário da Revolução sandinista, na Nicarágua... Como foi esse primeiro contato com ele?

Conheci Fidel em Manágua, na noite de 19 de julho de 1980, primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Lula e eu estávamos na casa de Sergio Ramirez, vice-presidente da Nicarágua, quando ele chegou para se entrevistar com empresários nicaragüenses. Cumprimentou-nos e se refugiou na biblioteca. Eram duas da madrugada quando o padre Miguel D’Escoto, chanceler da Nicarágua, indagou se tínhamos interesse em conversar com o Comandante. O diálogo estendeu-se até às seis da manhã, observado por Chomy Miyar, seu secretário particular, atento às fotografias, e Manuel Piñero, reponsável pelo Departamento de América, desabado sobre a espessa barba que servia de anteparo a um longo charuto apagado. Falamos de religião. Foi quando ele me perguntou se estaria disposto a ir a Cuba para assessorar a reaproximação entre o governo e a Igreja Católica. Respondi que dependeria dos bispos cubanos, que no ano seguinte responderam positivamente à proposta.

Em Fidel e Religião, o senhor ressalta que Fidel usava uma corrente com uma cruz no pescoço nas montanhas de Sierra Maestra. Qual a relação de Fidel com a espiritualidade?

Considero Fidel um agnóstico. Pois demonstra muito interesse por questões religiosas relacionadas com a política. Foi aluno interno de escolas católicas entre 8 e 18 anos de idade, o que significa que freqüentava missas diárias. A medalha que usava em Sierra Maestra era um presente de uma amiga, segundo me disse.

Ele se vê como um predestinado por Deus para levar a cabo o socialismo?

De modo algum. Nunca percebi nele qualquer traço de messianismo. O que ele tem é muito carisma, muito consciência histórica e disposição de dar a vida pelo bem de seu povo. Fidel jamais conheceu o medo. Fidel já disse que se, como o papa, ele, Fidel, tivesse todas as freiras do mundo sob seu comando, ressaltando sua lealdade a um ideal, a revolução socialista seria planetária.

Como anda a relação do governo cubano com a Igreja Católica? O Secretário de Estado do Vaticano, Tarcísio Bertone, está em Havana...

As relações entre Revolução e Igreja Católica passaram por fases positivas e negativas. Nunca houve, porém perseguição às Igrejas, e Cuba sempre manteve boas relações com o Vaticano. Ao encontrar Fidel pela primeira vez em 1980, ele me disse que Igreja Católica e Estado não dialogavam em Cuba. As outras Igrejas sim. No ano seguinte, iniciei o trabalho de favorecer a retomada do diálogo, o que ocorreu em 1985, 16 anos após o silêncio entre as partes. As relações voltaram a azedar em 1990, quando bispos cubanos acreditaram que Cuba seria alvo do efeito dominó da falência do socialismo na Europa. E voltaram a melhorar com a visita do papa João Paulo II, em 1998. No momento, são excelentes, e os bispos cubanos já não demonstram nenhuma intenção de que Cuba retorne ao capitalismo, embora reivindiquem mais acesso aos meios de comunicação e às prisões.

Como entender o posicionamento de William Waack, que beira ao ridículo - dado ao repertório exalado de senso-comum maldoso e completamente descompromissado com a História, para não falar com o jornalismo -, apresentando Fidel como "um ancião definhando... assim como suas idéias que foram abandonadas pelo mundo".

Jornalismo se faz com informação, e não com mágoas subjetivas.

A "campanha de desinformação" desencadeada pela mídia associa quase que abertamente a renúncia de Fidel a uma irreversível renúncia de Cuba ao socialismo. Este ano o senhor já esteve duas vezes em Cuba - uma em janeiro e outra no início de fevereiro. Quais os anseios da população?

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