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Igreja em Cuba: Entrevista com Frei Betto

03.03.2008
 
Pages: 123
Igreja em Cuba: Entrevista com Frei Betto

Igreja em Cuba: Entrevista com Frei Betto


O jornal Brasil de Fato, em sua edição dessa semana entrevista o dominicano Frei Betto. A entrevista é conduzida pelo jornalista Marcelo Netto Rodrigues. Segundo o jornal, Betto deve ser o brasileiro com mais horas de vôo entre Havana e São Paulo. O semanário comenta que o Frei chegou a viajar a Cuba, em média, três vezes ao ano em meados da década de 1980. Em 1985, escreveu o clássico Fidel e religião (1985) - resultado de uma entrevista de 23 horas com Castro, editado em cerca de 30 países, que já ultrapassou os 2 milhões de exemplares vendidos. Em 1998, agiu como interlocutor entre o Vaticano e o governo cubano para que a improvável visita do papa João Paulo II acontecesse. Na entrevista, o Frei comenta as suas impressões sobre a continuidade do processo revolucionário cubano, a despeito da ‘renúncia’ do comandante-em-chefe.

Eis a entrevista.

Com a "renúncia" de Fidel em aceitar que fosse reeleito como presidente, como ficam os críticos que insistiam na figura de um Fidel "ditador" - quando todos os ditadores só deixam o poder quando morrem?

Nem todos os ditadores morrem no poder. Muitos são derrubados, como Pinochet. Mas jamais conheci um caso de renúncia. Outro dia um amigo me disse que em Cuba não há democracia. Perguntei-lhe: e há no Brasil? Ele disse que sim. Falei: não quero ouvir sua resposta, quero ouvir sua faxineira e saber como ela se vira quando fica doente, se os filhos têm escolas de qualidade e podem chegar à universidade, se ela tira férias na praia ou viaja de vez em quando para um país estrangeiro, o que faz ela quando está insatisfeita com o governo... Nossa democracia política é controlada pelo poder do capital e estamos longe de uma democracia social e econômica.

Como se posicionar contra todo aquele lenga-lenga oportunista dos Estados Unidos falando em "transição para democracia" na ilha?

Com Bush, os EUA estão em plena transição para o nazifascismo, e ainda querem impor a Cuba, além do bloqueio, o seu futuro. Os cubanos não querem que o futuro seja o presente de Honduras e Guatemala...

Em que medida devemos imputar ao bloqueio estadunidense a responsabilidade pelas deficiências da Revolução? Até que ponto essas deficiências (burocratização, entre elas) estão diretamente relacionadas ao corpo dirigente do processo?

As deficiências da Revolução se devem ao bloqueio e também à influência soviética, pois a URSS adotou o que qualifico de "socialismo monárquico", de cima para baixo, o que facilitou a sua derrubada. Cuba fez uma Revolução popular e procura sanear a influência soviética através da mobilização constante de sua população.

Em termos numéricos, hipotéticos, qual a porcentagem de culpa do embargo no processo revolucionário cubano? Como seria Cuba sem ele?

Já ouvi dizer que o bloqueio custa, em termos de perdas para Cuba, algo em torno de 18 bilhões de dólares por ano. Não estou seguro. Sem o bloqueio Cuba poderia voltar a comercializar seus produtos com os EUA, como o faz com outros países capitalistas, como Espanha e Canadá. Hoje, há toda uma triangulação para que Bill Clinton possa fumar charutos cubanos e a filha de Bush tomar Cuba-Libre...

O senhor consegue imaginar como os países do mundo responderiam aos estímulos socialistas cubanos se a revolução pudesse ter se desenvolvido sem asfixia econômica e política?

Os países capitalistas jamais aceitarão o regime socialista, pois são todos dominados pelo grande capital e o socialismo representa a desconcentração dessa riqueza e sua aplicação em benefícios sociais. Haveria, pois, nova Guerra Fria... Ou mesmo quente...

Na mesma lógica, o processo interno de críticas à Revolução desencadeado por Raúl, com mais de 1 milhão de sugestões, é fruto da constatação de que a asfixia do bloqueio tem sido eficiente - e de que alternativas econômicas precisam ser encontradas... Ou de que é necessário fazer uma autocrítica da forma com que a condução da Revolução tem se dado?

Cada momento histórico tem suas próprias exigências. Desde os anos 80, Cuba se abriu ao capital estrangeiro e, hoje, até os seus charutos são mundialmente comercializados em parceria com a Espanha. O processo de autocrítica é uma exigência permanente de qualquer revolução que não queira se transformar em relíquia do passado... E Cuba tem sabido fazer isso muito bem. No período especial, nos anos 90, retomou a emulação moral proposta pelo Che e, agora, estimula a população a proferir abertamente suas críticas. Querem aprimorar o sistema e não renegá-lo.

Como o senhor vê a presença do ex-premiê da Alemanha Oriental Hans Modrow em Havana, a convite de Fidel? Modrow sugere, a exemplo do que aconteceu com a RDA, "liberdade de viagem, reformas na agricultura e em pequenos comércios".

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