Pravda.ru

Mundo

Oriente Médio em 2010

03.01.2010
 
Pages: 1234
Oriente Médio em 2010

Lejeune Mirhan *

Os que me acompanham neste espaço há quase oito anos sabem que na última coluna do ano tento fazer algumas análises das perspectivas da região que chamamos de Oriente Médio para o ano seguinte. Não são previsões – e nem poderia, pois não sou profeta. São análises, construções de cenários possíveis, tendências. Vamos a elas, nesta que é a coluna de número 376.

Neste Oriente Médio muita coisa acontecerá em 2010

Análise dos países

Faremos aqui uma análise de problemas do que se passou e perspectivas. Além dos sites que pesquiso, dos jornais que leio e dos artigos de domínio público que recebo diariamente em minha caixa postal, tomei como base a revista The Economist de grande competência no jornalismo internacional, que, em nosso país, é editada pela outra competente revista, sob o comando de Mino Carta, a Carta Capital (1).

Israel – As minhas observações são as seguintes:

Governo direitista, beirando ao fascismo, de Benjamin Netanyahu, que tem a esmagadora maioria parlamentar de 74 deputados no Knesset (de um total de 120), incluindo o histórico partido social democrata, o Trabalhista, que vive contradições. Praticamente não tem unidade interna; o PTI esta dividido no apoio ao governo. O maior partido do país, o Kadima, de centro, não quis integrar o governo;

Bibi, como é chamado o primeiro Ministro, faz jogo de cena em relação aos assentamentos judaicos em terras palestinas. Ao mesmo tempo em que acena com a suspensão por 10 meses da expansão das colônias, autoriza construção de centenas de apartamentos na parte árabe de Jerusalém. Judeus ortodoxos resistirão a qualquer congelamento. Chegam a argumentar, com apoio do alto Rabinato, que as leis da Torá valem mais do que as leis civis e o chamado estado de direito;

O governo Bibi deve capitular e aceitar trocar centenas de prisioneiros palestinos do Hamas pelo soldado Shalit que se encontra em poder de guerrilheiros da resistência palestina. Uma derrota para Israel e seu governo, pois um dos argumentos usados no bombardeio à Gaza que completou um ano no último 27/12 era de destruir o Hamas, fato nunca conseguido, nem muito menos enfraquecê-lo enquanto grupo de resistência. Essa possível troca de prisioneiros vem sendo mediada pelo Egito e pela Alemanha;

Piora, a olhos vistos, a imagem de Israel perante a comunidade internacional. Isso decorrente dos massacres de um ano, a resistência em sentar-se à mesa de negociações e ceder aos palestinos nos seus direitos legítimos;

Israel seguirá construindo o seu famigerado e odiado Muro da Vergonha, já condenado pelos tribunais internacionais e pela ONU e parte dele financiado inclusive pelos EUA. Tal muro separa famílias e aldeias palestinas, impede acesso à água e cria ainda mais barreiras para uma solução de paz aceitável para ambas as partes;

Não vejo, para 2010, nenhuma perspectiva de que, com esse governo de Israel, a paz volte a ser discutida. A proposta de dois estados, defendida pela ONU e pelas potências centrais e aceita pelos palestinos, não é aceita por Israel;

Israel continuará ocupando as fazendas do Shebaa no Sul do Líbano, as colinas de Golã, na Síria e não devolverá os territórios ocupados na região da Cisjordânia onde vivem quase meio milhão de colonos judeus sionistas ortodoxos.

Palestina – Tenho as seguintes observações em relação a 2010:

Como disse um dos analistas internacionais a que tive acesso, a situação que vive a Palestina e seu povo é como se estivessem “à beira da explosão”. O sentimento entre palestinos é de imensa frustração com relação á comunidade internacional;

Em recente reunião do Comitê Central da OLP, sob o comando de Mahmoud Abbas, atual presidente da Autoridade Palestina, afirmou que agora “os destinos da Palestinas encontram-se nas mãos da comunidade internacional e dos Estados Unidos”. Nada mais há o que se fazer do lado palestino;

Mahmoud Abbas, conhecido como Abu Mazen, que sucedeu Yasser Arafat desde a sua morte há cinco anos, pertence ao maior grupo político da Palestina, o Fatah, que vive o desgaste de poder, por estar à frente da luta palestina desde pelo menos 1964 quando foi fundado. É uma organização revolucionária de centro-esquerda, nacionalista e patriótica, ainda que não socialista. Abbas tem dito que não concorrerá ás eleições, que deveriam ser em janeiro, mas devem ocorrer em junho sob novas regras eleitorais (Israel não garante a segurança na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza o Hamas ainda não decidiu se concorda com as novas regras eleitorais em discussão, que implantará o sistema eleitoral proporcional e não mais o distrital, onde eles vencem). Penso que ele faz um jogo de cena política e acabará aceitando recandidatar-se por falta de nomes alternativos;

Infelizmente, acho que a unidade das lideranças palestinas encontra-se comprometida. Não vejo, em curto prazo, uma unidade política entre Hamas, Jihad, Fatah e a chamada esquerda palestina. Esta por sua vez, dá sinais de que vai se unificar. Já atuam juntas a FDLP, a FPLP e o Partido Comunista, que hoje se chama Partido do Povo Palestino. Esperamos que se unifiquem mesmo;

Infelizmente, ainda em 2010 os palestinos não terão a sua autodeterminação assegurada, a sua soberania, o seu estado nacional, as suas liberdades e direitos de ir e vir. Sou pessimista com relação a esses direitos;

Pages: 1234

Loading. Please wait...

Fotos popular