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A guerra do prefeito carioca

02.12.2010
 

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, capitalizando politicamente as ações policiais na cidade, deu a entender que a iniciativa de declarar guerra aos traficantes foi dele, com as chamadas UPPs  - Unidade de Polícia Pacificadora - ocupando  as favelas, seguindo-se uma operação desastrosa envolvendo tanques da Marinha em auxílio à  Polícia Militar, envolvendo as Forças Armadas em ações policiais, produzindo um saldo de, até agora, cerca de 35 mortos.

Paes deveria considerar duas coisas antes de prosseguir em sua luta sangrenta: Primeiro, no Brasil, o poder de polícia é exclusivo dos Estados (polícias Civil e Militar) e da União, cujo Ministério da Justiça subordina a Polícia Federal.

Segundo: em dezembro de 2006 o presidente mexicano Felipe Calderón iniciou uma crescente pressão sobre os carteis da droga, numa luta envolvendo a Polícia Federal e as Forças Armadas, envolvendo 40.000 homens; uma guerra sem fim que matou até agora cerca de 31.000 pessoas, inclusive um político em plena luz do dia.

Se os carteis da droga mexicanos obtêm seus poderosos fuzis de assalto e metralhadoras do vizinho Estados Unidos, para onde vendem a maior parte da droga, os traficantes brasileiros trazem seus não menos poderosos armamentos do também vizinho Paraguai, onde se compram armas de guerra com a facilidade de quem adquire uma lata de Coca Cola. Esses fuzis, pistolas e metralhadoras têm seus preços multiplicados por dez desde a compra em Pedro Juan Caballero até a venda, no Rio ou em São Paulo, um comércio tão ou mais lucrativo que o tráfico em si.

Após décadas de luta contra o comércio ilegal de drogas no mundo todo, quando irão entender que a questão não se resolve pelo enfrentamento, e que o único meio de tirar o poder dos traficantes é legalizar a venda das drogas - sem permitir a sua propaganda ou estímulo ao consumo-, simplesmente descriminalizando o seu uso e comércio?

Conforme o Relatório Anual sobre Drogas da ONU, o porcentual de consumidores entre a população adulta no Brasil é relativamente baixo em comparação ao dos Estados Unidos e outros países, como se segue:

Cocaína: Brasil - 0.7% - Argentina 2.6% - EUA 2.8% - Reino Unido 2.3 - Espanha 3%

Maconha: Brasil - 2.6% - Argentina 7.2% - EUA 12.3% - Reino Unido 7.4% - Espanha 10.1%

E o que se diz sobre o consumo de álcool, seguramente muitíssimo superior em qualquer lugar do mundo ao de qualquer outra droga, e causador de muito mais mortes e  mais incapacitante?

Alguém já imaginou a dimensão dessa guerra se a venda de bebidas alcoólicas fosse proibida e os descendentes de Al Capone decidissem, então, retomar o negócio?

É exatamente por isso que não se proíbe a venda de álcool a maiores e tolera-se, muito convenientemente, o seu consumo por adolescentes. Sua venda a menores é apenas formalmente proibida.

Raros são os brasileiros que não conhecem ao menos um consumidor de maconha, de longe o entorpecente ilegal mais vendido no mundo.

Luiz Leitão é jornalista

luizmleitao@gmail.com

 


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