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A "estratégia de assassinar o bandido-em-chefe"

02.05.2015
 
A

O assassinato como política de Washington e como fracassou - 1990-2015

Com a guerra ao terror aproximando-se do 14º aniversário - guerra que os EUA parecem estar perdendo, com os jihadistas avançando no Iraque, na Síria, no Iêmen -, os EUA mantêm-se obcecadamente presos a sua estratégia de "alvejar alvos de alto valor" [orig. "high-value targeting"], o eufemismo preferido no país para "assassinato". O secretário de Estado John Kerry citou com orgulho a eliminação de "50%" dos "top comandantes" do Estado Islâmico como recente indicação de avanços. Houve notícias de que Abu Bakr al-Baghdadi, o Califa do Estado Islâmico, em pessoa, teria sido gravemente ferido num ataque aéreo em março e, portanto, estava afastado do comando diário da organização. Em janeiro, como a Casa Branca só admitiu com grande atraso, um ataque cujo alvo era a liderança da al-Qaeda no Paquistão conseguiu matar também um cidadão norte-americano, Warren Weinstein e outro refém que estava com ele, o italiano Giovanni Lo Porto.


Mais recentemente no Iêmen, quando a al-Qaeda na Península Arábica tomou um aeroporto chave, um drone dos EUA assassinou Ibrahim Suleiman al-Rubaish, suposta figura importante na hierarquia do grupo. Ao mesmo tempo, o canal saudita de notícias, al-Arabiya mostrava um baralho cujas cartas exibiam fotos dos principais inimigos dos sauditas no Iêmen, lastimável cópia do infame baralho de cartas criado pelos militares dos EUA pouco antes da invasão do Iraque, como indicação dos iraquianos a serem mortos  (Saddam Hussein era o ás de espadas).

Seja qual for o eufemismo - os israelenses preferem falar de "prevenção focada" - o assassinato tem sido claramente a estratégia preferencial de Washington no século 21. Os métodos de matar, incluindo drones, mísseis cruzadores e equipes de rastreadores-matadores nas Forças Especiais, podem variar, mas a noção central, de que o caminho do sucesso está em matar diretamente os líderes inimigos já está firmemente incorporada. Como a então secretária de Estado Hillary Clinton disse em 2010: "Acreditamos que o uso de operações orientadas pela inteligência e com alvo predefinido contra insurgentes de alto valor e suas redes é componente chave" da estratégia dos EUA.

Análises dessa política recordam, corretamente, o precedente sangrento do Programa Fênix da CIA na era Vietnã, quando foram "neutralizados" pelo menos 20 mil seres humanos. Mas há fonte de inspiração mais recente e mais direta, embora menos notada, para o programa de assassinatos por matadores norte-americanos, no Oriente Médio Expandido e na África: a chamada "estratégia de assassinar o bandido-em-chefe" que foi usada nas guerras das drogas de Washington nos anos 1990s. 

Como me disse pessoalmente um ex-alto funcionário da Casa Branca para contraterrorismo, em entrevista em 2013: "A ideia nasceu da guerra às drogas. O precedente já estava no sistema, modelando nosso pensamento. Tínhamos alto grau de confiança na serventia do assassinato predefinido. Havia convicção generalizada de que essa era ferramenta que tínhamos de usar."

Tivesse o tal funcionário especialista melhor informação sobre o resultado desse capítulo da guerra às drogas, talvez tivesse menos confiança na utilidade da 'ferramenta'. 

Na verdade, a parte mais estranha dessa história é que a estratégia de matar os chefões da droga, que deu resultado terrivelmente errado, praticamente o oposto do que se esperava, tenha voltado a ser aplicada em grande escala, depois, na guerra ao terror - e com exatamente os mesmos resultados terrivelmente errados.

Aparece a estratégia de assassinar o bandido-em-chefe [orig. kingpin strategy]

No início dos anos 1990s, a Drug Enforcement Administration (DEA) era a prima pobre dentre as agências de polícia federal nos EUA. Criada duas décadas antes pelo presidente Richard Nixon, dormitava à sombra das irmãs mais poderosas, sobretudo o FBI. Mas o futuro trouxe-lhe esperanças. O presidente George H.W. Bush acabava de relançar a guerra às drogas que havia sido lançada por Nixon, e havia gordas dotações orçamentárias à vista. Além do mais, em contraste com os tempos de Nixon, quando os grupos de traficantes viviam nas sombras, naquele momento o inimigo já tinha rosto ou rostos conhecidos. Os cartéis colombianos de tráfico de cocaína já estavam na mídia, seu poder e a eficiência violenta e cruel espalhafatosamente divulgados na televisão e nos jornais.

E Robert Bonner, ex-procurador e juiz federal nomeado para dirigir a DEA em 1990, viu ali, bem clara, uma oportunidade. Embora Nixon alimentasse fantasias de usar sua força antidrogas para assassinar traficantes, e até tivesse pedido a líderes da comunidade de emigrados cubanos anti-Castro que lhe fornecessem os indispensáveis assassinos, Bonner tinha em mente coisa mais sistemática. Chamou seu plano de uma "estratégia de assassinar o bandido-em-chefe", cujo objetivo seria a eliminação, por morte ou por captura, dos "pinos centrais", os bandidos-em-chefe que dominavam aqueles cartéis.

Implícito no conceito estava o pressuposto de que os EUA enfrentavam uma ameaça estruturada hierarquicamente, que poderia ser derrotada pela remoção dos elementos chaves do comando. Nisso, Bonner fazia eco a uma doutrina tradicional da Força Aérea dos EUA: que todo e qualquer sistema inimigo tem contém necessariamente "nodos críticos", cuja destruição levaria ao colapso do inimigo.

Num discurso revelador de 2012, numa reunião de veteranos da DEA organizada para comemorar os 20 anos de lançamento da estratégia de assassinar o bandido-em-chefe, Bonner falou do inimigo empresarial que enfrentara. Os grandes traficantes de droga, disse ele, "são, por qualquer ponto de vista que se os analisem, grandes organizações. Por definição operam transnacionalmente. São integrados verticalmente em termos de produção e distribuição. E, aliás, mantêm gente muito esperta, embora também muito cruel, no topo; e têm estrutura de controle e comando. E eles também têm seus especialistas, encarregados de determinadas funções essenciais da organização, como logística, vendas e distribuição, finanças e policiamento." Daí se inferiu que a remoção desses personagens muito espertos do topo da organização, para nem falar dos especialistas em logística, tornaria o cartel inoperante e, assim, se interromperia o fluxo de narcóticos para os EUA.

A caça aos bandidos-em-chefe prometia ricas recompensas institucionais. Além da superior presença do FBI, Bonner teve de discutir com outro predador carnívoro na selva da burocracia de Washington, que ansiava por tomar contra do território da agência de Bonner. "DEA e CIA eram como cão e gato" - relembra o ex-diretor da DEA, numa entrevista em 2013. "Havia tensão real entre elas". Mas Bonner conseguiu negociar a paz dom a poderosa agência, "com o quê passamos a ter uma aliada muito importante: a CIA podia usar a DEA e vice-versa."

Queria dizer que a agência superior podia usar os poderes legais da agência antidrogas para agir domesticamente, com grande vantagem. Essa próspera relação atraiu outros potentes aliados. Agora, não apenas a sua agência estava mais próxima da CIA, como me disse Bonner, mas "através da CIA, nos aproximamos também da Agência de Segurança Nacional, NSA." Uma nova Divisão de Operações Especiais criada para trabalhar com as agências superiores ficou encarregada de supervisionar os ataques aos bandidos-em-chefe, operando a partir de massiva inteligência eletrônica.

Essa nova orientação rapidamente ganharia credibilidade depois da eliminação do líder do cartel mais afamado de todos. Pablo Escobar, figura dominante do cartel de Medellín, era objeto de atenção obsessiva dos federais norte-americanos. Há muito tempo escapava das caçadas organizadas e comandadas pelos EUA, antes de negociar um acordo com o governo da Colômbia em 1991, pelo qual passou a residir numa "prisão" que o próprio Escobar construíra nas colinas acima de sua cidade natal. Um ano depois, temendo que o governo planejasse trair o acordo e entregá-lo aos norte-americanos, Escobar deixou aquela prisão e mergulhou na clandestinidade.

A caçada que se seguiu, para prender o barão das drogas fugitivo marcou um ponto de virada. A Guerra Fria acabara; Saddam Hussein fora derrotado na 1ª Guerra do Golfo em 1991; escasseavam as ameaças críveis contra os EUA; e pairava no ar o perigo dos cortes no orçamento da 'defesa'. Foi quando os EUA empregaram toda a parafernália da vigilância tecnológica originalmente desenvolvida para confrontar o inimigo soviético, contra um único alvo humano. A Força Aérea enviou vasto sortimento de aviões de reconhecimento, inclusive os SR-71s, capazes de voar a velocidade equivalente a três vezes a velocidade do som. A Marinha enviou seus próprios aviões espiões; a CIA contribuiu com um drone helicóptero. 

Houve momento em que havia 17 dessas aeronaves espiãs voando simultaneamente sobre Medellín, embora, como adiante se verificou, nenhuma delas tenha oferecido qualquer informação que ajudasse a localizar Escobar. A DEA tampouco fez qualquer contribuição relevante. Quem realmente teve papel decisivo foram traficantes rivais de Escobar, de Cali - o segundo maior cartel colombiano de tráfico de drogas - , que trabalharam na destruição dos sistemas de poder e de organização do grupo de Escobar. Combinaram inteligência racionalmente construída e operada, e a mais sangrenta e violenta crueldade.

Com a sua antes poderosa rede de informantes e guarda-costas já destruída, Escobar acabou localizado, por causa de um rádio rastreado; e foi morto a tiros quanto tentava fugir por um telhado, dia 2/12/1993. Embora seja assunto controverso e jamais confirmado, um ex-alto funcionário da DEA garantiu-me que, sem dúvida possível, o tiro que o matou partiu da arma de um atirador de elite da Força Delta das Operações Especiais do Exército dos EUA.

Depois desse sucesso, a DEA voltou suas atenções para o cartel de Cali, jogando contra ele todos os recursos disponíveis: "Desenvolvemos realmente o uso de gravações telefônicas clandestinas" - disse-me Bonner. Paciência e uma quantidade enorme de dinheiro acabaram por produzir resultados. Em junho e julho de 1995, seis dos sete cabeças do cartel de Cali foram presos, inclusive os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez-Orijuela e o cofundador do cartel, José "Chepe" Santacruz Londoño.  Embora Londoño tenha depois escapado da prisão, acabou também caçado, encontrado e assassinado. Pressão continuada dos EUA ao longo dos anos finais da década e depois disso, resultaram numa longa cadeia de chefões do tráfico para as prisões, com sentenças de prisão perpétua, ou para os cemitérios.

Caem os bandidos-em-chefe... e sobe o tráfico 

A estratégia parecia ter sido sucesso retumbante. "Quando Pablo Escobar teve de fugir e esconder-se, sua organização começou a desmoronar (...) e acabou destruída. E essa foi a estratégia que chamamos de "estratégia de assassinar o bandido-em-chefe", jactava-se Lee Brown, o "czar da droga" de Bill Clinton, em 1994.

Pelo menos em público, nenhum funcionário do governo deu-se ao trabalho de explicar que, se o objetivo da tal estratégia era conter o uso de drogas pelos norte-americanos, o resultado final foi o exato oposto do que deveria ter sido. O ponto pelo qual a vitória da estratégia converteu-se em fracasso estava no preço da cocaína negociada nas ruas dos EUA. Naqueles anos, a DEAdedicava esforço enorme no monitoramento do preço da droga nas ruas, usando agentes infiltrados para comprar e compilando depois, laboriosamente, em cuidadosos 'balanços', tudo o que fora pago.

Mas a droga obtida por esses meios sub-reptícios era de pureza terrivelmente variável, com a cocaína muita vezes trocada por substituto sem valor comercial. Assim, o preço da grama de cocaína pura variava enormemente, porque alguns maus negócios, de material de baixa pureza, faziam o preço médio oscilar muito. Os varejistas de rua começaram a compensar os preços mais altos reduzindo a pureza da droga que vendiam, em vez de cobrar mais caro por grama. Com isso, os quadros de preço que a Agência mantinha passaram a indicar menor movimento; e nada informaram sobre os eventos que estavam afetando os preços e, portanto, a oferta da droga.

Mas em 1994, o Instituto de Análises para a Defesa, o think-tank que o Pentágono mantém intramuros, começou a examinar mais detidamente os dados sobre drogas nos EUA. O analista, um ex-piloto de combate da Força Aérea, de nome Rex Rivolo, foi encarregado de fazer exame independente da situação da guerra às drogas, a pedido de Brian Sheridan, o prático e realista diretor da Comissão para Política de Controle de Drogas do Departamento de Defesa - que desenvolvera saudável desrespeito pela DEA e suas operações.

Depois de informar aos funcionários da DEA que suas estatísticas não valiam nada, mero "ruído aleatório", Rivolo pôs-se a trabalhar para desenvolver uma ferramenta estatística que eliminaria o efeito, no tráfico, das oscilações da pureza das amostras recolhidas pelos agentes infiltrados. Tão logo Rivolo pôs em funcionamento a nova ferramenta, começaram a surgir conclusões interessantes: a caçada aos bandidos-em-chefe das organizações quase com certeza estava influenciando os preços e, por extensão, a oferta. Mas não na direção que a DEA propagandeava. Longe de impedir que o fluxo de cocaína alcançasse as narinas dos norte-americanos, a caçada aos barões estava acelerando o processo. Eliminar os bandidos-em-chefe havia, de fato, aumentado a oferta de cocaína nos EUA.

Foi revelação que causou impacto, porque andava contra atitudes muito tradicionais da cultura policial nos EUA, que chegavam aos dias da guerra de Eliot Ness contra os contrabandistas de bebida nos anos 1920s e que se tornariam a base das guerras contrainsurgência de Washington no século 21. Era diagnóstico que poderia ter sido feito intuitivamente, sobretudo depois que a estratégia de assassinar o bandido-em-chefe passou a ser aplicada contra terroristas e insurgentes. Mas, pelo menos daquela vez, havia dados observáveis, computáveis, inegáveis.  

No último mês de 1993, por exemplo, a antes gigantesca organização de contrabando de cocaína de Pablo Escobar já estava em cacos, e ele estava sendo caçado pelas ruas de Medellín. Se a premissa da estratégia da DEA - que eliminar os barões da droga faria diminuir a oferta de drogas - estivesse correta, a oferta de cocaína dos EUA deveria ter sido interrompida.

Na verdade, aconteceu o oposto: naquele período, o preço da cocaína nas ruas dos EUA caiu de cerca de $80 para cerca de $60 o grama, porque aumentou a oferta de outros grupos para o mercado norte-americano. E o preço continuaria a cair ainda mais depois da morte de Escobar. Igualmente, quando o principal grupo que comandava o cartel de Cali foi preso em meados de 1995, os preços da cocaína, que haviam subido muito no início daquele ano, entraram em declínio vertiginoso, que continuou ao longo de 1996.

Certo de que a queda dos preços e a eliminação dos bandidos-em-chefe estavam conectadas, Rivolo pôs-se a procurar uma explicação, que encontrou numa velha teoria econômica que chamou de "competição monopolística". "É coisa de que não se fala há anos" - ele explicou. "No essencial, diz que se você tem dois produtores de algo, há determinado preço. Se você dobra o número de produtores, o preço é cortado ao meio, porque os dois produtores partilham o mercado.

"A questão portanto era" - ele continuou, - "quantos monopólios havia por aí? Tínhamos três ou quatro grandes monopólios. Mas vocês os pulverizaram, dividiram-nos por vinte. Quem conheça as leis da competição monopolística, já saberia que o preço despencaria. Claro que nos anos 90s o preço da cocaína estava despencando, porque a concorrência estava chegando e forçando a disputa. A melhor coisa que poderiam ter feito seria deixar aí um cartel sobre o qual tínhamos algum controle. Se o objetivo de vocês é reduzir o consumo de drogas nas ruas, o mecanismo tem de ser esse. Mas se você é policial, sua meta é prender o bandido. Daí que nós passávamos o ano inteiro tendo de lutar  contra a mentalidade policial dessas organizações provincianas como aDEA."

A 'estratégia de assassinar o bandido-em-chefe' une-se à Guerra ao Terror 

No fundo das selvas do sul da Colômbia, fazendeiros plantadores de coca não precisam de obscuras teorias econômicas para compreender as consequências da estratégia de matar o bandido-em-chefe. Quando chegaram as primeiras notícias de que Gilberto Rodríguez-Orijuela havia sido preso, pequenos varejistas no vilarejo remoto de Calamar deram vivas. "Graças à virgem abençoada!" exclamou uma senhora idosa, a um repórter norte-americano que lá estava.

"Espere só até que os EUA entendam o que isso realmente significa" - disse outro residente local. - "Mas... sabe-se lá! Vai-se ver talvez até aprovem, porque é realmente uma vitória da livre empresa! Nada de monopólios controlando o mercado e decidindo o quanto nós, os que plantamos, devemos receber. Aconteceu a mesma coisa quando eles mataram Pablo Escobar: agora, vai haver dinheiro para todos!" 

Aí está juízo e avaliação que se comprovaram absolutamente corretos. Quando os grandes cartéis foram desmontados, o negócio reverteu para grupos menores, e até mais violentos, que trataram de manter satisfatórias a produção e a distribuição, sobretudo porque mantinham laços com os grupos paramilitares fascistas antiguerrilhas aliados do governo da Colômbia e tacitamente apoiados pelos EUA.

Grande parte do trabalho de Rivolo sobre esse assunto ainda é material sigiloso. Não surpreende que seja, não apenas porque desmonta toda a argumentação a favor da "estratégia de assassinar o bandido-em-chefe" na guerra das drogas dos anos 1990s, mas também porque acerta o plexo da doutrina dos "alvos de alto valor" a serem assassinados, e que é obsessão do governo Obama, com suas campanhas de assassinatos com drones por todo o Oriente Médio Expandido e partes da África.

Rivolo pôde, na verdade, monitorar a aplicação da mesma estratégia de matar o bandido-em-chefe também na década seguinte. Em 2007, foi nomeado para uma pequena mas muito capacitada célula de inteligência ligada ao quartel-general em Bagdá do general Ray Odierno, o qual, naquele momento, era o comandante de operações dos EUA no Iraque. Enquanto lá esteve, Rivolo ocupou-se com examinar o que estava acontecendo no contexto da eliminação dos "indivíduos de alto valor" [ing. "high-value individuals," HVIs]. Construiu uma lista de 200 desses indivíduos-alvos de alto valor - líderes de insurgências locais -que haviam sido assassinados ou capturados entre junho e outubro de 2007. Em seguida, examinou o que acontecera depois da eliminação deles, nas localidades onde operavam.

Os resultados, ele descobriu quando pôs os números em gráficos, eram mensagem inequívoca, muito clara: a estratégia estava forçando novidades nas localidades, mas não as novidades desejadas. Era praticamente a mesma mensagem que já se inferira do uso da estratégia de matar o bandido-em-chefe na guerra às drogas dos anos 1990s. Matar os "indivíduos de alto valor" não fazia diminuir o número de ataques nem ajudava a salvar vidas norte-americanas: aumentava o número de ataques e de norte-americanos mortos. Cada assassinato de líder local, causava pandemônio. Num raio de três km da base de operações do alvo assassinado, os ataques, ao longo de 30 dias depois do assassinato aumentavam 40%. Num raio de cinco km, típica área de operações de célula insurgente, o aumento ainda era de 20%.

Resumindo suas conclusões para o general Odierno, Rivolo acrescentou uma enfática linha final: "Conclusão: a Estratégia de matar indivíduos de alto valor, nossa principal estratégia no Iraque, é contraproducente e tem de ser reavaliada."

Como no caso da "estratégia de matar o bandido-em-chefe", as causas desse resultado aparentemente contraintuitivo não são difíceis de compreender. Os comandantes mortos eram imediatamente substituídos, e os novos comandantes quase sempre eram mais jovens e mais agressivos que os antigos chefes, ansiosos para "fazer um nome" e demonstrar seu valor.

A pesquisa e as conclusões de Rivolo, que foram apresentadas em resumo para os mais altos níveis, não provocaram qualquer diferença. 

A estratégia de matar o bandido-em-chefe pode ter fracassado nas ruas das cidades dos EUA, mas com certeza foi retumbante sucesso no que tenha a ver com a prosperidade da DEA. O orçamento da agência, indicador seguro do status da agência, aumentou 240% durante os anos 1990s, de $654 milhões em 1990, para mais de $1,5 bilhão uma década adiante. 

Assim também, embora em escala muitíssimo maior, o assassinato de alvos de alto valor também fracassou e não gerou os resultados esperados no Oriente Médio Expandido, onde cresceu o recrutamento para o terror, multiplicado, agora, à sombra dos drones matadores. (A remoção de al-Baghdadi do controle diário do Estado Islâmico, por exemplo, em nada retardou ou reduziu as operações do grupo.) 

Mas a estratégia tem gerado, isso sim, inestimáveis proveitos para muita, muita gente, desde os fabricantes dos drones até os funcionários do contraterrorismo na CIA , que fracassaram tão espetacularmente na prevenção do 11/9 e agora fazem do assassinato a sua própria raison d'être.

Não surpreende que os sauditas queiram drones e mais drones - seguindo no Iêmen as nossas pegadas. Mundo, mundo, vasto mundo... Quem será o próximo? ******


28/5/2015, Andrew Cockburn,* TomDispatch - http://www.tomdispatch.com/blog/175988/

 


Andrew Cockburn é editor em Washington da Harper's Magazine. Irlandês, cobre questões de segurança nacional nos EUA há muitos anos. É autor de vários livros, co-produtor em 1997 do filme The Peacemaker e em 2009 de um documentário sobre a crise financeira, American CasinoSeu livro mais recente é Kill Chain: The Rise of the High-Tech Assassins.

 

Sobre o tema, ver também: 

COCKBURN, Andrew (2015) Kill Chain: The Rise of the High-Tech Assassins
 [As cadeias de matar: ascensão dos assassinos high-tech] 

 


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