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Todo feio e outros quasímodos

02.01.2017
 
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Todo feio e outros quasímodos

Jolivaldo Freitas

Se for olhar de perto, acusados e acusadores do Lava Jato são todos feios. Sócrates disse que a filosofia pode salvar nossa feiura interior. A feiura interna, nesse caso, precisa de muito mais que vã filosofia.  Os apelidos que caracterizavam cada ficha dos beneficiários da corrupção deslavada demonstram uma falta de respeito para com aqueles que se postavam como dignos de respeito. A submissão, a dependência, a humilhação, o vício e o hábito levaram ao escárnio. Ao nivelamento no limbo moral.

Feia, Feio, Campari, Piqui, Comuna, Decrépito, Moleza, Boca Mole, Bitelo, Caranguejo e tantos outros são alcunhas depreciativas. Dados a homens, personagens, personalidades, que na visão dos corruptores perderam o siso e se transformaram em meras figuras caricatas. Mas estes também, por sua vez, não levam a sério ou têm respeito por seus detratores, uma vez que no frigir de tudo temos o amalgamento.

Mas a questão política/policial que revelou os dichotes e as classificações insultuosas trouxe, um insight que passa desapercebido. O que é o feio, o gordo, o grotesco, o comprido, o baixo, o diferente nesta sociedade modernista em que as pessoas e as coisas são valorizadas ou caracterizadas, não pelos sentimentos bons ou pelas boas ações e pensamentos, mas sim pela estética?

Platão diz em sua famosa obra "República": "Dado que o belo se opõe ao feio, são duas coisas diferentes. (...) E isto é igualmente verdadeiro para o justo e para o injusto, para o bem e para o mal, e para todas as formas". O mundo se caracteriza, essencialmente hoje, pelo que é belo e pelo que é feio. Isso pode ser aplicado na dicotomia justiça e injustiça. O bem e o mal. Na ética dentro do conceito de "esculhambar" os beneficiários e sócios, as empresas, conforme os delatores, usaram a visão estética ou o perfil físico para caracterizar o pseudônimo.

Na vida como na arte o que é bonito atrai o que é feio tem a repulsa. Sendo o bonito o bom e o feio o mau. É o que se pode classificar como a absolutização do subjetivo. O mal pode estar representado na beleza. E feio é dessemelhante de ser ou ter espírito de fealdade ou desonra.

 

Na denominação dada aos políticos constantes da planilha dos delatores do Lava Jato, grassa a fealdade. Feios e bonitos são maus.  Lembrei de um colega boquirroto. Numa festa chamamos sua atenção para o anfitrião que tinha o rosto dessimétrico e o apelido de infância de "Todo feio". Explicamos que era um conceituado professor. Mas o docente que havia ganhado representatividade quando traçamos seu perfil profissional, passou a falar mal dos colegas e a fofocar. Perdeu o respeito de todos e meu colega chegou para ele e disse:

- Conheci uma pessoa muito parecida com o senhor.

Professor: "Qual o nome da pessoa? "

Respondeu: "O nome não sei. Mas o apelido é todo feio".

Tudo é mesmo uma questão de se fazer respeitar. Lembrando que Platão defendia a necessidade de noção da oposição estética e de pensamento dos indivíduos na sociedade. Mas o indivíduo vem se declinando até da ética. Ficando feio. Fica subentendido.

Escritor e jornalista

 


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