Pravda.ru

Mundo

Homenagem a Manuel Marulanda

01.07.2008
 
Pages: 123


Pelo contrário, Marulandaencaixou os melhores golpes dos presidentes contra-insurgentes de Washington e Bogotá e os devolveu em 100%. Por cada povoado arrasado, Marulanda recrutava dúzias de camponeses lutadores, enfurecidos e desamparados e treinava-os com suma paciência para que fossem quadros e comandantes. Mais que simples exército guerrilheiro, as FARC chegaram a ser um exército de todo o povo: um terço dos comandantes eram mulheres, mais de setenta por cento eram camponeses, se bem que se associaram intelectuais e profissionais, que foram treinados por quadros do movimento.


Marulanda foi um homem venerado por seu estilo de vida excepcionalmente simples: compartilhou a chuva torrencial sob cobertas de plástico. Milhões de camponeses o respeitavam profundamente, porém nunca praticou o culto à personalidade: era demasiado irreverente e modesto, preferia delegar as tarefas importantes a uma direcção colectiva, com muita autonomia regional e flexibilidade táctica. Aceitou um amplo leque de opiniões sobre tácticas, mesmo quando discordava profundamente delas. Em princípios dos 80, muitos quadros e líderes decidiram testar a via eleitoral, firmaram um "acordo de paz" com o presidente colombiano, criaram um partido – a União Patriótica – e fizeram eleger a numerosos presidentes de municipalidades e deputados. Obtiveram mesmo numerosos votos nas eleições presidenciais.


Marulanda não se opôs publicamente ao acordo, porém não abandonou as armas nem "baixou desde as montanhas às cidades". Muito mais lúcido que os profissionais e os sindicalistas que se postulavam nas eleições, Marulanda compreendia o carácter extremamente autoritário e brutal da oligarquia e seus políticos. Sabia que os governantes da Colômbia não aceitariam nunca uma reforma agrária justa só porque uns "poucos camponeses analfabetos os derrotarem nas urnas". Em 1987, mais de 5.000 membros da União Patriótica haviam sido assassinados pelos esquadrões da morte da oligarquia, entre eles três candidatos à presidência, uma dúzia de congressistas e mulheres e alcaides e vereadores. Os sobreviventes fugiram para a selva, reincorporaram-se à luta armada ou marcharam para o exílio.


Marulanda era um mestre na hora de romper os cercos e evitar as campanhas de aniquilação, sobretudo as que elaboraram os melhores e mais brilhantes estrategistas do centro de contra-insurgência dos Corpos Especiais do US Fort Bragg e da Escola das Américas. Em fins dos 90, as FARC haviam ampliado seu controle a mais da metade do país, bloqueavam auto-estradas e atacavam bases militares situadas a apenas 65 quilómetros da capital. Muito debilitado, o então presidente Pastraña terminou por aceitar negociações sérias de paz, nas quais as FARC exigiram uma zona desmilitarizada e um programa que incluía mudanças estruturais básicas no Estado, na economia e na sociedade.


Ao contrário das guerrilhas centro-americanas, que trocaram as armas por cargos eleitorais, antes de depor as suas Marulanda insistiu na redistribuição da terra, no desmantelamento dos esquadrões da morte, na destituição dos generais colombianos implicados nos massacres, numa economia mista baseada em boa medida na nacionalização dos sectores económicos estratégicos e no financiamento em grande escala dos camponeses para o desenvolvimento de colheitas alternativas à coca.


Em Washington, o presidente Clinton assistia histérico àquele espectáculo e opôs-se às negociações de paz, em especial ao programa de reformas, assim como aos debates públicos abertos e aos foros de debate organizados pelas FARC na zona desmilitarizada, aos quais assistiam numerosos membros da sociedade civil colombiana. A aceitação, por parte de Marulanda, do debate democrático, da desmilitarização e das mudanças estruturais desmascaram a mentira dos social-democratas ocidentais e latino-americanos e dos universitários de centro-esquerda que o acusaram de "militarista". Washington tratou de repetir o processo de paz centro-americano enganando os chefes das FARC com a promessa de cargos eleitorais e privilégios — desde que vendessem os camponeses e os colombianos pobres. Ao mesmo tempo, Clinton, com o apoio dos dois partidos do Congresso, fez aprovar um projecto de lei de apropriação de dois mil milhões de dólares para financiar o maior e mais sangrento programa de contra-insurgência desde a guerra da Indochina, denominado "Plano Colômbia". O presidente Pastraña deu por terminado, de forma abrupta, o processo de paz e enviou soldados à zona desmilitarizada a fim de que capturassem a direcção das FARC. Porém, quando estes chegaram, Marulanda e seus companheiros já se haviam ido.


Desde 2002 até agora, as FARC têm alternado os ataques ofensivos e as retiradas defensivas, em especial desde finais de 2006. Com um financiamento sem precedentes e um apoio tecnológico ultramoderno dos EUA, o novo presidente Álvaro Uribe – sócio de narcotraficantes e organizador de esquadrões da morte – adoptou uma política de terra queimada para enfurecer-se com o campo colombiano. Entre sua eleição em 2002 e sua reeleição em 2006, mais de 15 mil camponeses, sindicalistas, activistas de direitos humanos, jornalistas e outros críticos foram assassinados. Regiões inteiras do campo foram esvaziadas: da mesma maneira que na Operação Fénix americana no Vietname, a terra de cultivo foi contaminada com herbicidas tóxicos. Mais de

Pages: 123

Fotos popular