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Dia Internacional da Criança: Celebrar o quê?

01.06.2008
 
Dia Internacional da Criança: Celebrar o quê?

O dia 1 de Junho tem sido observado como Dia Internacional da Criança desde a Conferência Mundial pelo Bem-estar da Criança (Genebra) em 1925. Foi-lhe atribuído uma relevância especial pelo Bloco Soviético para promover programas internacionalistas de desenvolvimento e culturais. No dia 1 de Junho de 2008, deveríamos estar a celebrar, ou baixar as nossas cabaças em vergonha?

Se compararmos o dia 1 de Junho de 2008 com o dia 1 de Junho de 1908, vemos que muito foi conseguido. O trabalho infantil é uma excepção e não a regra, leis de protecção de crianças existem em todos os Estados da comunidade internacional e agências de protecção de crianças colocam-nas em vigor. As condições laborais são reguladas, a carga horária está controlada e a segurança no local de trabalho é monitorizada cuidadosamente.

Contudo, há muito mais para fazer. Num nível meramente político, como se pode celebrar este dia, ou qualquer outro, quando vivemos num mundo em que as grandes vitórias da Esquerda estão a ser atacadas diariamente? Como podemos celebrar quando serviços de cuidados de saúde, tratamento dental e educação para crianças, gratuitos, passam de direito à nascença para um luxo só para alguns, no espaço de poucos anos?

No mundo “desenvolvido” como se pode celebrar o Dia Internacional da Criança (DIC) quando um direito universal à educação é coisa do passado? Como se pode celebrar o Dia Internacional da Criança quando sabemos que o sistema económico em que a maioria delas nasce, tornará cada dia da vida delas numa luta pela sobrevivência?

Terão de lutar pelo direito a um plano de saúde, terão de lutar para terem acesso a uma educação universitária, terão de lutar para a pagar. Terão de lutar para um posto de trabalho, terão de lutar para o manter. Terão de lutar para guardar um depósito para a primeira casa, terão de lutar para pagar a hipoteca, cada vez mais alta. Terão de lutar contra contribuições fiscais cada vez maiores, recebendo cada vez menos em troca. Terão de lutar pelo direito de usar os recursos naturais da nossa Terra, agarrados nas mãos de um clique restrito de controladores capitalistas, enquanto o modelo económico permite que a especulação coloque os preços dos bens cada vez mais longe do alcance de todos.

Parece não ser razão celebrar o facto que mais crianças hoje em dia pertencem a este grupo, muito menos quanto examinamos as condições das que nascem nas nações “em vias de desenvolvimento”.

Enquanto se gastaram triliões de dólares nos últimos anos em actos de chacina, quanto foi gasto para alimentar as milhões de crianças etíopes e suas famílias que não são cobertos pelos programas de segurança de alimentação? Enquanto se gastam triliões de dólares em guerras, como podemos celebrar o DIC quando bastariam 50 milhões para alimentar todas as crianças necessitadas na Etiópia? Como podemos celebrar o DIC no Iraque, onde a invasão dos EUA e seus lacaios viu sistemas de abastecimento de água destruídos como alvos militares, ainda não reparados, o que significa que centenas de milhares, ou milhões, de crianças nem sequer água potável têm?

Como podemos celebrar o DIC quando setenta milhões de mulheres são vítimas da Mutilação Genital Feminina, praticada nelas enquanto eram crianças, e quando ainda é praticada em milhões de moças todos os anos? Como podemos celebrar este dia quando em muitos países africanos, somente 10 por cento das crianças tem uma plena noção do significado do VIH/SIDA?

E como podemos celebrar o DIC quando centenas de milhões de crianças na nossa comunidade internacional nem têm acesso a uma refeição na mesa todos os dias? No dia 1 de Junho de 2008, deveríamos estar a celebrar ou baixar as nossas cabaças em vergonha? Celebrar, o quê?

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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