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O Legado de Blair e a Mão da História

01.05.2007
 
Pages: 12
O Legado de Blair e a Mão da História

Uma figura gigante no palco mundial vai deixar o lugar depois de uma década no seu posto. Enquanto o Labour pergunta “E agora?” fazemos um balanço dos dez anos de Blair como Primeiro Ministro do Reino Unido, postulando qual será o legado provável deste líder histórico. O que significa uma década de Blairismo para o seu país e para a comunidade internacional?

Há precisamente dez anos hoje, Tony Blair foi eleito pelo povo do Reino Unido para liderá-los como seu Primeiro Ministro na primeira de três eleições sucessivas (1997, 2001 e 2005), um feito histórico para o Partido Trabalhista, colocando-o na história do seu partido e da política britânica como o Primeiro Ministro trabalhista que mais tempo serviu. Por alguma razão terá sido.

Tony Blair não foi, contudo, eleito para policiar o palco mundial, para interferir no tecido complexo da política inter-étnica nos Balcãs ou para colocar seu país no lado de um dos erros mais crassos na história das relações internacionais, o ataque ilegal contra o Iraque. Até que ponto sua política externa assombra seu legado como líder e quão confortante será a mão da história no seu ombro?

Política doméstica

Para julgar o Tony Blair de forma justa, seria lógico fazer uma comparação entre o Reino Unido em 2007 e o de 1997, depois de 18 anos de monetarismo fanático e fundamentalista, seguido por Margaret Thatcher e seus seguidores, terem rasgado o tecido social do país. Os hospitais enfrentavam uma crise financeira depois de décadas de falta de investimento, o sistema de educação estava a cair aos bocados, as ruas eram violentas, os caminhos-de-ferro, outrora o orgulho do país, eram perigosos de utilizar.

Que os três governos de Tony Blair conseguiram reverter a tendência sem aumentar significantemente a carga fiscal (embora alguns apontariam para impostos indirectos – os preços de gasolina e gasóleo são os mais altos na U.E. por exemplo) constituiria já um sucesso, enquanto injectar biliões de libras esterlinas nos serviços públicos, modernizando o SNS e reabilitanto a acomodação escolar só pode ser um importante passo em frente.

Contudo, apesar de uma década de um incremento em financiamento público, permanece muito a fazer em termos de providenciar um serviço através das neblinas de burocracia incorridas na manipulação da imagem política, ferramenta muito utilizada pelo New Labour. O comportamento anti-social parece ter substituído o hooliganismo thatcherista como a Grande Sindroma Britânica, uma visita à estação dos caminhos-de-ferroo de qualquer aldeia pacata mais parece uma ida à pocilga local e muitos cidadãos de terceira idade temem sair de casa porque podem ser espancados, insultados, ou pior. O tratamento nos hospitais é frequentemente mais perigoso do que ficar em casa devido à proliferação de infecções multi-resistentes, o SNS continua a estar bem por trás de muitos sistemas na U.E. e o sistema de educação teima em produzir resultados muito aquém de aqueles no outro lado do Canal da Mancha.

Em termos políticos, o círculo próximo a Tony Blair continuou o trabalho de Neil Kinnock e John Smith, derrotando a Militant Tendency que negou aos Trabalhistas qualquer hipótese de serem eleitos e refrescou a imagem do partido, rotulando-o New Labour. As suas qualidades como orador brilhante colocaram Tony Blair a frente de todos os seus pares políticos durante sua década no posto e terá sido ele, sem sobra de dúvida, o responsável pelo retorno dos Trabalhistas ao Governo depois de duas décadas na sombra, puxando o seu partido para o centro político onde residem as corações e mentes da maior parte do povo britânico, formando definitivamente um eixo para o debate de ideias com os outros partidos e desta forma reforçando a democracia no Reino Unido, que tanto sofreu sob a intolerável arrogância de Margaret Thatcher. Foi inquestionavelmente um feito notável que ninguém lhe poderá retirar e servirá para coroar o seu legado.

Outro feito de relevo colocará Tony Blair no livro de história como o Primeiro Ministro britânico que finalmente conseguiu resolver a questão irlandesa, escolhendo o caminho de um atitude inteligente e construtivo, e não uma posição antagonista e com pouca visão que viu prolongar a crise. O Acordo de Sexta-feira Santa de 1998 virou uma página tortuosa nas relações anglo-irlandesas e terminou décadas de violência.

Em termos económicos e sob a liderança de Tony Blair, pela primeira vez, o Labour ficou identificado como o partido de sucesso económico, embora fica para ver o peso que a política de contrair empréstimos coloca sobre os governos no futuro. No entanto, o facto de poder identificar o Labour com crescimento económico e não estagnação é já uma contribuição importante para a sua credibilidade.

Política externa

A História dirá se Kosovo e Iraque serão duas nuvens que assombrarão Tony Blair até ao fim dos seus dias, dois pesos que seu legado terá eternamente à volta do pescoço e uma mancha indelével no seu lugar nos anais da história, por bem intencionadas que as suas decisões possam ter sido.

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