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Em memória de J. K. Galbraith

01.05.2006
 
Pages: 12
Em memória de J. K. Galbraith

Luís de Carvalho evoca a importância da obra de um dos mais importantes economistas ‘burgueses’ norte-americanos para a reflexão e acção dos comunistas

Os comunistas não devem esquecer a obra de John Kenneth Galbraith, falecido no passado sábado, à beira da bela idade de 98 anos.

Poderá parecer um tanto estranho este apelo. Dado referir-se a alguém que foi não apenas um adepto do capitalismo, mas inclusive de alguma forma um dos seus salvadores, enquanto responsável pelo controlo de preços no governo norte-americano de Franklin Roosevelt, que enfrentou a pior crise económica que até hoje afectou o capitalismo: a grande depressão de 1929.

Porém, Galbraith, professor emérito da Universidade de Harvard, foi um dos primeiros e mais acérrimos críticos do neoliberalismo, bem desde o berço deste, às mãos do governo norte-americano de Ronald Reagan. J.K. apontou logo que, o que designava por “monetarismo” e “neo-conservadorismo económico”, “consegue travar a inflação”, mas gera um “tremendo desemprego, para além de levar à estagnação da capacidade de produção”.

É precisamente esse o resultado visível em Portugal e muito por esse mundo fora. Mas não será isto que dizem os economistas neoliberais, claro. Afinal, as doutrinas econômicas instituídas proclamam que “a normalidade económica reside no alto índice de emprego, senão mesmo no pleno emprego, e numa confiante taxa de expansão económica”. Os sacrifícios exigidos à classe trabalhadora pelos políticos e arautos neoliberais prometem sempre ser o melhor caminho para esta normalidade. Serão masoquistas, dado produzirem o oposto de tal promessa: recessão económica? Não. Porque, como assinalava Galbraith, “para muitos, a recessão é uma coisa tolerável e até mesmo agradável”.

Entre os beneficiados da recessão, o conselheiro e embaixador do presidente John F. Kennedy na Índia, reconhecia os gestores de empresas, a que chamava “moderna burocracia empresarial” ou “tecnoestrutura”, e a “grande classe que vive dos juros do dinheiro”. Para estes, “recessão significa preços estáveis ou até mais baixos e quase nenhuma redução nos rendimentos”.

Galbraith, autor de obras marcantes como O Novo Estado Industrial ou A Sociedade da Abundância, foi também um defensor da paz e crítico do complexo militar-industrial que domina hoje, cada vez mais, a política externa belicista dos EUA. E, apesar das discordâncias próprias de um economista defensor do capitalismo, não escondia um grande respeito e uma certa admiração por Karl Marx. Nomeadamente quando considerava a presença de Marx na história europeia um dos dois factores (o outro seria o factor histórico propriamente dito) que tornavam aos seus olhos as sociedades europeias social e politicamente mais integradas, radicalmente menos conflictuais do que a norte-americana.

Baseando-se numa observação simples, de que o capitalismo está em constante transformação, Galbraith dava um sinal de esperança, ao dizer das políticas neoliberais encetadas por Reagan: “considero-as temporárias à luz da história do capitalismo” e “acabarão por ser corrigidas”.

No fundo, com políticas como a mercantilização de serviços públicos básicos ou a precarização do emprego, o neoliberalismo representa um regresso às relações de poder entre classes do capitalismo do século XIX, que, reconhecia J.K., gerou uma “alienação maciça dos trabalhadores”, provocada pelo “enorme poder exercido pelos proprietários ou capitalistas, se comparado com o poder mínimo detido pelos trabalhadores”. Como não reconhecer no cenário de então aspectos marcantes da realidade que o neoliberalismo está a produzir hoje? Quando trabalhadores “eram despedidos sem qualquer compensação quando deixavam de ser necessários. As mulheres em especial eram as mais exploradas. Por outro lado, havia muitas tarefas essenciais - habitação, saúde, transporte – com que o capitalismo não se preocupava ou executava em termos incorrectos”...

Para Galbraith, o desenvolvimento do Estado-providência constituiu uma “evolução absolutamente indispensável ao salvamento do capitalismo”, sem a qual “o capitalismo não teria sobrevivido”.

É de reter a origem que JK reconhecia ao Estadoprovidência: nasceu na Alemanha em 1880, sob o governo reaccionário de Otto Bismarck, como consequência do “crescimento dos sindicatos” e “dos sentimentos revolucionários das classes trabalhadoras alemãs, as quais, em termos políticos, formavam talvez a comunidade operária mais evoluída do mundo dessa época”. Isto é um reconhecimento implícito da importância da luta dos trabalhadores pelos seus interesses de classe, da sua organização e intervenção sindical e política.

A obra deste antigo presidente da Associação Americana de Economia será assim uma referência na luta contra o neoliberalismo. E será particularmente nessa luta - tarefa central dos comunistas hoje - que merece a atenção dos comunistas.

Foi em luta contra o fascismo e o colonialismo que os comunistas conseguiram até hoje uma maior projecção. A estratégia que permitiu isso foi a da chamada “revolução democrática nacional”. Um programa de defesa da democracia, que não apontava para uma construção imediata do socialismo, mas que, ancorado na realidade existente, discernia a possibilidade de transformações reformadoras concretas, que constituiriam já de si um avanço sério, e abriam caminho a novos avanços no sentido do socialismo.

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