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Loach e Cantona

25.08.2017
 
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Aos 81 amos, Ken Loach é seguramente, o mais importante diretor de cinema inglês da atualidade No ano passado, ele ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, como filme Eu, Daniel Black, um emocionante relato de como a sociedade capitalista trata as pessoas mais velhas.

Dez anos antes ele já tinha sido laureado em Cannes com Ventos da Liberdade (Wind That Shakes the Barley),  certamente o mais importante relato no cinema da luta dos republicanos do IRA pela libertação da Irlanda, apresentados com seus belos ideais e suas profundas contradições.

Loach começou na televisão inglesa, a BBC, e se destacou como roteirista e diretor durante a década de 60. Mais tarde, já nos anos 80, se integrou a um grupo de diretores como Mike Leigh e Stephen Frears, ajudando a renovar o cinema inglês e dando aos seus filmes sempre um olhar crítico sobre o capitalismo.

É dessa época alguns dos seus melhores filmes, além Ventos da Liberdade, como Terra e Liberdade e Pão e Rosas.

Portanto, sua união com o ex-jogador de futebol Eric Cantona para realizar um filme produzido e interpretado pelo ex-atleta, causou algum tipo de espanto, mas o resultado final foi muito melhor do que poderia esperar.

Eric Cantona nasceu em Marseille em 1966 e começou bastante jovem no Auxerre, passando depois por vários clubes franceses - Marseille,Bordeaux, Montempellier e Nimes - onde sempre se destacou com um dos melhores atacantes do futebol europeu, mas também pelas suas brigas com dirigentes, técnicos, colegas e torcedores.

Na busca de novos ares, chegou à Inglaterra em 1992, começando a jogar pelo Leeds United, passando depois para Manchester United, onde atuou até 1997, sendo eleito como o jogador do século do famoso clube inglês.

Em 1997, num jogo contra o Cristal Palace, protagonizou um feito que acabou por abreviar sua carreira. Expulso do jogo mais uma vez, quando se retirava para o vestiário, se irritou com a vaia dos torcedores adversários, pulou a cerca que separava as arquibancadas do gramado e deu uma "voadora" e uma saraivada de socos sobre um dos espectadores, mais tarde identificado como um hooligan, membro do grupo de extrema direita National Front.

Foi suspenso do futebol por nove meses, o que impossibilitou sua convocação, até então tida como certa, para a seleção Francesa que ganharia a Copa do Mundo do ano seguinte.

Decepcionado, Cantona abandonou o futebol e iniciou uma carreira de ator, se transformando em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos. Em 2009, resolveu aplicar parte do dinheiro que tinha ganho na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo.

O filme À Procura de Eric (Lookink for Eric) conta a história de um carteiro inglês, torcedor apaixonado do Manchestes United, vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em "À Procura de Eric" um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona. Mesmo assim é um filme que vale a pena ser visto, principalmente quando o diretor consegue trazer para a tela o clima de companheirismo entre o carteiro e seus amigos e pela sempre presente ironia inglesa nos diálogos entre os personagens principais. Uma das cenas mais engraçadas do filme é quando um dos companheiros do carteiro estimula o grupo a realizar um exercício ensinado num dos muitos livros de auto-ajuda que costuma roubar das livrarias. Cada um dos integrantes do grupo deve se inspirar num personagem famoso, como Mandela, Fidel Castro, Gandhi, e, é claro, Eric Cantona.

Quando esteve no Brasil para promover o filme, Cantona teve que responder àquela inevitável pergunta - quem foi melhor, Pelé ou Maradona?  Como craque que foi, ele foi tirou de letra : "Pelé foi um atleta extraordinário, mas como pessoa capaz de assumir riscos para fazer valer suas posições, Maradona foi muito maior"

Mesmo não figurando entre os melhores filmes de Ken Loach vale a pena ver À Procura de Eric.
 
​Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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