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O campeonato da FIFA

25.06.2014
 
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No campeonato para a companhia mais malévola no mundo, a FIFA compete pelos lugares do topo. A FIFA não polui rios nem explora crianças ou financia golpes de Estado, mas as suas práticas nefastas são bem mais abrangentes e têm um alcance global. Vejamos:

Por: Ricardo Reis*

A FIFA relaciona-se com países soberanos de uma forma que faz o FMI parecer um anjinho de coro...

  

Os escândalos de corrupção na FIFA são constantes. Sempre que há um processo de escolha para o local do Campeonato do Mundo, alguns jornalistas tentam investigar quem são os delegados que votam nestas decisões e descobrem-se carecas que são maiores do que a de Pierluigi Collina. A atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar foi tão chocante que o muito polido Bill Clinton reagiu à notícia dando um soco num espelho.

O topo da gestão da FIFA tem as características de governance dos piores conselhos de administração do mundo. O processo de eleição e remoção do CEO está construído de tal forma que ele só sai praticamente se quiser. Por isso, o anterior presidente, João Havelange, ocupou o cargo durante 24 anos, retirando-se aos 82, e o atual presidente já ocupa o poleiro há 16. Em termos de remuneração, a FIFA simplesmente não revela quanto ganha o presidente, mas o edifício luxuoso em que está a sede da empresa ou a forma como viajam os seus executivos mostra que pelo menos em "despesas de representação" não há muita modéstia. Além disso, para uma organização sem fins lucrativos, cujos rendimentos ultrapassam os quatro mil milhões, a transparência das contas é abismal.

Depois de anunciado o local do campeonato, a FIFA trata as instituições locais com o desrespeito de um exército invasor. O governo do país lá engole quando a FIFA impõe que se revoguem leis do país, como a lei brasileira que proibia a venda de álcool nos estádios e que a FIFA obrigou a que fosse alterada, ou não fosse a Budweiser um patrocinador importante. A morosidade do sistema de justiça é um problema no mundo inteiro, e os juristas são lestos a defender a presunção de inocência e direitos dos acusados. Mas a FIFA impõe, e os juristas lá engolem, que se criem tribunais especiais durante o campeonato de forma a que um assaltante ou carteirista seja condenado em menos de 48 horas a anos de cadeia.

Por fim, a FIFA relaciona-se com países soberanos de uma forma que faz o FMI parecer um anjinho do coro. O FMI empresta o seu próprio dinheiro e é crucificado por insistir que o país ponha as contas públicas em ordem. A FIFA não põe um tostão e exige gastos sumptuosos estados e infraestruturas que levam um país à bancarrota. Em troca, a FIFA fica com todo o dinheiro da venda de bilhetes e dos direitos televisivos e ainda impõe que o país não cobre um cêntimo de impostos. Se alguém critica, lá vem Sepp Blatter ameaçar que retira a organização do Mundial.

O futebol traz muita alegria e, talvez por isso, estamos dispostos a esquecer que as pessoas que o gerem são pouco recomendáveis. Mas os protestos dos brasileiros nesta Copa são um exemplo para o resto do mundo. Quando se chega a um limite, o povo não se deixa iludir pelo circo.

*Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

 


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