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Desporto

Futebol: paixão e negócios

20.02.2011
 

por Marcos Coimbra

No dia 08.07 do ano passado escrevemos neste espaço artigo intitulado "O Grande Negócio do Futebol". Recordemos a declaração do editor da revista Quel Sport, Sr. Fabien Ollier: "Basta mergulhar na história das Copas do Mundo para que se perceba a longa infâmia política e a estratégia de alienação planetária". Acrescenta: "A expressão do capital mais predador está em ação: as multinacionais parceiras da FIFA e várias organizações mafiosas já chegaram à África do Sul para tirar os maiores benefícios possíveis. Um bom número de jornalistas que investigaram em profundidade o sistema FIFA destacou o modus operandi bastante sórdido da organização. Há uma boa base de indecência em fazer acreditar que a população se beneficiará com tudo isso: a limpeza das favelas, a expulsão de moradores, a renovação luxuosa de algumas áreas... Com a maioria da população vivendo com menos de dois euros por dia, esta exibição de riqueza é, no mínimo, questionável".


Voltamos ao assunto, devido ao grande impacto causado pela já esperada notícia da aposentadoria do excepcional jogador Ronaldo Fenômeno e sua enorme repercussão no Brasil e no mundo. Sempre admiramos seu talento, bem como torcemos pela sua recuperação e sucesso, porém não há como ignorar que os europeus não são ingênuos. Quando eles deixam um futebolista de ponta como Ronaldo, atualmente com 34 anos, sair de sua área é porque sabem que ele não será mais útil. Pelo menos, considerando o custo/benefício esperado pelos seus dirigentes/proprietários/empresários.


Os torcedores comuns, como nós, deixamo-nos levar pelo coração. Temos amor ao clube, orgulho de sua tradição, respeito pela camisa, alegria pela vitória e tristeza quando ocorre a derrota. É emocionante verificar as torcidas, embriagadas pela paixão, torcendo desesperadamente pelo sucesso do time que representa seu clube. Qualquer sacrifício é válido. Ingressos caros, disputados até a tapa, após horas de espera em filas quilométricas, horários impróprios de realização de jogos, para atender aos interesses das emissoras de TV, insegurança nos estádios e nos trajetos, agressões de adversários, despreparo da polícia. Enfim, tudo é tolerado em nome do sentimento de prazer em ver nosso time jogar. Somos ingênuos.


Do outro lado, no reverso da medalha, encontramos o negócio do futebol. Quantias astronômicas são diluídas em transações suspeitas. A regra é clara. Os grandes empresários trocam os valores surgidos no Brasil, garotos  ainda imberbes como os dois gêmeos do Fluminense já comprometidos com organizações estrangeiras, por migalhas,   antes de completar dezoito anos, por atletas  no ocaso de sua carreira, que somente possuem como destino, locais exóticos, como a Rússia, Kajaquistão ou outros semelhantes.


A imposição feita pelo setor externo de inúmeras exigências para autorizar a realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014 é impressionante. Dezenas de obras serão realizadas, muitas sem licitação, em várias cidades, envolvendo fortunas significativas, para possibilitar a realização do evento. A reforma do Maracanã vai sair, após várias modificações já realizadas, por cerca de um bilhão de reais, com acomodações bem mais modestas. Com este numerário um estádio maior e novo seria construído.  Em várias cidades obras faraônicas serão erigidas apenas para emprego na Copa, sem a menor possibilidade de apresentarem retorno ao longo do tempo. E a herança para as comunidades que hospedam a Copa é inexpressiva, a exemplo do Pan do Rio de Janeiro. Políticos, que já eram ricos, ficaram milionários, empresários aumentaram suas fortunas consideravelmente. E ninguém foi indiciado ou muito menos punido. O povo está preocupado com o desempenho da seleção e não com "pormenores". Como sempre é a disputa desleal entre a paixão e a cupidez.


E o pior é que existem recursos abundantes para atividades como esta, enquanto as autoridades alegam sua escassez para tentar justificar o não atendimento de necessidades coletivas urgentes, em especial na infra-estrutura econômico-social (educação, saúde, segurança, saneamento e outras). Por exemplo, a atual administração petista alega que não tem verba para aumentar o salário mínimo de R$ 545,00 para R$ 560,00, mas aumenta, sem discussão, a taxa de juros Selic em 0,5%, quando ela já é a maior, em termos reais ,do mundo, ocasionado um dispêndio adicional de cerca de R$ 10 bilhões por ano de pagamento de juros. Somente em 2010, o Brasil desperdiçou quase R$ 200 bilhões para atender aos juros da dívida interna.
Um exemplo típico deste procedimento é o do nosso clube de coração, o Fluminense do Rio de Janeiro. Contratamos no ano passado, Belletti (34 anos), Emerson (32 anos e Deco (33 anos). Nenhum deles está jogando no momento e  apenas Emerson foi de alguma utilidade para o time. Já vieram em final de carreira. E ganham fortunas mensais. Em compensação, até como pagamento de parte de suas contratações, o clube já se comprometeu com parte dos direitos federativos de vários craques promissores. E perdemos talentos como Alan, Maicon, Rafael, Marcelo, Rodolfo e tantos outros, por ninharia.


O embate é desleal. O lado ingênuo perde sempre para o outro, mais esperto e profissional. Antigamente, os dirigentes amadores do futebol nos clubes tiravam dinheiro do bolso para injetar nos seus times. Agora, a maioria entra sem um tostão e torna-se rica. E os clubes ficam cada vez mais devedores. E os melhores jogadores brasileiros atuam no exterior. Aqui ficam apenas os regulares, os jovens que irão embora logo e os veteranos em final de carreira, que voltam para acrescentar mais alguma renda à riqueza acumulada e usufruir das delícias do nosso clima e da nossa terra. Até quando vigorará esta perversa situação?

Prof. Marcos Coimbra


Conselheiro Diretor do CEBRES, Titular da Academia Brasileira de Defesa e da Academia Nacional de Economia e Autor do livro Brasil Soberano

mcoimbra@antares.co.br
www.brasilsoberano.com.br

http://www.guiasaojose.com.br/web/coluna_ler.asp?id=4971

 


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