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Comentário: Portugal 0 Albânia 0

16.10.2008
 
Comentário: Portugal 0 Albânia 0

As manchetes em Portugal dizem tudo: Escândalo, (grande) desilusão, vergonha, na sequência dos "erros de Queiroz", que criaram uma "situação complicada." Mas se a reacção não fosse tão previsível, seria risível.

Para começar, os portugueses têm de aprender, de uma vez para sempre, o que significa jogar em equipa, e isso passa por fora do relvado principalmente. Se os jogadores portugueses são louvados pela sua "técnica," então não surpreende que o brilhantismo dos lances individuais encantam mais do que desiludam e além disso, quantas equipas não quereriam um Cristiano Ronaldo, Quaresma, Nani, Nuno Gomes, Simão, Quaresma ou Deco, não desfazendo dos outros?

Verdade, Portugal sem Deco é como cozido à portuguesa sem enchidos, arroz malandro sem tomates, dobradinha sem tripas; é ele que forma o jogo em equipa e por isso se chama o playmaker. Deus, há só um.

Para aqueles que acusam os portugueses de não saberem jogar em equipa, se bem que seria verdade para a maioria das situações pelo país fora (nas instituições e firmas), a equipa portuguesa ontem chegou à baliza da Albânia inúmeras vezes.

Embora os espectadores no jogo foram louvados por alguns comentaristas, também é verdade que houve assobios e vaias, factor constante na equação que constitui um jogo de futebol em Portugal, onde a equipa puxa pelo público e não o contrário. Por isso, o público não joga em equipa com os jogadores, como deve fazer - será que Portugal seria o único país onde seria melhor jogar atrás de portas fechadas?

Ainda relativamente a saber ou não jogar em equipa, se vê claramente na manhã seguinte a um pequeno desaire, na aparecimento das "facas" para espetar nas costas de Carlos Queiroz, que os meios de comunicação acham mais fácil criticar e fomentar um fervor entre os adeptos contra o treinador (e a equipa) do que fazer uma análise equilibrada.

Em segundo lugar, entre os muitos clichés no futebol, sobressaem dois: "futebol é assim" e "futebol é uma caixinha de surpresas". Há dias ou noites em que a bola simplesmente não entra, por variadíssimas razões - por falta de pontaria, falta de pensamento, por sorte, ou, porquê não dizê-lo, porque a baliza de Arjan Beqai tinha sido visitada pela bruxa antes do jogo, além do facto que a defesa albanesa e especialmente o guardião, jogaram o jogo das suas vidas?

Se tivéssemos um pouco de desportivismo, diríamos que futebol tem duas equipas e o que importa é um bom jogo de futebol e muita emoção. Pelo menos a última não faltou ontem à noite em Braga. Se tivéssemos um pouco de desportivismo, diríamos que embora tivesse sorte, parabéns à Albânia. E se tivéssemos um pouco de desportivismo, nem seria necessário comentar o penalti por marcar (sobre Ronaldo) e a bola no poste (Hugo Almeida), porque também seria de referir que a Albânia jogou com dez homens a partir do minuto 42.

Se aqueles que falam amiúde soubessem um pouco de futebol, entenderiam que existem situações em que, nem que se jogasse durante seis horas, a bola simplesmente não vai entrar mas na noite anterior ou na seguinte, o resultado seria 8 a 0. E se soubessem um pouco de futebol, saberiam que a partir da expulsão de Admir Teli, as coisas iriam complicar-se ainda mais para Portugal.

Em terceiro lugar, a qualificação para a fase final da Taça FIFA não se trata de uma eliminatória mas sim, de uma fase de classificação em grupos. No grupo 1, o de Portugal, existem seis equipas e 10 jogos. Tendo completado 4 jogos, com uma só derrota, Portugal tem 6 pela frente, portanto 18 pontos em jogo, e neste momento fica apenas dois pontos atrás do líder do grupo, Dinamarca. Este último país e a Suécia têm ambos um jogo "na mão" mas isso só vale se ganharem os pontos.

Por isso que tal os portugueses tivessem um pouco mais de fé na sua equipa, que tal tivessem um pouco mais respeito pelo seu treinador, que merece, especialmente pelo que fez pelo futebol nacional (já esquecido, aparentemente...mais vale dar-lhe um pontapé nos dentes e uma facada nas costas) e que tal demonstrar uma módica quantia de civismo, de confiança, de desportivismo e aprender o prazer de jogar em equipa?

Não se pode acreditar que o povo português seja incapaz disso.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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