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No que ainda somos melhores que elas

07.03.2018
 
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No que ainda somos melhores que elas

Enquanto você não enxergar uma menina correndo atrás dela na praça ou não ouvir do seu amigo que a filha não larga dela nem na hora de dormir, fique sabendo que ainda guardamos uma vantagem sobre as mulheres, talvez a última que reste para nós homens.


Estou falando da bola
Nas primeiras lembranças da infância ele era de pano, não picava (mais adiante fiquei sabendo que a palavra correta era quicar e não picar) porque era feita com uma velha meia cheia de trapos.

Mais adiante, ela se tornou de couro, mais ainda com um tento para encher de ar a sua câmara de borracha, com uma costura lateral que afetava a sua condição de esfera perfeita.
Finalmente, o tento se foi, e ela surgiu reluzente de couro, levemente amarelada e dividida por categorias, cujo top era a bola de couro Cauduro, número 5.


No Natal era o seu presente sempre esperado e nunca negado pelo pai, mesmo que fosse pobre como o meu.


Em torno dela se fizeram amizades e se criaram inimigos.


Durante algum tempo, já na quase adolescência, apareceu a versão de borracha. Eram pequenas e moles, ideais para as grandes competições de "balãozinho", que organizávamos periodicamente.


Encostada mão esquerda numa parede para ajudar no equilíbrio, o pé direito fazia a bola de borracha saltar infinitamente. No meu caso, por uma razão estranha, atingia quase a perfeição, tendo no pé direito um velho chinelo pendurado. A disputa se acirrava quando passávamos dos 100 balõezinhos sem deixar a bola cair.


E os clubes de bairro que nasciam e morriam deixando poucas histórias, tinham sempre o mesmo ritual: organizávamos um "livro de ouro" para buscar alguns trocados que permitiam comprar um terno de camisetas e uma "bola oficial" para o jogo de estréia.


Depois, mais adiante, nos tornamos advogados, médicos, jornalistas, comerciantes, o sei lá o quê e nos afastamos do contato com a bola.


Nos contentamos em vê-la manejada com muito mais brilho por um Messi, um Neymar, um D´ale Alessandro, mas basta vê-la correndo por uma praça, que nos aprontamos lépidos e fagueiros para nos aproximar do velho amor.


Se você duvida, solte uma delas em qualquer lugar, na praia, na praça ou mesmo na rua, e logo vão surgir dezenas de homens dispostos a dominá-la: senhores de gravata, de pasta de trabalho e até mesmo aquele velho na cadeira de rodas, todos fascinados pelo seu encanto.
Armando Nogueira, um jornalista que muito falou sobre ela, dizia que ela era democrática, porque era uma esfera perfeita e rolava para todos.


Qualquer hora dessas, vamos ver aquela gorda patusca (lembrança do Nelson Rodrigues, outro que mais que o Fluminense, amava a bola), aquela moça cheia de tatuagens no braço ou aquela dondoca da coluna social, batendo uma bolinha num campinho de bairro.


Então, nós homens vamos nos dar conta que perdemos a única vantagem que ainda tínhamos sobre elas e não teremos mais para dizer que numa coisa somos melhores do que elas, a nossa relação amorosa com a bola.


Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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