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O gol que faltou para Valtão ser feliz mais uma vez

02.08.2017
 
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Duas horas antes de começar o jogo o Maracanã já estava cheio. O Flamengo iria decidir o Campeonato Brasileiro com o Internacional e a torcida chegara cedo, certa de que o título seria conquistado naquela tarde.  

Na semana anterior, o Flamengo ganhara do Inter por 1 a zero em Porto Alegre e agora jogava pelo empate. Se perdesse,  pelo mesmo placar, ainda teria direito a uma prorrogação. Além disso, Antônio Carlos e Zezé, os dois melhores jogadores do Inter, expulsos em Porto Alegre, não jogariam. O Inter armara um time de emergência e os jogadores foram instruídos a jogar na defesa para evitar um vexame.

Até mesmo Valtão fora convocado para ir ao Rio. Ele não jogara nenhuma partida do Brasileirão. Há muito tempo ele era um "come-e-dorme" no clube. Nunca fôra um craque, mas todos os técnicos acabavam por aproveitá-lo no time, até a chegada de Nelson Dias que não lhe deu nenhuma chance no campeonato.

- O futebol é para jogadores polivalentes e o Valtão é um atacante que só joga na área e nesta função ele já não tem mais condições físicas ideais.

Valtão era chamado de O Velho pelos seus companheiros de time. Aos 35 anos, ele estava conformado com a sua breve aposentadoria como boleiro. Sua esperança era terminar o contrato com o Inter e conseguir um lugar como treinador nas divisões inferiores. O presidente lhe prometera um lugar há alguns meses atrás, mas ultimamente não queria falar mais no assunto.

Quando viu seu nome relacionado para viajar para o Rio, levou um susto.

- É só para compor o banco, Nelson Dias explicou aos jornalistas que também ficaram surpresos com a informação.

Agora, sentado no banco de reservas ele via um estádio vestido totalmente de vermelho e negro. O jogo começara há 15 minutos e só Flamengo atacava. O sufoco era total. Romualdo já havia chutado uma bola na trave, Preto defendera uns três chutes que os reporters atrás do gol classificaram como impossíveis e Lúcio salvara de cabeça na linha do gol. O silêncio no túnel do Inter era total. A qualquer momento o Flamengo marcaria o seu gol. O tempo, porém, ia passando e o gol não saia. A partir dos 30 minutos, o Inter conseguiu equilibrar a partida e o primeiro tempo terminou em zero.

No intervalo, o treinador fez um discurso emocionado no vestiário. Era preciso resistir de qualquer jeito. Quando tomasse a bola, o time deveria jogar na frente para o Ernani, que partiria em velocidade pela esquerda e cruzaria para chegada de Anderson pelo meio. Esta era a única jogada prevista pelo técnico. O Flamengo vai aumentar o sufoco. Todo mundo fica marcando. Só sobra o Ernane para iniciar o contra-ataque. Quando ele pegar na bola, o Anderson se manda pra frente.

Quando o Inter subiu para o gramado, o Flamengo já estava lá. O jogo recomeçou e o Flamengo se mandou todo pra frente. Ninguém queria saber de empate entre os cariocas. Até os 10 minutos, a bola não saíra ainda do campo do Inter. Aos 12, finalmente sobrou uma bola para o Ernane. Ele se lançou rápido a frente, como queria o treinador, mas foi parado no meio-do-campo por uma falta do Baiano.

Ernani ficou rolando no campo, mas ninguém levou muito a sério. Os jogadores costumavam fazer esta encenação para jogar o juiz contra o adversário. Quando o massagista Bica, lá do meio do campo, fez o clássico sinal de troca em direção à casamata do Inter, uma sensação de desolação percorreu todo o banco. Lá se ia a única opção de ataque do Inter. Fernando entrou no lugar de Ernane com a instrução de reforçar a defesa.

- Quando der, chuta forte para o Anderson lá na frente.

Com todo o mundo na defesa, o Inter resistia. Aos 30 minutos, uma chuva fina começou a cair sobre o Maracanã. O Flamengo continuava atacando e o Inter defendendo. Aos 38, Fabiano apanhou a bola do meio do campo e arriscou um chute em direção ao gol. A bola saiu alta e com pouca força. Cleber, o goleiro do Flamengo, estava adiantado, quase no risco da grande área e para apressar a volta da bola ao seu ataque, tentou matá-la no peito. Molhada pela chuva, ela escorregou pelo seu corpo, bateu no ombro e ganhou força suficiente para ir morrendo no fundo das redes.

O estádio emudeceu. Bastava o Inter resistir mais 7 minutos para o jogo ir para a prorrogação. Mal o Flamengo deu reinício ao jogo e Anderson estava no chão contorcendo-se em dores. Quando o carro-maca o retirou do campo, o médico foi logo avisando - "não dá mais pra ele".

- Valtão, vai lá e ajuda a segurar o jogo.

Quando ouviu o técnico falando, achou que havia um engano. Era mesmo para entrar?

- É tu mesmo. Vamos ver se toda a tua experiência serve pra alguma coisa. Vamos catimbar tudo que der.

Número 14 às costas, Valtão entrou para ser o único atacante do time. Cinco minutos depois, tocou na bola pela primeira vez. Recebeu de costas para o zagueiro, protegeu a bola com a perna esquerda e fez uma meia-volta para a direita. Quando tentou sair, a bola já tinha desaparecido do seu controle. O zagueiro a tinha tomado e partia com ela para o ataque. 

Alguns minutos mais e o jogo terminava. Os times nem saíram de campo. Treinadores, massagistas e médicos entraram para atender os jogadores estendidos pelo chão próximos à borda do gramado. Alguns recebiam massagens, outros eram abanados com grandes toalhas. Valtão, apesar de ter jogado poucos minutos, estava ofegante. O treinador parecia arrependido da escalação. Durante os 10 minutos de descanso, antes de começar a prorrogação, não lhe dirigiu nem uma vez a palavra.

O juiz chamou os jogadores para o meio-do-campo. Seriam mais 30 minutos. Se o empate persistisse, a decisão iria para os pênaltis. Isso era tudo que o Inter queria: levar os jogos para os pênaltis.

-   Eles não vão aguentar a pressão da torcida. O Preto é bom pegador de pênaltis e com sorte a gente pode ganhar.

Foi a última frase do treinador antes da bola começar a rolar novamente. O Flamengo estava todo em cima, querendo decidir logo o jogo. Aos 5 minutos, a trave já tinha salvado duas vezes o Inter. Mesmo assim, o primeiro tempo da prorrogação terminou empatado. Depois de trocarem de lado, o jogo recomeçou e o Flamengo continuou atacando. Quando o jogo se aproximava do final, Lúcio deu um bico pra frente. No círculo central, Valtão teve dificuldades em controlar a bola no peito, mas mesmo assim conseguiu colocá-la no chão. Num primeiro momento, pensou em atrasar a bola para o Fernando, lembrando o que havia pedido o técnico

- Vamos reter o jogo tudo que der - mas em seguida se deu conta que esta era a chance de sua vida. Entre ele e o gol do Flamengo, havia apenas um zagueiro e lá no fundo, o goleiro Cleber. O zagueiro já começara a se movimentar em sua direção e ele precisa agir rapidamente. Pelo canto do olho, percebeu que todas as peças começavam a se movimentar no campo. Os jogadores do Flamengo tratavam de recuar e os do Inter a avançar. Se não fosse rápido, não teria mais espaço. Jogou a bola para esquerda, uns 3 metros em sua frente, e arrancou com todas as forças que ainda tinha, tentando se desviar do zagueiro, um negro forte de quase 2 metros de altura que chegava resfolegando pela direita.

Na sua cabeça, Valtão viu antecipadamente, como se fosse um filme em fast-motion, tudo que tinha que fazer. Com o lado de fora do pé dire ito, ele deu um pequeno toque na bola, mudando a sua direção para dentro do campo. O zagueiro, que se jogara num carrinho, para pegar a bola, ou, no mínimo, as pernas de Valtão, passou deslizando a centímetros de sua frente, arrancando a grama do campo.

Valtão tocou a bola para frente. Cleber havia saído do gol para diminuir o ângulo do chute e ele deveria tomar uma decisão rapidamente: ou chutava agora, buscando o canto direito, ou driblava o goleiro e ficava livre para entrar com bola e tudo. Valtão inclinou o corpo para a esquerda, quase rezando para que o Cleber acompanhasse seu movimento e jogou a bola para a direita. Num piscar de olhos, estava totalmente livre. A enorme goleira aberta a sua frente. Bastava dar um toque na bola e o Inter seria campeão brasileiro com um gol seu na prorrogação. À noite, o seu gol estaria em todos os programas de televisão. Amanh&atilde ;, seria capa dos jornais. Valtão, o herói do campeonato.

A Diretoria iria querer renovar o seu contrato, certamente com um bom aumento de salário. Ergueu a perna direita para o chute final, mas ela não chegou na bola. Alguém a agarrava com muita força. Valtão forçou para se livrar, mas sentiu que estava caindo. A bola quase parada a sua frente. Um zagueiro do Flamengo entrou correndo e a chutou para longe. O Cleber ainda estava enrolado em sua perna, quando o juiz chegou, marcando pênalti e mostrando o cartão vermelho para o goleiro.

Deitado no chão, Valtão se deu conta que não seria mais o herói do campeonato. Fabiano iria bater o pênalti e se fizesse o gol, receberia todos os abraços.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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