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Quem assistirá ao Pan 2007?

01.07.2007
 
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Quem assistirá ao Pan 2007?

"Durante muitos anos, exigimos um basta! Cansamos de ver bandido pé-de-chinelo, peito de fora e bermudão surrado, entrando em camburão da polícia. Repetimos exaustivamente a frase 'No Brasil só se prende ladrão de galinha'. Descobrimos que, do tráfico de drogas, só se prende os chefões do terceiro escalão, aqueles que têm condições de melhorar a renda de policiais e agentes carcerários. São os que mantêm o tráfico nos presídios; consumidores em potencial, pagam bem por um celular e pelas visitas íntimas. A raia miudinha é massacrada, não tem direito a prisão, vai direto pro cemitério. Exceto alguns escolhidos para servir como material de referência da produtividade das delegacias e de laranja nos presídios."

por Fernando Soares Campos

Recentemente, em artigo intitulado "Quem nasceu primeiro, a corrupção ou o corrupto?", fiz esta observação:

"Durante muitos anos, exigimos um basta! Cansamos de ver bandido pé-de-chinelo, peito de fora e bermudão surrado, entrando em camburão da polícia. Repetimos exaustivamente a frase 'No Brasil só se prende ladrão de galinha'. Descobrimos que, do tráfico de drogas, só se prende os chefões do terceiro escalão, aqueles que têm condições de melhorar a renda de policiais e agentes carcerários. São os que mantêm o tráfico nos presídios; consumidores em potencial, pagam bem por um celular e pelas visitas íntimas. A raia miudinha é massacrada, não tem direito a prisão, vai direto pro cemitério. Exceto alguns escolhidos para servir como material de referência da produtividade das delegacias e de laranja nos presídios."

Quarta-feira passada, dia 27, as polícias militar e civil do Estado do Rio de Janeiro, com o apoio da Força Nacional de Segurança Pública, realizaram operação de guerra no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas situadas na Zona Norte da cidade.

No mesmo dia da megaoperação policial que mobilizou 1.350 homens e carros de combate (caveirões), os noticiários de TV e edições on line de grandes jornais, ainda no período da tarde, informavam que as 19 pessoas mortas durante o conflito eram bandidos, traficantes que controlam o tráfico de drogas naquela área. Delegados que participam da operação declararam, e os jornais notificaram, que os mortos no confronto poderiam chegar a 22, provavelmente acreditando-se que alguns cadáveres ainda não teriam sido resgatados.

Por que, nessas ocasiões, a imprensa avia-se chamando, em garrafais manchetes, para o fato de que todos os mortos seriam bandidos? Certamente para "confortar" mentes e corações das pessoas que estão distantes do inferno. De bandido ninguém tem dó.

O Complexo do Alemão é um conjunto de favelas localizadas entre os bairros da Penha e Bonsucesso, atravessando outras comunidades (Ramos, Olaria e Inhaúma), e tem uma população de aproximadamente 150 mil moradores, aglomerados em pequenas e precárias habitações. Praticamente a totalidade dos moradores é formada por trabalhadores da construção civil, ambulantes, empregadas domésticas, feirantes, porteiros, faxineiras, camelôs e empregados do comércio da região. Milhares desses trabalhadores são jovens negros, muitos morando em barracos de um só cômodo.

No momento de uma investida desse porte contra a organização criminosa local (um grupo mínimo, fortemente armado), dezenas de pessoas são gravemente feridas. Aquelas que conseguem chegar à base do morro e receber socorro para atendimento hospitalar podem ser identificadas. Naquele dia, além dos 19 mortos, mais de dez pessoas ficaram feridas e foram socorridas. Nas últimas semanas, as investidas da polícia fizeram mais de 50 cadáveres. Todos bandidos? E, se eram realmente bandidos, de que forma tombaram? Todos enfrentando as forças policiais? Como é "ingênua" essa imprensa! Como devem ser "ingênuos" os leitores dessa imprensa!

Os órgãos de imprensa teriam obrigação de noticiar essas informações com reservas. Deveriam, no primeiro momento, falar apenas do número de vítimas. Deveriam se negar a aceitar a informação unilateral de que todos os mortos no confronto seriam "bandidos"; mesmo porque é praticamente impossível identificar todos os mortos a poucas horas do início da investida policial, no momento em que o conflito ainda está se desenvolvendo na área.

No dia 29, o Portal Estadão noticiou:

"RIO - O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), que voltou da Europa na quinta, elogiou, nesta sexta-feira, 29, a megaoperação que envolveu 1.350 policiais no Complexo do Alemão na última quarta-feira, 27, e deixou 19 mortos e nove feridos.

Cabral disse confiar nas informações da polícia de que os 19 mortos no conflito eram traficantes que enfrentaram os policiais. Denúncias recebidas pela Organização dos Advogados do Brasil (OAB) indicam que pelo menos 11 dos 19 mortos seriam moradores que não teriam ligação com o tráfico de drogas."

É sempre assim: poucos dias depois desse tipo de operação policial, quando a comunidade chora e enterra seus mortos, inicia-se a polêmica: um lado garante que os mortos eram todos "bandidos"; entidades civis e militantes pela defesa dos direitos humanos acusam o massacre de inocentes. Mais algumas semanas, e tudo estará esquecido.

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