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Portugal: Greve de fome de reclusa brasileira

31.01.2009
 
Portugal: Greve de fome de reclusa brasileira

Assunto: Greve de fome de reclusa brasileira

Cecília de Menezes

Ala 3 – piso 1 – n.º 7

Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo

Apartado 5046

Rua Gonçalves Zarco

4456-901 Perafita ( Matosinhos )

(Carta original, manuscrita e assinada,)

"21 de Janeiro de 2009

Ex.mo Senhor

(…). O que deu origem a que tomasse esta atitude é de facto o cansaço e a impotência que sinto perante tanta falta de respeito pela vida humana, humilhações, rituais de obediência que são um suicídio à minha auto-estima. Como sabe, já fui transferida de Tires por motivos relacionados com o sistema prisional – já vim rotulada; quando cá cheguei, já não era bem vinda.

Cheguei a 11 de Julho e desde essa data que negaram me entregar meus pertences pessoais "quase todos". A chefia não gostou das minhas botas italianas, tenho 7 pares na arrecadação se estragando. Disse-me um sub - chefe que "mesmo que a directora autorize não lhe dou".Quis mostrar a sua autoridade de forma espalhafatosa e leviana. Verifiquei que todas as reclusas usavam calçado igual ao meu. Insisti que me dessem as botas, então a chefia apresentou não sei o quê à direcção, e a 4 de Agosto apareceu um aviso assinado pela chefia, a proibir os meus saltos, ráfias, enfim, tudo relacionado com meu calçado, até o pormenor da ráfia. Todas as reclusas continuaram a usar – apenas eu não podia. Falei com a senhora directora que me falou não entender o motivo, porque afinal eu cheguei antes de ser tomada essa atitude. Eu vim de outro E. P. e lá usei durante dois anos este calçado. Aqui não tenho visitas, nem acesso às minhas roupas que deixei no Rio de Janeiro onde resido. A sra. directora é de difícil acesso, e embora a única vez que teve disponibilidade de me atender, se mostrasse uma pessoa muito humana, e me tivesse dito que ia ver o que se passava com os meus pertences pessoais, continuo sem uma resposta dela.

Estamos em Janeiro e continuo com sandálias de Verão, com os pés gelados, até já apanhei um resfriado, fiquei com febre, e tive de tomar medicação que só prejudica a anemia que tenho desde que tive a hemorragia gástrica em Tires. Passo o tempo na cama para não gelar os pés.

A 30 de Dezembro fui transferida da ala 4 - para a ala 3 – Porquê? porque um grupo de reclusas quiseram espancar uma reclusa e eu a defendi sempre pois não concordo com cenas de pancadaria, racismo ou discriminação. Então me mudaram de ala, e no dia seguinte acabaram por a espancar. Ora se lhe permitem este tipo de comportamento, um dia poderei ser eu ! ... fiquei muito revoltada. Também sofro de crises de pânico com as algemas, e em Tires a psiquiatra passou uma declaração para eu não ser algemada. E nunca me algemaram enquanto lá estive, 2 anos e 4 meses. Cheguei aqui, fiz uma exposição à sra. directora e à psiquiatra. Mas os clínicos não estão aqui para defender os reclusos, mas sim o E. P.. No dia 16 de Outubro saí ao hospital do Porto por causa do acidente que sofri na carrinha celular; e apesar da exposição que tinha feito, eu fui algemada. Ao entrar na carrinha, comecei com a crise de pânico, tiraram-me da carrinha e algemas, chamaram um enfermeiro que declarou que eu podia ser algemada e que não sofria de nada. Voltei a entrar na carrinha e tive novamente a crise, voltaram novamente para trás, e decidiram mandar um guarda, e uma guarda no banco atrás comigo, e eu no meio. Fui todo o caminho a gritar, um sofrimento horrível. Cheguei ao Porto andei por uma avenida em frente ao hospital, atravessei a avenida, algemada e chorando, entrei na sala de espera, continuei em pânico e algemada, claro no meio de crianças e outras pacientes que lá se encontravam. Uma tortura do tempo do Estado Novo, o pior é que houve um atraso de 1 hora e 30 m, e além do que sofri, ainda levei uma repreensão, imagine! Tudo isto porque a chefia dá informação errada à directora. Aqui quem não cai em graça com a chefia, tem a vida complicada. Isto são apenas pequenos relatos da minha revolta, pois continuo com os pés gelados, sinto-me discriminada e humilhada.

Necessito que venha aqui alguém dos direitos humanos para poder confirmar a veracidade da situação, bem como de outras situações que necessito expor. Caso necessite poderei lhe relatar mais situações.

Atenciosamente,

Cecília Menezes"

ACED


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