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O futuro da CPLP

29.01.2015
 
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SÃO PAULO - Nascida para superar os traumas de uma guerra colonial que durou de 1961 a 1974 e reaproximar os povos irmanados pelo mesmo idioma, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), criada em 17 de julho de 1996, foi viabilizada mesmo por empenho do governo brasileiro, especialmente pelo poder aglutinador do embaixador do Brasil em Lisboa ao tempo do governo Itamar Franco, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), que fora ministro da Cultura do governo José Sarney.

Milton Lourenço (*)     

Embora seja definida como instrumento de defesa da língua portuguesa e "uma comunhão de afetos" pelo ex-embaixador português Adriano Moreira, 91 anos, especialista em relações internacionais e outro grande batalhador pela criação da entidade, a CPLP começou a se transformar em bloco econômico - aliás, o único que partiu da identidade linguística entre os seus aderentes -, trilhando um caminho natural no mundo de hoje, ainda que tivesse de ferir alguns de seus princípios.

Foi o caso da inclusão da Guiné Equatorial no bloco, formalizada em julho de 2014, depois de um processo de amadurecimento que levou dez anos e culminou com a adoção do Português pela nação africana como uma de suas línguas oficiais e a abolição da pena de morte no país. É de se lembrar que a Guiné Equatorial foi colônia portuguesa entre os séculos XV e XVIII, mas a presença hoje da língua portuguesa em seu território é restrita.  E que o seu atual presidente está no poder desde 1979. Há, porém, um argumento "mais prático" que justificaria essa inclusão: depois de Angola, Portugal e Moçambique, a Guiné Equatorial, dentro da CPLP, é o quarto maior comprador de produtos brasileiros (US$ 56 milhões em 2014, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior - MDIC).

Apesar das queixas de puristas como o professor Adriano Moreira, ao que parece, a CPLP hoje irá para onde o Brasil for - afinal, se a comunidade reúne a grosso modo 250 milhões de lusofalantes, 201 milhões estão em território brasileiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sem contar que o Brasil é o único país emergente da CPLP, condição que levou o economista Jim O´Neill, do grupo Goldman Sachs, a incluí-lo ao lado de Rússia, Índia e China para formar o acrônimo Bric, hoje conhecido como Brics, depois da inclusão da África do Sul.

Não é de se admirar, portanto, que se desenvolvam negociações para que Japão, Índia, a Região Administrativa Especial de Macau (China) e mais alguns países africanos passem a integrar a CPLP, a partir do pressuposto de que nessas nações existem comunidades de língua portuguesa. Na União Indiana, por exemplo, estão Goa, Damão e Diu, antigas possessões portuguesas anexadas à força em 1961, depois de mais de 450 anos de domínio luso, assim como no Senegal, que já está na CPLP como observador associado, fica a província da Casamansa, que luta há mais de 30 anos por sua independência e adesão ao mundo lusófono.

Se haverá futuro para a união e compatibilização de interesses e países tão díspares, é que não se sabe. Mas, desde já, não se deve descartar duas ideias do professor Adriano Moreira: a da criação de uma frota comercial pela iniciativa privada no âmbito da CPLP - afinal, todos os seus membros são marítimos - para o incremento das relações econômicas entre seus membros, além do estabelecimento de um pacto de defesa e segurança no Atlântico Sul. São ideias que estão no recém-lançado livro Este é o Tempo (Lisboa, Clube do Autor, 2014), do jornalista Vitor Gonçalves, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), que reúne conversas com o professor Adriano Moreira.

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(*) Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site:www.fiorde.com.br.

 


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