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Os portugueses vistos por uma expatriada inglesa

28.11.2016
 
Os portugueses vistos por uma expatriada inglesa. 25534.jpeg

Habituámo-nos a ler Lucy Pepper nos blogues e nas páginas da extinta "Atlântico", posteriormente migrou para o jornal digital "Observador", onde ainda hoje assina uma coluna de opinião. Estreia-se agora na literatura não infantil em língua portuguesa com "Como Não Morrer de Fome em Portugal, Histórias de uma Inglesa Apaixonada pelo Nosso País" (256pp.; 14,90€; Objectiva, 2016), um retrato tão fiel quanto hilariante da realidade portuguesa vista pelos olhos de uma expatriada inglesa.

Nuno Afonso

 

Nesta obra, que reúne as memórias de Pepper desde jovem estudante de visita a Portugal até à decisão de vir residir definitivamente para o país em 1999, sem dominar ainda a língua, o ponto central, mais que a comida, são as interacções e a análise bem-humorada do dia a dia dos portugueses vistas por uma recém-chegada, todas as nossas virtudes e defeitos, pese embora alguns certamente custem a engolir, colocados a nu pelo olho analítico desta cidadã de sua Majestade.

 

O título deriva, claro está, da muito portuguesa tradição de para todos os mais pequenos pormenores da vida - seja celebração, doença ou tristeza - a comida surgir como um bálsamo para todos os males e para todas as ocasiões, é algo que maravilha qualquer estrangeiro, principalmente alguém oriundo da Pérfida Albion, pois nas minhas passagens por Londres verifiquei a veracidade de uma citação da série de Hercule Poirot: "Os ingleses não têm culinária, caro amigo, têm meramente comida", desabafava este a Hastings. Desde as batas das nossas veteranas anciãs, à praga da sopinha (felizmente em extinção), passando pelo cozido à portuguesa, o luso hábito de beber e conduzir, entre muitos outros aspectos da vida nacional, os costumes portugueses são satiricamente metralhados, alguns até homenageados, pela pluma da autora.

 

Pese embora já conhecermos os dotes de autora de Lucy Pepper, a verdade é que não nos tínhamos apercebido o quão original é o seu estilo e o quanto evoluiu no domínio da língua de Camões, não há um único parágrafo entediante neste livro e, deixamos aqui a dica, uma qualquer companhia de teatro ou agremiação de comediantes de stand up bem podiam, e deviam, levar esta obra ao palco, seria um sucesso garantido (ou talvez não, depende inteiramente da existência, ou não, de sentido de humor, principalmente a sempre louvável capacidade de aceitarmos os, e rirmos dos, nossos próprios defeitos).  

 


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